• marciopauloas96

Spike Lee, reconhecê-lo é primordial

Atualizado: Mar 21


Shelton Jackson Lee, vendo esse nome não é possível associá-lo à sua imagem monumental. Spike Lee é, sem sombra de dúvidas, meu diretor favorito no cinema norte americano. Com toda a sua excepcionalidade e suas obras que desenvolvem a parte preta da terra dos ianques, estar no mesmo universo que Spike é uma baita sorte. Lee fez e faz de tudo para contribuir com a sua comunidade.

Lee é quem escancara as portas de Hollywood a cada filme com a sua conscientização racial através dos problemas sociais abordados em suas produções É diretor, produtor, roteirista, e professor de cinema na Universidade de Nova Iorque, nascido em Atlanta, sul dos EUA, em 1957, época publicamente marcada por preconceito racial, aos 3 anos mudou-se para o Brooklyn, onde adquiriu toda a sua experiência de vida.

Spike tem em seus filmes a representatividade racial e social e sua própria assinatura demonstrando as atrocidades cometidas contra as minorias. Em suas obras sempre ficou claro sua mensagem dentro dos guetos estadunidenses, e mostrando que existe mais minorias do que é visto, quebrando os paradigmas mais claros que o cinema elitista mostra, e quebrando a ideia maniqueísta que são sempre antagonistas, oportunistas e secundários.

Sempre renegado pela Academia, Lee nunca deixou de mostrar a sua obra. Mesmo que tenha filmes brilhantes como "Faça a coisa certa", que mostra a discussão entre moradores sobre uma pizzaria italiana que em seu muro tem diversos artistas italianos e não artistas afro, torna-se o epicentro de uma disputa de espaço e reconhecimento, também não foi reconhecido nem por ter sido o diretor da biografia de "Malcom X", interpretado por Denzel Washington e que abocanhou o prêmio de melhor ator, o diretor não foi agraciado com sequer um prêmio.

Spike Lee só consegue ser reconhecido com o seu mais recente trabalho "Blackkklansman" que tem seu roteiro e direção por Spike, e mostra a história de Ron Stallworth um policial negro do Colorado que adentra o grupo racista "Ku Klux Klan" através de telefonemas e cartas trocadas com o líder do grupo. Este, por sua vez, é acusado por diversos crimes como linchamento e incitação ao ódio. Spike consegue ser premiado com "Melhor roteiro adaptado" e tem o discurso mais forte e representativo que a academia já tinha visto. Com seu terno e seu óculos da cor roxa e uma corrente que representavam seu amigo e músico Prince que tinha falecido recentemente, Spike profere as seguintes palavras:

"Vamos todos nos mobilizar. Vamos todos ficar do lado certo da história. Fazer a escolha moral do amor contra o ódio. Vamos fazer a coisa certa! Vocês sabem que eu tinha que colocar essa frase.", fazendo uma clara alusão ao seu filme "Faça a coisa certa" que, injustamente, não concorreu ao Oscar de 1990.

Mesmo com toda sua magnitude e seu alcance, Spike também não faz críticas ao imperialismo norte americano contra o Vietnam em seu mais recente filme “Destacamento Blood” onde ex - combatentes da guerra do Vietnam, retornam ao país asiático em busca de um tesouro deixado pelo seu líder que foi morto em confronto. A maioria dos vietnamitas que aparecem no longa são estereotipados com o olhar do próprio Spike Lee cidadão americano. Apenas um dos locais tem sua representação de forma positiva, que é o guia do grupo de americanos. Vale lembrar que também no filme sobre Malcom X não foi retratado a visita de Fidel Castro ao país norte americano, a qual gerou uma galeria de fotos célebres no meio do Harlem, com Malcom X e Fidel Castro, em que o último fora recusado em um hotel para sua estadia no país e a convite de Malcom, Fidel aloca-se no Harlem. Sobre essa parte da história, Spike dificilmente posiciona-se a respeito da política externa dos EUA, tendo inclusive tecido diversos elogios ao ex-presidente Barack Obama, que realizou diversos ataques a países do Oriente Médio, inclusive até mais ataques do que o ex-presidente e seu antecessor George Bush.

De fato, é necessário reconhecer sua filmografia, seus apoios explícitos pelas redes às comunidades negra e latina, porém não fazer críticas ao imperialismo norte americano, que assola diversos países com seu poder bélico e econômico, empurrando-os cada vez mais para as margens do desenvolvimento, também deve ser observado.

Sua obra é de grande contribuição para a comunidade negra em geral, é inegável que Spike leva a visão negra para a academia cinematográfica, seus discursos e pautas defendidas, fazem dele um grande aporte sobre a cultura negra.

Márcio Paulo é historiador, pós-graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.

Bibliografia

https://brasil.elpais.com/brasil/2020/05/22/eps/1590160567_226976.html

https://br.sputniknews.com/mundo/201701077368019-bombas-obama-siria-afeganistao-2016-ataques-aereos/

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38642556

https://rollingstone.uol.com.br/noticia/5-filmes-essenciais-para-conhecer-carreira-de-spike-lee-segundo-site-lista/


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