• Clio Operária

Um continente esquecido

Robson J. Almeida*


Um continente rico em cultura e em terras férteis, que há muitos séculos é explorado e deixado na miséria por representantes das elites dos países ricos. Estamos falando de África, continente com maior número de países (54 países ao todo) e infelizmente boa parte da população existente no continente perece em condições de pobreza e miséria.


Por circunstâncias da exploração, as guerras e os governos autoritários prejudicaram o desenvolvimento do continente africano, que ainda nos dias atuais, luta para se livrar desses conflitos que a classe dominante através dos anos enraizou em sua terra, negando ainda os terríveis atos cometidos.


Temos uma visão empobrecida e ofuscada desse enorme continente, um dos motivos é a ganancia que vemos nos grandes meios de comunicação ao redor do mundo, que utilizam estereótipos para abordar os acontecimentos do continente, como por exemplo, a forma que relativizam a miséria no continente, tratando-a como recorrente, porém sem ir ao cerne de sua origem e do porquê de ela ser recorrente.



O Continente Africano é denominado o berço da humanidade. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/746330969471659545/

Descrito esse contexto perverso, vemos que as tragédias no continente africano não repercutem da mesma forma que as tragédias em países do continente europeu. Temos infelizes exemplos dessa aceitação tenebrosa que vem acontecendo em solo africano, desde surtos de doenças como o do ebola em 2014:


“Desde sua detecção inicial, o vírus já se espalhou pela Libéria, Serra Leoa, Nigéria, Senegal e Estados Unidos. O presente surto é o mais grave já registrado, seja em número de casos, como em vítimas fatais”.
“O balanço da epidemia da febre hemorrágica ebola na África Ocidental ultrapassou a marca de 12 mil mortes, segundo números divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

Mulher caminha ajoelhada, tomada por um desespero terrível, tentando se aproximar do corpo da irmã, o qual está sendo levado para cremação, em meio à epidemia de Ebola, na Monróvia, Libéria, em 2014. Fonte: /iconografiadahistoriaoficial/

E também tivemos o terrível ciclone que arrasou Moçambique em 2019:“A passagem do ciclone Idai em Moçambique, no Zimbabué e no Maláui fez pelo menos 1005 mortos e afetou 2,9 milhões de pessoas nos três países, segundo dados das agências das Nações Unidas. O Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, estima que haja pelo menos 1 milhão de crianças afetadas pelo ciclone em Moçambique”.


O ciclone Idai que atingiu Moçambique é considerado a maior catástrofe natural que já atingiu o hemisfério Sul. A passagem do ciclone deixou 1.528 pessoas feridas e 89 mil desabrigadas além das mortes. Fonte: https://img.r7.com/images/idai-21032019184732219

Ambos os acontecimentos foram os que mais repercutiram na mídia mundial, porém, se fizermos uma analogia dessas estatísticas, foi diminuta a divulgação das notícias do ciclone em Moçambique devido a outra tragédia que aconteceu no mesmo período: o incêndio na Catedral de Notre Dame, na França. A catedral sofreu um incêndio que devastou boa parte de sua estrutura. Felizmente não houve vítimas ou feridos no local, mas o que mais chamou a atenção foi à divulgação e comoção ampla da mídia e doações milionárias:


“Grandes empresas do país abriram seus cofres para financiar a recuperação da emblemática catedral. Até agora, foram prometidos 800 milhões de euros (cerca de 3,5 bilhões de reais) em doações”.

Moçambique foi ligeiramente esquecida, mesmo havendo vítimas fatais e boa parte da população desabrigada e em situações deploráveis. Mesmo diante de tudo isso, o mundo se preocupava com uma catedral que se encontrava em Paris, capital da França. Coincidentemente, mais uma vez, um acontecimento na Europa teve mais repercussão que no continente Africano.

Notre-Dame mobilizou 16 vezes mais doações do que ajuda a Moçambique. Fonte: https://static.globalnoticias.pt/pg/image.aspx?brand=PG&type=generate&guid=7ac6dc38-6119-4be0-ade0-7b5b3a52cb36

Novamente voltamos à normalização de tragédias em solo africano. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), morrem em um ano 400 mil pessoas de malária no continente africano, assim, observamos como se tornou monótono reportar tais acontecimentos, mesmo havendo vidas sendo perdidas e pessoas sem ter o que comer ou onde morar.

Então chegamos ao momento dessa pandemia causada pelo novo coronavírus (COVID-19), e vemos que nada mudou referente ao continente africano. Sabemos de tudo que acontece sobre essa pandemia em países ricos, mas pouco é divulgado sobre o que vem acontecendo na África.


“O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, afirmou hoje que o continente africano já possui 2.650 casos confirmados de coronavírus. Até o momento, 49 pessoas morreram de covid-19 na região”.


A mídia não faz a cobertura necessária, mas segundo os dados, essa pandemia pode dizimar países pobres que se encontram no continente. Ocorrerá mais uma tragédia se não houver ampla divulgação e ajuda das organizações mundiais.


“A OMS tem focado suas atenções mais nos países ricos. São eles que pagam a conta afinal. O presidente da instituição deveria trazer o debate também para o continente africano, algo que não vem fazendo. E os outros países, neste momento, vivem cada um o seu caos em ralação à doença”.
“Na África Subsaariana, 63% da população de áreas urbanas — 258 milhões de pessoas — não pode lavar as mãos, segundo os dados do Unicef, porque não tem acesso a água e sabão”.


Uma das dificuldades impostas pelo isolamento no continente, no entanto, é o fato de o trabalho informal ser a principal fonte de renda para milhões de famílias africanas, de modo que um isolamento social ou parcial pode acabar com a renda delas. Fonte: https://exame.abril.com.br/mundo/coronavirus-avanca-na-africa-e-paises-adotam-medidas-restritivas/

Os números de infectados pelo novo corona vírus têm aumentado esporadicamente no continente africado desde a publicação da matéria citada. No momento em que escrevo esse artigo, segundo os dados da OMS, os números de infectados no continente Africano já passam de 5 mil pessoas, havendo 137 mortes.


“Em um continente marcado pela colonização, guerras, miséria e governos autoritários, a situação tende a se agravar devido ao precário sistema de saúde em que há a falta de material, unidade de terapia intensiva e médicos”.

Homem usa máscara e luvas cirúrgicas para proteger-se do coronavírus na África do Sul. Fonte: veja.abril.com.br/mundo/evolucao-da-pandemia-na-africa-e-gravissima-diz-oms/

O questionamento que fica é sobre essa hierarquia da vida, pois milhares de pessoas morrem todo o ano, seja de fome, de doenças ou por consequências das guerras no continente africano, porém, há essa normalização moral tratando essas tragédias como aceitáveis. Tudo isso demostra como os países (e sua classe dominante), que outrora foram colonizadores, dão menos valor as vidas africanas, tratando como inferiores e descartáveis, assim, normalizando o absurdo.


*Robson J. Almeida é historiador, escritor e sempre ávido por transmitir conhecimento.



Referencias:


https://mundonegro.inf.br/ignorada-pelo-noticiario-africa-ja-tem-dois-tercos-do-continente-com-casos-de-coronavirus/


https://exame.abril.com.br/mundo/coronavirus-avanca-na-africa-e-paises-adotam-medidas-restritivas/


https://veja.abril.com.br/mundo/evolucao-da-pandemia-na-africa-e-gravissima-diz-oms/

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