Somos nós, mais pretos que café


Arte: Rafael Torres

A vida as vezes amanhece com um gosto estranho, a mistura de poeira, terra e concreto com ar seco na garganta. É estranho, as vezes parece que é o mundo que está com sono, as vezes parece que o próprio ar está cansado, que as cores estão acordando. Eu sinto que eu sou só algo imóvel, vinculado ao movimento constante dessas diferentes coisas.


Foi essa a reflexão feita por Rafael ao terminar o café da manhã, engolindo um pão de queijo meio empedrado, mas que preservava gosto, junto a um café tão ralo quanto doce, menos preto do que sua pele, totalmente intragável.


Após dar um beijo na tia com quem vivia o rapaz de 20 anos de idade no Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo, sobe na moto e, como sempre, se pergunta se um dia vai consegui terminar de pagar por ela.


Passa o dia pelo Centro de São Paulo entregando comida por aplicativos, isso para pagar o aluguel e as contas, e quem sabe ajudar no tratamento da doença da tia. Às oito da manhã a meia noite, todos os dias.


Sempre passava por um morador de rua que lhe perguntava se tinha um trocado ou se daria uma batata dos lanches da entrega. O morador de rua sempre gritava para ele que ele tem o dever de reivindicar o que os pertence, sempre dizia que era a vez dele. Sempre sem entender, Rafael apenas perguntava se estava havendo manifestações na Avenida Paulista, pois dificultavam o tempo da entrega. Sempre que a resposta era que sim, o morador de rua gritava: “É O POVO COMUNISTA!”. Rafael não sabia bem o que era isso, só que sua tia falava muito mal a respeito e as coisas que via na internet dizendo que eles querem o fim das famílias e que todos sejam pobres.


Tentou passar pela manifestação xingando, dizendo que precisava trabalhar, e ele viu um manifestante com o mesmo rosto do mendigo com um cartaz que dizia: “não a precarização da vida, não ao capital!”.


Aquilo mexeu com ele como nada nunca havia mexido, terminou as entregas do dia e foi para casa.


Dias depois, com outra manifestação acontecendo, dessa vez o mendigo que perguntou:


- Quem são eles?


- Somos nós! Respondeu Rafael.


Vinicius Souza é historiador, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo e colunista da Clio Operária.

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