• Clio Operária

Uma Singela Homenagem a Alexandra Kollontai: A mulher que trouxe e traz novas luzes a obscuridade

Atualizado: 7 de Jul de 2020


Fonte: https://cemflores.org/index.php/2018/12/20/a-prostituicao-e-as-maneiras-de-combate-la-alexandra-kollontai/

Por Lucas Oliveira*


A luta feminina carrega a força e a energia de Anas, Olgas, Marias, Elenas, Fridas, Rosas e Alexandras – Mulheres que inauguraram um novo tempo, um tempo onde elas estavam lutando por sua participação política na construção de uma nova sociedade, que resultaria a liberdade total da raça humana.

Alexandra Kollontai, já em 1907, denunciava o casamento e a família burguesa como correntes que prendiam e oprimiam a mulher. Para se tornar verdadeiramente livre, a mulher deve desatar as correntes que a joga sobre a forma atual, antiquada e opressiva da família. Para as mulheres, a solução para o problema familiar não é menos importante do que a conquista da igualdade política e o estabelecimento da independência econômica completa (KOLLONTAI, 1907). Kollontai se indignava ao ver que uma mulher que vivia livremente a sua sexualidade era julgada de maneira severa enquanto que aos homens tudo era permitido, isso é muito atual porque estamos em 2020 e parece que nada aprendemos desde 1907. Ela, então, acreditava que era dever da classe operária lutar contra a opressão sexual vividas pelas mulheres, era preciso, segundo ela, uma nova relação entre os sexos baseada“em dois princípios novos: liberdade absoluta, por um lado, e igualdade e verdadeira solidariedade entre companheiros, por outro”.

Kollontai se questionava pela situação confortável que a sua família lhe dava, enquanto os operários tinham tantas necessidades, então se ajuntou aos operários e rebeldes finlandeses desde cedo, e em 1917 foi a primeira mulher eleita para o soviete de Petrogrado, após a revolução de fevereiro, participando ativamente da revolução de outubro. Em 1918 organiza o primeiro congresso de mulheres trabalhadoras de toda a Rússia. Seus posicionamentos abriram caminho para que a revolução russa desse direito de voto as mulheres, criasse condições de igualdade salarial, igualdade de gênero e que aprovasse o divórcio e o aborto, além de criar benefícios sociais para a maternidade e creches públicas. Atuou de forma direta na organização do Dia internacional da mulher em seu país, com a participação massiva de operárias e camponesas. Sendo ela então, uma das pioneiras de organização das mulheres trabalhadoras e do feminismo de cunho socialista, lutou arduamente nessa coletividade pela emancipação da política da mulher e pela emancipação humana. Preocupada com a necessidade de chamar mais mulheres pra que se envolvesse nos embates de seu tempo histórico, no X congresso do Partido Comunista Russo 1921, juntamente com os demais camaradas, Kollontai alerta aos perigos da degeneração burocrática que ameaçava o partido e o processo revolucionário, propondo o controle das instituições pelos trabalhadores e processos de produção baseados na autogestão da produção, a partir de um programa da ¨Oposição Operária¨. Esta foi derrotada pela posição de Lenin durante o congresso.

A partir da morte do camarada Lenin (1924), a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), assume novas contradições que vão influenciar na vida militante de diversos camaradas, entre eles, Kollontai que mesmo ¨exilada¨ tornou-se embaixadora na Noruega e no México. “Em agosto de 1924, fui designada ‘ministra plenipotenciária’ e entreguei minhas credenciais ao rei da Noruega com o cerimonial usual” (32). Mais uma vez Kollontai enfrentava o arraigado preconceito: “Isto, é claro, deu à imprensa conservadora de todos os países uma outra ocasião para vomitar suas mentiras sobre mim. Afinal de contas, nunca antes em toda a História uma mulher tinha sido aceita como embaixadora com a pompa e cerimônia habituais (...) A imprensa conservadora, especialmente a imprensa ‘branca’ russa sentiu-se ultrajada e tentou fazer de mim um verdadeiro monstro de imoralidade e um espectro sangrento. Particularmente agora, foi escrita uma profusão de artigos sobre minhas ‘ideias horríveis’ em relação ao casamento e ao amor” (33). Frisando mais uma vez que pela primeira vez na história, uma mulher assume uma função como essa. Sua missão na Noruega teve êxito em contribuir pela normalização das relações comerciais entre os dois países em 1925. Em 1937, passou novamente pelo México arrecadando fundos para os combatentes da Guerra Civil Espanhola. Em 1945, com 73 anos, se aposenta e retorna a Rússia. Recebendo de Stálin a mais alta comenda do Estado Soviético, a Ordem de Lênin.

Quando escreveu a sua autobiografia, Kollontai terminou dizendo: ¨Está perfeitamente claro para mim que a libertação completa da mulher trabalhadora e a criação das bases de uma nova moral sexual manter – se não para sempre como o alvo mais elevado de minha atividade, e de minha vida¨. Ela acreditava na convicção de que ¨inevitavelmente chegará ao tempo em que uma mulher será julgada pelos mesmos padrões morais utilizados pelos homens¨ (KOLLONTAI, 1926). E, por fim, ela escreve, ¨Eu não podia levar uma vida feliz e pacifica quando a população se encontrava terrivelmente escravizada¨.

É preciso que surja novas Kollontais, para enfrentar e derrotar os czares e os guardas brancos do nosso tempo. E certamente ajudará a iluminar as lutas atuais onde a libertação do corpo da mulher, o direito livre ao aborto, a eliminação do feminicídio, da opressão feminina e a socialização de todo trabalho doméstico, inclusive o da educação dos filhos, são algumas das bandeiras que levantamos contra o capitalismo, barreira estrutural para a emancipação de toda opressão e contra a qual se levantou, em seu tempo, Alexandra Kollontai.

*Lucas oliveira é historiador e pesquisador sobre gênero e sexualidade.


REFÊRENCIAS:


KOLLONTAI, Alexandra. Autobiografia de uma Mulher Comunista Sexualmente emancipada. Traduzida por Ligia Gomes. SP: Editora Sundermann, 2007.


KOLLONTAI, Alexandra. Os Fundamentos Sociais da Questão Feminina (Extratos,) 1907.

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