• Clio Operária

Universidades particulares e a educação como mercadoria

Nas últimas semanas vem sendo comum notícias sobre as universidades particulares demitindo professores, funcionários em geral e cobrando preços abusivos por EaD.

Imagem: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Foglobo.globo.com%2Fsociedade%2Fprotestos-contra-bloqueio-de-verba-da-educacao-reunem-manifestantes-em-todos-os-estados-23666500&psig=AOvVaw2FrL_8vfwiiqXHVilpat1Q&ust=1594422221665000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCJirmumjweoCFQAAAAAdAAAAABAD

Lucas Modaneze e Vinicius Souza


Já não é nenhuma novidade a maneira como as universidades privadas vêm utilizando das atuais circunstâncias, já complicadas por si só, para tomar medidas arbitrárias em detrimento não somente do corpo docente, mas também de seus alunos. Assistimos nas últimas semanas as demissões em massa em diversas instituições de ensino superior mesmo com a insistente recusa em efetuar a redução do valor das mensalidades diante da introdução do ensino à distância, um ponto reivindicado com veemência pelos alunos, já que o serviço prestado não corresponde ao estabelecido nos contratos. E isso para citar o caso mais comum.

No entanto, a Universidade Nove de Julho superou todos os absurdos possíveis no início desta semana. Depois de ter demitido todo o corpo docente do curso de Turismo no final do mês de junho, levando aos alunos acreditarem que as atividades seriam transformadas permanentemente no modelo EaD, o que por si só já implicaria numa queda drástica da qualidade do ensino o início desta semana trouxe um pesadelo ainda pior.

Na segunda feira, 06 de julho, a instituição manobrou visando forçar o pagamento da rematrícula para o semestre seguinte ao colocar a data de vencimento para o mesmo dia em que foram liberados os boletos, unicamente para anunciar na terça-feira, sem aviso prévio, que o curso seria extinto. A notícia pegou todos de surpresa. Uma das alunas matriculadas no último semestre afirma que não houve qualquer tipo de suporte ou opção diante dessa decisão. Segundo ela, a instituição ofereceu aos alunos a pretensa escolha entre obter o diploma de tecnólogo de hotelaria, longe do que era esperado, ou a transferência para o curso de administração - o que não condiz nem com a realidade, nem com os objetivos dos alunos prejudicados.

Para aqueles que estão ainda nos primeiros semestres, há também informações de que a Uninove vem dificultando a liberação dos documentos necessários para a realização da transferência para outras instituições, como o histórico responsável pela eliminação das matérias. Esse revoltante episódio se soma a diversos outros ataques que as instituições privadas vêm realizado no último mês e que aparentemente estão longe de cessar.

As denúncias dos alunos das universidades particulares vem sendo uma constante desde o início da suspensão das aulas devido a pandemia, são universidades que cobram valores presenciais pelo EAD, bolsas que não foram renovadas, sistemas sobrecarregados, alunos com internet ruim e sem computador em casa sendo submetidos a enorme precarização, dentre tantos outros abusos.

O que não deve ser esquecido, é o fato de que as demandas dos alunos das instituições particulares não apareceram com a pandemia. É fato conhecido que muitas dessas universidades possuem um histórico de aumento abusivo das mensalidades e, desde a Reforma Trabalhista de Michel Temer, vem demitindo professores em massa e precarizando, cada vez mais o quadro geral de funcionários.

Recentemente, várias dessas universidades realizaram demissões massivas com a justificativa da crise atual, grupos gigantescos que são monopólios predatórios como o Grupo Cruzeiro do Sul, demitiram não só professores, como os funcionários de maneira geral, incluindo estagiários. Não basta a precarização pelo EaD, os abusos financeiros e as questões relativas aos estágios obrigatórios, a burguesia que carterizou o ensino superior particular marcha cegamente em direção ao lucro, sem se importar de pisar em seus alunos, funcionários e corpo docente no processo.

As universidades particulares se afundam cada vez mais na lógica de mercantilização do ensino, ao mesmo tempo que diminuem constantemente a sua produção científica. Quem ganha com esse processo são os donos dos monopólios educacionais, que cada vez mais formam mão de obra para o mercado de trabalho, cortam custos de produção científica e lucram com mensalidade exorbitantes.

Por muito tempo a mobilização do movimento estudantil esteve fora das universidades particulares, justamente as universidades onde está a classe trabalhadora que consegue chegar ao ensino superior. É hora de dar um basta nisso, os estudantes dessas instituições precisam se apropriar da disputa política educacional e dar voz as suas demandas e particularidades. Não devemos aceitar mais abusos, não devemos aceitar que a educação permaneça sendo apenas uma mercadoria do capitalismo, chega da lógica de proletários diplomados que possuem um local marginalizado na divisão do trabalho mesmo com ensino superior.

Pela luta dos estudantes das universidades particulares!!!!

Lucas Modaneze é graduado em História pela Universidade Cidade de São Paulo e tem como área de interesse a História Contemporânea. Atua no Laboratório de Estudos e Pesquisas em História (LEPH) da mesma instituição na organização, catalogação e conservação do acervo. É um dos organizadores do site "Taverna do Bloch" e colabora com o projeto Histori0logando, ambos voltados a divulgação do conhecimento histórico.


Vinicius Souza é historiador pela Universidade Cidade de São Paulo, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo e colabora com o site Taverna do Bloch.

84 visualizações
apoie.png