• Nicaria Costa

Veganismo como caminho

A nossa tarefa, enquanto pessoas que acreditam na revolução, é construir alternativas ao sofrimento imposto aos animais, que dialoguem de forma acessível com o proletariado.


Marcha pelo dia do veganismo. Foto reprodução - infobae.com

Nas últimas décadas, os debates sobre a pauta animalista têm crescido e com isso, a noção antropocêntrica de que o ser humano estaria acima das outras espécies vem sendo cada vez mais questionada. Termos como "vegetarianismo" e "veganismo" tem se popularizado, e em meio a essa aparente democratização das discussões sobre os direitos animais, ainda são comuns as resistências em considerar esses movimentos como legítimos ou relevantes na luta contra as opressões impostas pelo capital.

Essa desconfiança se justifica em certa medida. Afinal, existe um setor que advoga a favor dos animais não humanos, ao mesmo tempo que parece não ver problemas em firmar acordos com empresas que devastam o meio ambiente e mantém funcionários em condições insalubres de trabalho. Ou ainda, pode soar distante ao proletariado de modo geral, adotar um estilo de vida, que não raras as vezes, é acusado de elitismo, em razão do valor elevado que alguns produtos são comercializados pelo mercado. Pode-se falar inclusive, em um certo descaso de setores de esquerda em tratarem a questão animal de modo sério e qualificado.

Diante disso, surge como tarefa imprescindível para aqueles que visam a transformação do mundo, compreender as dimensões entre a exploração humana e dos demais seres sencientes, a partir de uma perspectiva radical. Para tanto, é necessário combater tendências liberais, que prometem soluções sem uma mudança estrutural da sociedade e afastar-se de ideais especistas, que corroboram para que o massacre de animais seja naturalizado, assumindo em contraponto uma postura anticapitalista para construir um movimento genuinamente emancipador de todos os seres que habitam a terra.


Especismo, mercantilização e a classe trabalhadora


As razões que afastam a classe trabalhadora da luta pelo abolicionismo animal estão assentadas, em sua maioria, em uma oposição do ser humano em relação aos demais animais. A essa concepção denomina-se especismo.

O especismo corresponde a uma crença na superioridade humana em relação aos outros seres sencientes, sustentado por uma pretensa passibilidade destes em serem explorados. Dessa forma, são postuladas práticas de discriminação a outras espécies, geralmente sob a alegação de que humanos, dotados de racionalidade, estão em uma posição de privilégio em relação aos animais, e seria justo usufruir do que esses seres podem oferecer.

Essa perspectiva está diretamente atada a uma noção antropocêntrica, influenciada pela tradição judaico-cristã, que posiciona o homem no centro do universo, como um referencial de racionalidade e destreza, tendo domínio sobre todas as criaturas que andam pela terra. O antropocentrismo é o sustentáculo do especismo. Estabelece parâmetros sobre quais seres devem servir como veículo para o uso e a fabricação de mercadorias, colocando os humanos na condição de proprietários dos demais animais, e explorando-os para conseguir dar vazão aos seus modos de vida.

O sistema capitalista intensificou a forma com que essas dinâmicas passaram a ocorrer, oprimindo trabalhadores e animais – em suas particularidades - em nome da acumulação de riquezas. A mercantilização das relações de produção imposta pelo capitalismo ratificou a oposição entre seres humanos e animais, e mais que isso, criou uma falsa dicotomia entre natureza e sociedade, tornando a primeira subordinada as ações da segunda. Essa ideia alimenta a lógica produtivista e seu potencial de destruição, e no caso do especismo, valida os maus tratos aos animais.

É necessário compreender o meio ambiente a partir de uma perspectiva indissociável da experiência humana, e perceber que a exploração dos trabalhadores, da natureza e das demais espécies são resultado do mesmo sistema, que transforma tudo em mercadoria.

Carol J. Adams, ao estudar as relações existentes entre o consumo de animais e a dominação masculina, apresenta mais um aspecto para pensar as conexões entre as classes oprimidas e as instâncias do especismo na esfera da alimentação. Segundo Adams, ao transformar seres sencientes em meros pedaços de carne retalhados, o animal que outrora existiu se torna ausente. A autora estende esse exemplo para explicar a objetificação da mulher pelo patriarcado e a cultura misógina, ao passo que também é tornada ausente e esvaziada da sua condição humana ao ser representada a partir de partes do seu corpo, prontas para serem consumidas.

Por meio do retalhamento, os animais se tornam referentes ausentes. [...] Se eles estiverem vivos, não poderão ser carne. Assim, o corpo morto substitui o animal vivo. Sem animais não haveria consumo de carne, mas eles estão ausentes do ato de comer carne, por terem sido transformados em comida. (ADAMS, 2012, p. 79).

Para tornar o conceito menos abstrato, basta lembrar da expressão “pedaço de carne”, utilizada para se referir ao estado de abuso e violência que mulheres são constantemente submetidas, remetendo a situação que animais são tratados.

Diante disso, o veganismo político desponta como uma alternativa possível para somar esforços no combate ao capitalismo e ao especismo. Entretanto, o termo veganismo é cunhado por diferentes vertentes, que possuem referenciais e posturas distintas entre si, e que não necessariamente lutam pela transformação social.


Vários termos, algumas definições


Segundo a The Vegan Society [1], o veganismo compreende um estilo de vida que busca excluir na medida do possível e praticável, toda forma de exploração contra os animais, seja no vestuário, eliminando artigos que contenham couro, por exemplo, até na alimentação. O vegetarianismo, por sua vez, compreende uma dieta baseada em produtos sem origem animal. Assim, enquanto o veganismo incorpora demais setores do consumo, o vegetarianismo compreende a parcela da alimentação.

A definição empregada pela The Vegan Society, em vias gerais é acertada. De fato, pessoas que coadunam com os ideais do veganismo buscam pautar suas ações de forma menos danosa possível em relação aos demais animais. Entretanto, não se trata apenas disso. Ao considerar que o veganismo se reduz a esfera do consumo, perde-se de vista um aspecto imprescindível para a emancipação animal: as conexões entre as opressões.

Limitar o espaço do veganismo ao acesso a produtos, desconsidera os trajetos responsáveis pela elaboração do resultado final em forma de mercadoria. Ou seja, as demandas de exploração de trabalhadores em indústrias, a precarização do acesso a alimentação de boa qualidade nutricional e de valor acessível, a luta campesina pela terra etc. passam despercebidos, diante da preocupação em comprar um novo hambúrguer vegetal, por exemplo.

Nossa crítica não pretende figurar como um ataque a indivíduos que decidem comprar determinado produto. Quando tratamos de ações cooptadas pelo capitalismo, nos referimos a uma esfera estrutural, que subverte ideais buscando o lucro acima de tudo. O que propomos aqui é advogar a favor de um movimento que contemple a diversidade das lutas sociais e que não perca de vista o caráter anticapitalista e revolucionário. Para tanto, buscaremos demarcar as principais diferenças entre a vertente liberal do veganismo, assumidamente defensora de reformas e o veganismo popular, que visa a emancipação animal.


“Veganismo” liberal x Veganismo popular


O veganismo liberal, também chamado de veganismo estratégico, se posiciona a favor de pequenas mudanças dentro da lógica capitalista, que terminariam por amenizar o sofrimento de animais não humanos. Trabalham essencialmente sob a lógica da redução de danos e do bem-estarismo e suas ações são voltadas diretamente para o consumo. Defensores dessa vertente acreditam que a inserção progressiva de produtos sem origem animal no mercado, pode impulsionar a procura por artigos dessa natureza, e assim, a demanda ampliaria cada vez mais esse nicho consumidor, eliminando gradualmente as explorações.

Ao ignorarem – ou não se posicionarem sobre - a urgência em transformar as estruturas sociais que fomentam o massacre de animais, o veganismo liberal promove suas alternativas para minorar esse cenário, a partir de ações individuais. Pregam uma espécie de consumo consciente descolado do coletivo, em que mudanças de hábitos figuram como suficiente, ao passo que promovem paradoxalmente o fomento de produtos de grandes indústrias de “selo verde”.

Esse discurso se assemelha a falácia que geralmente estampa campanhas publicitárias com “soluções” para a melhora da situação climática, através da diminuição do tempo no banho, ou do ato de fechar a torneira ao escovar os dentes. Esquecem de mencionar nesse entremeio, que a média global da pegada hídrica de um quilo de carne bovina é de 15,5 mil litros de água [2], e sequer chegam perto de falar que um dos principais causadores dos desmatamentos na Amazônia é o agronegócio [3]. Esse tipo de abordagem transfere a responsabilidade dos setores que mais devastam o meio ambiente, para condutas pessoais.

A culpabilização dos indivíduos é reflexo da ótica individualista em que se apoia o veganismo liberal. O perigo de estabelecer julgamentos a pessoas que se alimentam de animais, é que costumeiramente o debate é esvaziado e acaba se tornando uma série de acusações de cunho moral. Isso não implica dizer que deve ser retirada a responsabilidade dos sujeitos que fomentam a indústria da carne e derivados, através do consumo. O que deve ser posto em questão, é que o debate é empobrecido e perde sua dimensão política, quando se torna uma troca de farpas entre pessoas “boas” e “ruins”.

Ao compreender as conexões entre as explorações, dentro de suas especificidades, devemos considerar o contexto em que os sujeitos estão inseridos, suas formações culturais, crenças, regionalidades, etc. Todos esses fatores influenciam na forma com que o veganismo, enquanto movimento radical, será percebido e assimilado. A nossa tarefa, enquanto pessoas que acreditam na revolução, é construir alternativas ao sofrimento imposto aos animais, que dialoguem de forma acessível com o proletariado.


É na contramão desse arranque liberal, que o veganismo popular se constrói como

saída.


O veganismo político, ou popular, se posiciona através do boicote a marcas e produtos que exploram animais, aliando a isso a necessidade de atuar pelo fim da opressão humana pelo capitalismo. Esse movimento não encara a questão animalista como descolada da realidade social, ou meramente como uma pauta, esvaziada em despolitização e travestida de altruísmo. Isso porque, não é lógico pensar que dentro do capitalismo haverá a abolição do sofrimento de seres sencientes, se o mesmo sistema perpetua opressões, fomenta o genocídio da população negra, corrobora com o patriarcado e institui ações punitivistas e de encarceramento em massa

Eliminar o consumo de carne, excluir produtos que realizam testes em animais e peças de vestuário confeccionadas a partir destes, são ações imprescindíveis e que se constituem como uma manifestação de respeito por seres que tem suas existências minadas, sem maiores chances de defesa. Entretanto, é preciso estar atento a que lado da trincheira as batalhas pelos direitos animais estão sendo travadas. Um veganismo que não seja anticapitalista jamais será verdadeiramente emancipador.



Nicaria Costa é graduanda em História pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, compõe o Grupo de Estudo e Pesquisa do Brasil Oitocentista (GEPBO) e desenvolve pesquisas sobre o mundo rural.



NOTAS:


1 . A The Vegan Society, criada em 1944, é apontada como a mais antiga associação vegana e a primeira entidade a cunhar o termo “vegan”. Para uma definição de veganismo ver: https://www.vegansociety.com/go-vegan/definition-veganism


2. https://www.embrapa.br/contando-ciencia/agua/-/asset_publisher/EljjNRSeHvoC/content/consumo-de-agua-para-producao-de-um-produto/1355746?inheritRedirect=false#:~:text=A%20m%C3%A9dia%20global%20da%20pegada,5%20mil%20litros%20de%20%C3%A1gua


3. https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/07/27/Qual-a-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-o-desmate-na-Amaz%C3%B4nia-e-o-agroneg%C3%B3cio


REFERÊNCIAS:

ADAMS, Carol J. A Política Sexual da Carne. São Paulo: Alaúde, 2012.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017.

FERRIGNO, Mayra Vergotti. Veganismo e libertação animal: um estudo etnográfico. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2012.


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