Um pequeno reparo histórico



Fonte: https://domtotal.com/fato-em-foco/398/2017/09/nossos-monumentos-ao-racismo/


A narrativa da história traçada pelos colonizadores vem se alterando conforme a sociedade começa a se conscientizar dos símbolos que são homenageados: estatuas como monumentos, carregadas de uma história de profunda vergonha, que nem deveriam ter sido construídas. “As estátuas, enquanto monumentos são, portanto, uma ferramenta de preservação de valores e de identidade de determinada sociedade.”


“A construção do que entendemos como patrimônio histórico é um movimento ativo, consciente, fruto da vontade humana de preservar e materializar o presente no futuro, de evocar uma memória para dar a ela significado e para perpetuá-la. O valor de um patrimônio é dado pelas relações sociais e simbólicas que giram em torno dele, ou seja, existe aquilo que uma sociedade entende que deve preservar que tem um motivo para preservar, e isso consiste em escolhas”.


A relação de afetividade e a sensação de pertencimento tornam os monumentos em construções complexas. Remete à uma experiência emocional, onde se produz a autoestima de um grupo, porque aciona a recordação de um passado histórico, ou seja, importante.


Nos últimos dias esse tema vem sendo muito discutido nas redes sociais, sobretudo em referência a derrubada de monumentos ao redor do mundo. Estamos passando por um processo de reparo histórico, onde a sociedade está se despertando das amarras dos colonizadores. A construção de uma nova narrativa, partindo do olhar daqueles que foram escravizados e oprimidos, é mais do que necessária.

Precisamos nos atentar as quais perspectivas querem nos transmitir com esses monumentos, já que não há um aprofundamento da história por traz dessas construções, que muito se visualiza o tamanho e a exuberância do homenageado.


Os monumentos que trazem grandes repercussões em território paulista são, dentro muitos, a estátua de Borba Gato e Monumento às Bandeiras, mais conhecido como Monumento dos Bandeirantes. Ambas são construções grandiosas que chamam atenção de quem passa por perto, isso reflete como a magnitude do tamanho é mais importante do que o seu contexto histórico. A retirada desses monumentos representa um pequeno reparo histórico, por se tratar de colonizadores que assassinaram, estupraram e escravizaram os povos indígenas, além de lucrarem com a exploração da terra brasileira, trazendo mão de obra escrava do continente africano. E mesmo com todo esse nefasto contexto histórico, o Brasil prefere exaltar esses “heróis” colonizadores.


Há uma disputa pela narrativa da história, onde os conquistadores exaltam seus assassinos e acobertam seus atos desumanos, enquanto isso destroem qualquer evidencia que comprove os acontecimentos desses terríveis atos.


“Não se encontra uma senzala preservada nas antigas fazendas no Brasil. Nunca houve interesse do Estado em mantê-las como espaços simbólicos e críticos à escravidão. Enquanto existem espalhadas pelo país centenas de marcos simbólicos de elogio e perpetuação da escravidão através dos bustos de heróis escravistas.”


Mas a preservação das antigas senzalas esta ligada diretamente a disputa dessa narrativa da história, onde é regida pela classe dominante, que sabe desse contexto, mas por motivos óbvios, prefere proteger os monumentos que retratam a colonização do Brasil e apagar quaisquer vestígios do passado escravocrata.


Essa luta reflete as disputas anticoloniais e antirracistas, é essencial a conscientização de todas as classes sociais, para que tenhamos uma nova narrativa da história, que esses “heróis” sejam destituídos de tal posto, que seus monumentos sejam retirados e suas verdadeiras histórias fiquem evidentes para todos.


Robson é historiador e membro da Revista Clio Operária.



Referências:

https://ponte.org/artigo-derrubar-monumentos-e-tira-los-das-maos-do-opressor-e-recontar-a-historia-como-deve-ser/?


fbclid=IwAR2IlZvZQ7SsESLXnksLepX3UO9UHznQw8QMmbuiUHPfLK1D_D8XLW6Oj9U#/

https://domtotal.com/fato-em-foco/398/2017/09/nossos-monumentos-ao-racismo/




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