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Stonewall e a luta de Marsha P. Johnson: Para além do direito ao amor


Fonte: https://revistahibrida.com.br/2018/09/20/a-historia-de-marsha-p-johnson-de-stonewall-ao-fundo-do-rio-holland/


Hoje, dia 28 de Junho, se celebra mundialmente o Dia do Orgulho LGBT+, data cuja origem histórica e política não deve ser esquecida: a revolta ou rebelião de Stonewall, em 1969.


Até 1962 qualquer prática considerada homossexual era caracterizada como crime em todos os EUA e sujeito a prisão, realização de trabalhos forçados ou mesmo pena de morte. Sete anos depois ainda haviam poucos estabelecimentos onde pessoas LGBTs+ eram recebidas, sendo o Stonewall Inn o único bar LGBT+ em Nova York. Ponto de encontro de jovens moradores da periferia de Nova York, pessoas em situação de rua, drag queens e pessoas LGBTs+ - principalmente gays e transsexuais -, o bar era alvo frequente de batidas policiais, que constantemente resultavam na prisão de funcionários e clientes, além de agressão a homens trans ou vestidos com “roupas que não se adequassem ao seu gênero biológico”, o que se configurava como crime no período em questão.


A madrugada de 28 de Junho de 1969, no entanto, viria a se tornar um marco para o movimento LGBT+ mundial. Nesse dia, durante uma das rotineiras e hostis batidas policiais no Stnowall Inn, os frequentadores do bar se recusaram a ser presos e ousaram resistir a violência do Estado. Munidos de garrafas e pedras, clientes investiram contra a polícia e em pouco tempo a rua foi tomada pela revolta de uma multidão. Viaturas foram viradas e molotovs foram lançados contra os policiais que estavam dentro do bar, enquanto podia-se ouvir inúmeras pessoas entoando gritos de ordem contra a LGBTfobia.


Entre os manifestantes estava Marsha P. Johnson, a primeira a atirar um tijolo contra os policiais e que, junto a outras mulheres trans, ocupava a linha de frente contra a opressão naquela madrugada. Marsha, mulher negra, trans e bissexual, foi uma das mais importantes líderes do Movimento LGBT+ dos EUA, dedicando sua vida à luta pelos direitos dessa população.


Ao lado de sua amiga Sylvia Rivera, mulher trans e venezuelana, Marsha fundou a Ação Revolucionária de Travestis de Rua, organização responsável pela STAR House, um centro de acolhida para pessoas LGBTs+ em situação de vulnerabilidade social, que teve importante papel no auxílio a pessoas presas em decorrência da criminalização da homossexualidade.


A rebelião de Stonewall, onde a participação de Marsha foi crucial, se estendeu por seis longos dias de revolta popular e resultou nas primeiras marchas do orgulho gay, onde Marsha e Sylvia estiveram novamente na linha de frente denunciando não apenas a LGBTfobia, mas a invisibilização de pessoas transexuais e a transfobia dentro do movimento de libertação gay, bem como a despolitização da pauta do movimento pela classe média e pela branquitude.


Em 6 de julho de 1992, o corpo de Marsha foi encontrado no rio Hudson, em Nova York. Sua morte foi classificada como suicídio, seus amigos, porém, nunca acreditaram na versão oficial da polícia, uma vez que os ataques a pessoas trans eram comuns, assim como a negligência dos agentes de segurança pública na investigação de casos como o de Marsha.


O dia do Orgulho LGBT exige recordar a Revolta de Stonewall e entender que a data não pode ser resumida a uma luta pelo direito de amar, uma vez que esta é um marco político da revolta popular em busca do direito à vida e humanidade da população LGBT+. A sociedade capitalista segue agindo na manutenção da marginalização de pessoas LGBTs+ através da negação dos direitos anteriormente mencionados, conforme demonstram os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que revelam que apenas 4% da população trans consegue emprego formal, o que influencia diretamente no fato de que no Brasil a expectativa de vida de pessoas travestis e transexuais é de 35 anos.


Ao mesmo tempo que está em 1º lugar no consumo de pornografia trans, o Brasil é hoje o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, sendo as vítimas em sua maioria negras, assim como Marsha, o que reforça a necessidade de que seu nome, há tanto apagado pelo racismo e pela transfobia, seja evocado no dia de hoje. Marsha, responsável pelo dia 28 de junho ter se tornado histórico para a população LGBT+, não nos permite esquecer que a luta LGBT+ é necessariamente uma luta anticapitalista e, portanto, uma luta revolucionária que não deve cessar enquanto todos não forem livres:


“Enquanto meu povo não tiver seus direitos garantidos em todos os EUA, não há razão para comemorar.”


– Marsha P. Johnson.

Maria Luisa Lima é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).


Referências Bibliográficas


ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Disponível em: https://antrabrasil.org/noticias/

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