• Clio Operária

Sobre o socialismo, a religião e a intolerância religiosa

Rafael Lopes*


Nos últimos anos os casos de intolerância religiosa caíram, porém a intolerância a religiões de matrizes africanas só aumentou. Não é de hoje que a religião é utilizada pela burguesia para fazer a manutenção de sua opressão ao proletariado. Mistifica-se acontecimentos naturais com o intuito de criar algo divino e milagroso para que o proletário se ajoelhe e jure eterna obediência. A opressão cotidiana faz com que o proletário creia irracionalmente em tudo que a Igreja impõe à ele. A miséria, a fome e o trabalho exploratório, a escravidão moderna, faz com que o proletário perca as suas esperanças num mundo terreno melhor e dedique sua esperança a um mundo pós-vida. A religião é o ópio do povo. Esse caráter de manutenção da opressão se espalha pela ideologia, porém sua forma mais dura e perceptível é a opressão econômica.


Engels e Marx

Vladimir I. Lenin elucidava o caráter de manutenção da ordem burguesa que a religião faz, no artigo intitulado Socialismo e a Religião, publicado em 1905:


A exploração econômica dos operários causa e gera inevitavelmente todos os tipos de opressão política, de humilhação social, de embrutecimento e obscurecimento da vida espiritual e moral das massas… A religião é uma das formas de opressão espiritual que pesa em toda a parte sobre as massas populares, esmagadas pelo seu perpétuo trabalho para outros, pela miséria e pelo isolamento. (LENIN, 1984)


Para se consolidar no poder, a Igreja propaga o ódio a qualquer pensamento que vá contra sua hegemonia no poder, inclusive à outras religiões. Não devemos nos deixar levar por pensamentos pequeno burgueses de combater todas as religiões como se fossem todas iguais em última instância. Ora, como colocar os neopentecostais junto aos seguidores da Teologia da Libertação? Não vistes a revolução que estes realizaram na Nicarágua? Logo, a luta contra a religião tem de ser única e exclusivamente ideológica. Lenin dizia:


Reivindicamos a completa separação da igreja e do Estado para lutar contra o nevoeiro religioso com armas puramente ideológicas e só ideológicas, com a nossa imprensa, com a nossa palavra. (LENIN, 1984)


Se a luta é ideológica, devemos estudar a pratica religiosa de cada culto. Não devemos generalizar. Não nos enganemos: é a Igreja, o cristianismo, seja ele protestante ou católico, que em nosso pais, faz a manutenção da ordem burguesa. Claro, existem outros cultos, que de um jeito ou de outro também tem esse papel, porém a hegemonia é do cristianismo. Os tentáculos podres no neopentecostalismo, da Teologia da Prosperidade, estão em todas as camadas da sociedade brasileira. Por meio de suas igrejas, eles propagam não o amor descrito em seus textos sagrados, mas sim o ódio e a perseguição. É papel de todo marxista desconstruir essas falácias cristãs que só servem para alienar o trabalhador.


A opressão religiosa carrega em si o racismo, a homofobia e o patriarcado. A perseguição às religiões de matrizes africanas só deixa mais claro o caráter racista do neopentecostalismo; como também deixa claro sua homofobia e sua manutenção ao patriarcado. Enver Hoxha, ao analisar os progressos da revolução na Albânia, já destacava a raiz patriarcal do pensamento cristão:


As mulheres e as raparigas foram as forças mais oprimidas e paralisadas da nossa sociedade, tanto pelos preceitos religiosos como pelas normas, costumes e usos patriarcais. (HOXHA, 1974)


Para libertar a sociedade de toda a opressão é necessária a luta ideológica contra a religião, mas sem se esquecer das diferenças de poder entre elas. É combater a religião pela ideologia, mas não cair em armadilhas burguesas. Não devemos ridicularizar o trabalhador religioso, mas sim respeitar sua liberdade em exercer a sua religião. Lenin já dizia:


Cada um deve ser absolutamente livre de professar qualquer religião que queira ou de não aceitar nenhuma religião, isto é, de ser ateu, coisa que todo o socialista geralmente é. (LENIN, 1984)


Já aos religiosos intolerantes, aos que invadem barracões da umbanda ou do candomblé, a nossa luta é para além da ideologia. Devemos defender nossos camaradas que sofrem com o racismo e com a homofobia (já que as religiões de matrizes africanas, normalmente, são muito mais abertas aos homossexuais) não apenas de forma ideológica, mas se necessário de forma física, para assim construir uma sociedade mais justa, para assim garantir sua emancipação. A resposta física, neste caso, deve ser em defesa, não ataque.


Devemos garantir ao trabalhador não só a sua independência econômica, como também ideológica e cultural, como diria Hoxha “o ideal do socialismo é libertar os trabalhadores, não só do jugo social e econômico, mas também da escravatura espiritual das ideologias estranhas ao socialismo.”.


Devemos desconstruir os pensamentos religiosos medievais que submetem a mulher á um status de inferioridade; não nos esquecemos: são elas, juntos aos homossexuais, os que mais sofrem com os pensamentos retrógrados da Igreja.


Hoxha dizia:


As concepções atrasadas, feudais e patriarcais que julgam a mulher como um ser inferior, continuam, tal como no passado, a ser o principal obstáculo. Sem quebrar estas concepções que oprimem e paralisam a sua personalidade e as suas energias, sem ultrapassar esta barreira, não se pode assegurar o seu progresso e o de toda a nossa sociedade no caminho do socialismo. (HOXHA, 1974)


Sem destruir as amarras da Igreja, não caminharemos ao socialismo. Sem destruir o poder da Igreja sobe os trabalhadores, não garantiremos a total emancipação da mulher, nem do preto e nem da comunidade LGBT. Sem a total destruição da ideologia burguesa, não conseguiremos nossa libertação econômica, nem social e cultural, e muito menos religiosa. Devemos nos unir, nós, os povos oprimidos, trabalhadores e trabalhadoras, que independente de suas crenças, lutamos por um mundo melhor. Nós carregamos um mundo novo em nossos corações. Devemos garantir nossa total emancipação e não devemos esquecer: a revolução virá, e ela trará não só o pão, como a poesia.


*Rafael Lopes é historiador e educador popular da Rede Emancipa.


Referencias:


O Globo — Denúncias de ataques a religiões de matriz africana sobem 47% no país. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/denuncias-de-ataques-religioes-de-matriz-africana-sobem-47-no-pais-23400711/ Acesso em 10 jan 2020


Lenin, V. I. — O Socialismo e a Religião. Disponível em: < https://www.marxists.org/portugues/lenin/1905/12/03.htm/> Acesso em 10 jan 2020


Hoxha, E. — A Luta Ideológica e a Educação do Homem Novo. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/hoxha/1974/mes/educacao-homem-novo.htm/> Acesso em 10 jan 2020

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