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Uma moda chamada: Negacionismo histórico

Robson J. Almeida*


Para entendermos essa recente manifestação negacionista, temos que contextualizar o porquê que esse movimento existe, e como vem atualmente crescendo e ganhando força ao redor do mundo. Nos últimos anos, o mundo tem vivenciado uma crescente negação de fatos históricos. Frases como o holocausto nunca existiu, o nazismo é de esquerda, a ditadura militar foi branda, não existiu escravidão e não houve genocídio indígena, estão se tornando comuns em conversas diárias, principalmente em redes sociais e grupos de WhatsApp, onde há uma disseminação enorme de fake-news — onde esse movimento é ainda mais propagado. Utilizando as mais diversas ferramentas para disseminar a negação de acontecimentos históricos comprovados, o negacionismo se espalha.


Está presente como fenômeno no Brasil desde os anos 70, especificamente em relação ao holocausto. Atualmente, o tema tem voltado ao debate a partir de declarações do governo Bolsonaro, como de que “nunca houve golpe militar em 1964” e de que “o racismo no Brasil é uma coisa rara”.



Pleno 2020 cresceu movimentos em favor da volta da ditadura, que se iniciou em 1964, e perpetuou durante 21 anos. Causando inúmeras mortes, torturas e desaparecimentos, há quem não era simpatizante com o “governo” militar daquela época. Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/media/_versions/ditaduransnndnd_widelg.png

São justamente essas novas perspectivas da análise do passado que incomodaram setores mais conservadores da sociedade, por produzirem efeitos no presente, como naComissão Nacional da Verdadee nas políticas de ação afirmativa e de direitos das mulheres.


“Para esses setores, mais vale um falso passado conciliador que a dor latente de um passado cheio de falhas que ainda deixa marcas em nosso presente. Esses grupos entenderam que a manutenção de seus privilégios historicamente construídos depende fundamentalmente do controle da narrativa sobre o passado”.


Vítimas da ditadura militar no Brasil: evidências que não podem ser negadas. Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/media/uploads/ditabranda66.jpg

O negacionismo vem questionando dados há muito tempo resolvidos, e até assuntos envolvendo as ciências geológicas, como a teoria da Terra Plana. O mais alarmante é quando a sociedade se permite inserir nesse retrocesso de pensamento, questionando até o formato do planeta, sim, o ‘terraplanismo’ vem ganhando adeptos nesses últimos anos. Mas por que isso está acontecendo ao redor do mundo?


Essa negação da história foi se espalhando por páginas conservadoras nas redes sociais, e, aos poucos, foi se incorporando ao discurso bolsonarista. Em julho de 2018 ficou claro quando o então candidato a presidente Bolsonaro chocou os brasileiros ao culpar os africanos pelo tráfico negreiro.

“Se você for ver a história realmente, o português não pisava na África, era os próprios negros que entregavam os escravos”, disse Bolsonaro numa entrevista à TV Cultura.


Este retrocesso do pensamento não é um caso raro na história da humanidade, mas, surpreende por ainda estar presente em pleno século XXI, e com tanta informação disponível. Então podemos analisar como a ignorância é predominante nessas sociedades, que relutam contra os fatos históricos.


Há uma disseminação conflitante de interesses nas sociedades que propagam o negacionismo, conflitos muitas vezes políticos e religiosos, que não aceitam a veracidade dos acontecimentos históricos, pois tais acontecimentos não vão de acordo com o que eles (negacionistas), julgam ideais para sua sociedade. Então propagam inverdades, que só prejudicam e assim geram conflitos.


“A História tem sido manipulada por setores desta ‘nova direita’ com o objetivo principal de legitimar os seus projetos políticos. O que orienta a narrativa sobre o passado que esses grupos e indivíduos produzem não é o rigor acadêmico, nem os princípios da divulgação científica, da história pública ou do ensino de História, mas um projeto político”, afirma o historiador Bruno Leal, da Universidade de Brasília.

Claro que a intenção desse movimento de negação é a divisão das massas populares, já que a maioria desses ideais negacionistas surgem da classe dominante, para que assim eles alcancem seus objetivos, que é fazer a roda do sistema continuar ao seu favor, para que assim eles continuam a ditar o que é verdade ou não.


“Há um revisionismo histórico, com fins políticos, em curso no Brasil. Ele é baseado na negação e manipulação de fatos e são promovidos por integrantes do governo Jair Bolsonaro e seguidores da “nova direita”. Dizer que não houve golpe em 1964 e que o nazismo foi um movimento de esquerda, como afirmou o próprio presidente, são apenas alguns exemplos”.


A pandemia do novo coronavírus no Brasil criou mais um elemento do negacionismo. Vindo diretamente do atual chefe de estado, Bolsonaro desde o começo da pandemia no país, ironizou, negou e vem negando de forma enfadonha os acontecimentos que o vírus vem causando no Brasil. É gravíssimo o pensamento e as atitudes que o presidente da república vem cometendo, ao ponto de simplesmente ignorar e fazer sátira com os mais de 7 mil mortos pelo novo coronavírus ( COVID-19).



Familiares, em desespero, abrem caixões depois de terem acesso a fake-news, propagada pela Deputada Carla Zambelli (PSL-SP) ela disse: “No Ceará tem caixão sendo enterrado vazio. Tem uma foto de uma moça carregando um caixão com o dedinho”. “Diziam ainda que, para prejudicar o governo federal, a cidade de Manaus estava enterrando caixões vazios, apenas para causar impacto na mídia”. Fonte: https://www.facebook.com/iconografiadahistoriaoficial/photos/a.240861363029879/972746476508027/?type=3&theater

Fazendo uso de comentários negacionistas que infelizmente reflete na sociedade brasileira, tais discursos afetam os esforços dos órgãos competentes no combate ao COVID-19. Estamos passando por um período onde o interesse político da classe dominante está escancarado, deixando claro que o pobre trabalhador não passa de um número para as empresas. Precisamos unificar a população para enfrentar crises como essa pandemia, com uma maior conscientização, pois só assim se livraremos dos que julgam negar a história.


Fonte: https://www.instagram.com/midianinja/?hl=pt-br

Esse revisionismo histórico, baseado unicamente na deturpação de fatos, teria como alvo tudo que é visto como uma ameaça à ideologia destes grupos.

“Esse processo de deslegitimação chega a questionar os próprios métodos científicos ou a ciência como um paradigma de explicação da sociedade. Temos atualmente essa situação lamentável, onde a história é o elo mais atacado por essa extrema-direita”, diz a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, da Fundação Getúlio Vargas.

O que vem ocorrendo, inclusive entre acadêmicos, intelectuais e políticos, é uma tentativa de revisar a história através da ideologia, onde se olha para um fato (por exemplo, os dados sobre genocídio indígena no Brasil) a partir de um prisma ideológico.

“Quais as fronteiras entre o revisionismo historiográfico e o ideológico? O que deve pautar a revisão historiográfica, e qual a relação entre isso e uma perspectiva ideológica? Não se trata de inibir opiniões sobre a História, mas deixar claro que o conhecimento histórico tem que ir além da opinião. Ele pode compor opinião, mas é, sobretudo resultado de um trabalho, de um método, de uma reflexão sobre evidências e fontes, que obviamente não visa silenciar as opiniões sobre o passado. Mas é preciso que se estabeleça um critério para se entender o que é evidência, o que é fato, e o que é efetivamente uma negação de tudo isso”, afirma o professor Marcos Napolitano.

Com todo esse contexto e aprofundamento, ainda questionamos o porquê que algumas sociedades ao redor do mundo, preferem negar a verdade dos acontecimentos históricos. Sabemos que há um envolvimento em torno da sua ideologia, mas, tais sociedades preferem acreditar no que lhe convém. O fator psicológico regido pelos representantes na politica ajuda a proliferar essa infeliz moda que virou o negacionismo, fazendo as pessoas regredirem no pensamento critico, ficando a mercê do medo e da mentira.

Como já dizia o então chefe da propaganda nazista Joseph Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

*Robson J. Almeida é Historiador, escritor e sempre ávido por transmitir conhecimento.


Referências:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/negacionismo-historico-no-brasil-atual-por-que-estamos-negando-os-fatos.phtml

https://www.cartacapital.com.br/politica/o-negacionismo-historico-como-arma-politica/





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