• Reinaldo Gomes

Um mundo de iguais



O despertador tocou, mas Pedro já estava acordado. Passara a noite em claro, perturbado com tantas preocupações. Não compreendia como um país inteiro havia parado por algumas mortes, pessoas morrem todos os dias. O Brasil não tem economia para suportar esse período de quarentena e enquanto ele se esforçava para continuar trabalhando para pagar suas dívidas, o número de “vagabundos" só aumentava, lógico, querem mamar nas “tetas" do governo.


Ele olhou pro lado em busca de sua esposa, mas a cama estava vazia. Ele estava tão atordoado que nem percebeu a ausência dela. Levantou e a procurou pela casa, mas não a achou. De repente, se deu conta de que a esposa não dormiu na cama com ele. Estaria ela chateada por alguma das suas constantes discussões? Teria que resolver isso mais tarde, precisava sair para o trabalho e não gostava de se atrasar.


Pedro tomou um banho e se vestiu e enquanto isso, pensava no que iria postar nas redes sociais para criticar o isolamento e justificar as ações do Presidente. Ele, “homem de bem", precisava ajudar o chefe do Executivo a vencer os outros, que pretendem afundar o Brasil. Ele gostava de ser feroz em suas postagens e agressivo nos seus comentários.


O trânsito estava bom, se não encontrasse nenhum congestionamento mais a frente, chegaria rápido ao trabalho. Parou em um farol e imediatamente um homem apareceu para pedir esmola. Pedro não nutria simpatia pelos moradores de rua e imediatamente fechou o vidro do carro e o ignorou. Assim que o farol abriu arrancou com o carro pensando em como alguém pode ajudar esses “vagabundos" que vivem de esmola e não gostam de trabalhar.


Quando chegou ao trabalho, observou que apenas o carro do Gustavo, que trabalhava no almoxarifado, estava no estacionamento. Pedro considerava Gustavo, um “comunista" defensor de ladrão e uma ameaça à moral e aos bons costumes. Pensou em ir até o refeitório tomar um café e provocar o Gustavo, mas quando estava entrando na empresa, um menino de 7 anos apareceu na sua frente lhe pedindo ajuda. Assim como fez com o morador de rua, o ignorou e entrou na empresa furioso. Era um absurdo as autoridades não tomarem nenhuma atitude para acabar com a “invasão” dos sem teto no prédio ao lado da empresa na qual trabalhava. Agora ele era obrigado a ignorar todos os dias esses “pedintes” famintos e sujos. Aquilo acabava com o seu dia.


Entrou no elevador, que estava vazio, um dos benefícios de chegar cedo, e apertou o 6 andar. Quando chegou no refeitório, viu que o Gustavo já estava tomando café, aproveitou que ele estava de costas e gritou: e aí seu comunista de bosta, o que vai falar do meu Presidente hoje?

Gustavo se virou e encarou Pedro que ficou atordoado. Pedro não conseguia entender o que estava acontecendo, ele estava olhando para o Gustavo, mas o rosto que ele via era o seu próprio rosto. Gustavo continuava com sua altura, penteado do cabelo, com suas roupas habituais, mas o rosto era o do Pedro.


Após alguns segundos, Gustavo disse para Pedro: o que você está fazendo aqui?! Pensamos que você não viria hoje.


Pedro, que o olhava assustado, disse: como assim acharam que eu não viria hoje?! Que brincadeira é essa, o que está acontecendo aqui?!


Gustavo se aproximou, colocou a mão direita no ombro de Pedro e disse: eu sei, você está passando por um momento difícil, deveria ir pra casa, sua esposa faleceu ontem e você precisa descansar .

Pedro ficou furioso, como assim sua esposa havia falecido?! Ele não podia acreditar no que estava acontecendo, então ele saiu correndo para o elevador, precisava encontrar sua esposa e entender o que estava acontecendo, como assim o Gustavo, um “comunista" de bosta poderia ter o mesmo rosto que ele? Eles não eram iguais.


Ele pegou o seu carro e saiu desesperado para sua casa, mas, quando passou em frente ao prédio que os sem teto haviam invadido, viu com um pouco de contentamento, que os policiais estavam expulsando os “meliantes". O menino que lhe pedira ajuda há pouco, entrou na frente de seu carro, Pedro freiou bruscamente e foi por muito pouco que não atropelou o menino. E então ele foi obrigado a fazer algo que sempre evitou, ele olhou no rosto do menino e quase infartou, ele viu o seu rosto no semblante sujo e sofrido do menino. Ele não tinha dúvida, era um menino de 7 anos, mas que tinha o seu rosto. Um casal veio correndo ao encontro do menino, ele os olhou fixamente e viu o seu próprio rosto nos moradores de rua também.


Na ímpeto do desespero ele desviou deles e acelerou o carro abruptamente, ele precisava chegar em casa, aquilo só podia ser um pesadelo. Aquele menino e moradores de rua jamais poderiam ser iguais a ele, aquilo era um absurdo. Mais uma vez foi obrigado a parar em um farol, e o mendigo que ele ignorou momentos antes, parou na frente do seu carro, mas desta vez ele não pediu ajuda, ele apenas disse: nós somos iguais, eu sou você. Pedro o olhou e o homem era uma cópia sua, estava sujo e mal vestido, mas era igual ao Pedro.


Pedro não respondeu, estava assombrado e tudo o que conseguiu fazer foi arrancar com o carro, mesmo com o farol fechado, e foi por muito pouco que não o bateu. Quando chegou em casa, gritou desesperado chamando sua esposa, mas não obteve nenhuma resposta. Caiu no chão em um choro descompensado, ficou ali por alguns minutos tentando entender o que estava acontecendo. De repente a porta da cozinha se abriu e um homem entrou, o homem também tinha o rosto de Pedro, mas tinha a voz do vizinho com quem tantas vezes ele havia se desentendido. O homem o olhou e disse: então você está aqui, vamos só você pode ir no enterro. Eles já vão enterra la.


Pedro estava cansado, não conseguia mais falar nada, se julgava enlouquecido. Entrou no carro, e enquanto seu vizinho dirigia ele olhava pela janela e via assombrado que todas as pessoas tinham o mesmo rosto: o seu. O menino brincando com o cachorro na rua, o homem que vendia hot dog, o gari, os homens no bar, todos eram iguais a ele, que sempre se sentiu diferente. Ele não podia ser igual aos outros, isso era loucura.


O homem o levou por um corredor e disse que só podia ir com ele até ali, ele precisava ir sozinho. Ele andou desconsolado pelo corredor, até que chegou em uma pequena sala com um caixão. Havia uma pessoa ao lado do caixão, que não o surpreendeu por ter o seu rosto também. Pedro olhou dentro do caixão e viu sua esposa, que também tinha o mesmo rosto do Pedro. Ele balbuciou para a pessoa que estava ao lado: o que causou a morte dela?


A pessoa respondeu: os médicos disseram que foi covid-19


Pedro saiu e se viu imerso em um mundo onde todos eram iguais, mas que viviam de formas diferentes. Eram vários Pedros que passavam fome, que não tinham lar e nem emprego. Então do outro lado da rua ele viu alguém que não tinha o mesmo rosto que ele, então se aproximou e disse: todos os homens, mulheres e crianças são iguais, todos tem o meu rosto, menos você. O que está acontecendo?!


O homem olhou para Pedro e disse: isto é humanização, em seu primeiro estágio. Primeiro você começa a ver os outros como iguais, depois você passa a sentir o que eles sentem. Você nunca mais será o mesmo depois disso.


A humanização é um ato de amor, apenas o amor é capaz de olhar o outro como um igual. E quando nos vemos como iguais, se torna mais difícil aceitar que um igual durma na rua, que um igual passe fome ou que um igual seja tratado como uma estatística. Toda vida se torna valiosa e nenhuma economia pode se colocar acima dela.

O amor é o primeiro passo para a revolução.


Reinaldo Gomes é estudante de História e editor da revista Clio Operária.

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