• Leonardo Segura Moraes

Sobre economia, valor e trocas


O que é economia? Uma pergunta cujo intuito de resposta nos conduz para ao menos outra de mesmo tipo: o que é econômico? Tais questionamentos tem sido objetos de investigação desde os tempos mais remotos. De mercadores retratados em escrita cuneiforme na Mesopotâmia Antiga, transportando cobre há cerca de 3.000 anos atrás, aos relatos do ateniense Xenofonte (c. 430 a.C. – 354 a.C.) sobre a divisão do trabalho entre os persas a época do Rei Ciro II, passando pelo subcontinente indiano onde se credita a Kautylia (375 a.C. – 283 a.C.) autoria do tratado Arthashastra sobre comércio internacional e riqueza, às garantias para a agricultura e a defesa no espaço geográfico chinês promovidas pelo estadista Shang Yang e registradas por Sima Qian (c. 145 a.C. – 86 a.C.), até a análise sobre diferenças de rendimentos entre trabalhos úteis escrita por Ibn Khaldun (1.332 – 1.406) em seu Muqaddimah e os Quipus utilizados para registros contábeis entre povos andinos pré-colombianos. Ainda que sob diferentes formas, assuntos econômicos estão presentes em todas as culturas muito antes da modernidade.


Numa primeira mirada, pode parecer que essa permanência histórica e cultural de questões econômicas entre as sociedades humanas expressaria alguma lei natural, como se os atos históricos associados a produção, distribuição, troca e consumo fossem produtos de sistemas de decisões individualmente formuladas e inerentes ao ser humano. Afinal, não parece natural que as coisas tenham preço? Que existam ricos e pobres? Que as pessoas precisem vender algo ou prestar algum serviço para obterem dinheiro e assim comprarem outras mercadorias para sua subsistência? Na verdade, tal naturalidade é apenas a aparência de um passado que desemboca no presente como se fosse eternidade, mas efetivamente é muito mais recente e muito menos natural do que parece ser.


Para compreendermos as questões anteriores e outras relacionadas, é preciso ir além das aparências colocadas pela moderna sociedade de mercado, cuja economia é pautada pela quantidade de mercadorias produzidas, trocadas e consumidas. Para tanto, faz-se necessário investigar o que é valor, conceito ético que foi adquirindo sentido propriamente econômico com o desenvolvimento das forças produtivas e a extensão dos mercados. Não por acaso a palavra bem é sinônimo de mercadoria, como também a moderna ciência econômica tem seu registro de nascimento a partir da obra de um filósofo moral do século XVIII, A Riqueza das Nações, de Adam Smith.


Em termos gerais, valor corresponde a uma medida avaliativa ou de comprometimento na qual se atribui graus de qualificação em relação a si mesmo ou a algum padrão definido. Nesse sentido, uma pessoa pode ser bom/mau executando alguma atividade, assim como se considera determinado atributo intrinsecamente uma virtude/mal, ou certas quantidades de diferentes bens são consideradas equivalentes. Pois é justamente a investigação dessa equivalência entre mercadorias que diz respeito a economia e os fenômenos econômicos de nosso cotidiano.


A mercadoria é qualquer objeto útil às necessidades humanas, seja de subsistência ou de produção, que pode ser observada tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. A utilidade e a medida de uma mercadoria não são conhecidas de antemão e tampouco únicas, sendo, pois, descobertas ao longo do processo social de aprendizagem de suas propriedades. Nesse sentido, os instrumentos musicais de corda, por exemplo, antecedem o náilon como fibra têxtil sintética, mas a partir da descoberta do último, possibilitou-se transformação técnica até então impensável na indústria musical. Mas a propriedade de resistência, que o caracteriza e que possibilita seu uso na fabricação de instrumentos musicais de corda, também foi sendo percebida útil na confecção de tecidos, embalagens, peças mecânicas e mais recentemente também como molde para aplicação em impressoras 3D.


Cada mercadoria apresenta além de sua utilidade também um preço pelo qual determinadas quantidades de objetos podem ser trocadas. O preço se trata de uma grandeza relativa de propriedades úteis conhecidas que, embora distintas, podem ser reduzidas a um conteúdo comum entre diferentes bens. Expressa, portanto, a manifestação de algo compartilhado entre elas a despeito de suas utilidades diversas, tornando possível uma troca entre equivalentes. “Certa mercadoria, 1 quarter de trigo, por exemplo, é trocada por x de graxa de sapatos ou por y de seda ou z de ouro etc., em suma, por outras mercadorias nas mais diversas proporções” [1].


Mas o que pode ser comum a mercadorias de utilidades distintas? Antes de observar essa questão de maneira mais detida, é preciso entender melhor o significado da troca entre equivalentes expressada pelo preço. Corresponde a relação quantitativa estabelecida entre diferentes mercadorias através de denominador comum, isto é, um elemento mutuamente compartilhado e invariável que possibilite compará-las. Desse modo, se por meio da utilização de uma determinada mercadoria é possível avaliar sua qualidade, quer dizer, seus respectivos valores de uso, então para relacionar duas mercadorias é necessário estabelecer a relação quantitativa que expresse tal equivalência entre ambas, isto é, o valor de troca.


A equivalência entre mercadorias diferentes manifesta a possibilidade de permutá-las, pois é apenas em tal condição que valores de uso distintos são capazes de serem equiparados entre si. Vejamos um exemplo cotidiano para ilustrar tal ponto: num supermercado encontramos inúmeras mercadorias com preços variados e, ao mesmo tempo, é possível adquirir com a mesma quantia de dinheiro coisas diferentes. Tomemos uma situação hipotética em que 10 tomates e 1 pacote de escova dental possam ser comprados por R$ 10, de modo que é possível estabelecer a seguinte relação: 10 tomates = 1 pacote de escova dental. No caso, o valor de 10 tomates está expresso em 1 pacote de escova dental, mesmo que ambas mercadorias tenham utilidades completamente distintas.


O valor de uma determinada mercadoria exprime a capacidade dela adquirir outros valores de uso, ao passo que tal competência constitui seu valor de troca ou preço. A relação estabelecida entre mercadorias é o ponto de partida para que, por exemplo, determinada quantidade de mercadoria x seja trocada por determinada quantidade de mercadoria y. Contudo, embora rede de trocas entre populações possa ter existido desde 100.000 e 130.000 anos atrás [2], as evidências de trocas propriamente mercantis são mais recentes. Os indícios mais claros provem de histórias sumérias, entre 3.500 a.C e 2.000 a.C, relatando atividades comerciais conectando espaços geográficos entre os rios Tigre e Eufrates (atual Iraque) com assentamentos localizados na Capadócia (atual Turquia) [3].


Esses indícios sugerem que não é correto afirmar a existência uma propensão natural ao comércio entre seres humanos, como dizem muitos autores liberais por aí. As investigações antropológicas de Lewis Morgan e Friedrich Engels, por exemplo, demonstram a íntima relação entre o desenvolvimento da família tal como a conhecemos, a origem do Estado e das classes sociais. Posteriormente, novos avanços sobre o assunto foram realizados a partir das contribuições de Karl Polanyi, que explicitaram como é uma falácia associar economia e mercados como sinônimos. Até porque para a realização de qualquer troca é necessário redes de confiança, as quais provavelmente foram estabelecidas primordialmente a partir das relações de parentesco nas quais o casamento é elemento fundamental [4].


Parece intuitivo, portanto, que haja algo além da utilidade e que propicia o relacionamento entre mercadorias. A discussão econômica sobre valor apresenta duas teorias a respeito disso, sendo uma objetiva e outra subjetiva. Para a primeira, esse elemento comum a valores de uso distintos que possibilita estabelecer alguma relação de equivalência entre eles diz respeito à quantidade ou tempo de trabalho socialmente necessária para produzir diferentes valores de uso – por isso se diz objetiva –, sendo o preço uma expressão de seu valor. Já para a segunda, valor e expressão de valor são iguais, ou seja, o preço de uma mercadoria é igual seu valor, de modo que, ao contrário da primeira, as condições de produção das mercadorias são exteriores às próprias mercadorias produzidas – por isso se diz subjetiva.


Não cabe aqui analisar os desdobramentos analíticos de cada uma dessas teorias, mas é importante destacar que há implicações políticas que merecem atenção no que diz respeito a naturalização das relações econômicas. A subjetividade na investigação do valor coloca mercadorias que se relacionam entre si como se fossem dotadas de vida própria, naturalmente constituída, como se existissem a despeito de um conjunto de relações objetivas entre pessoas voltadas para a produção dessas mesmas mercadorias.


Afinal, para produzir 10 tomates ou 1 pacote de escova dental é necessário trabalho humano empenhado em suas respectivas produções, embora nem sempre tenha sido o trabalho assalariado a forma dominante da relações de produção de valores de uso. Tampouco é natural a força de trabalho como mercadoria, sendo produto de longo processo histórico em que a mercantilização da terra, do trabalho e do dinheiro se impôs politicamente porque haviam condições para isso. Em todo caso, sem trabalho não existe produção, mesmo que com o desenvolvimento das forças produtivas boa parte do que é produzido seja realizada por meio de máquinas. Até porque, máquinas que produzem máquinas não se fazem por si mesmas, mas dependem da ação humana direcionada para determinada finalidade, seja na programação de algoritmos, na disposição organizacional dos dispositivos ou apenas apertando botões. Sem ser humano trabalhando, não há possibilidade de produzir qualquer coisa.


Por isso que a aparente naturalidade das mercadorias como corpos de valor equivalentes entre si – e, portanto, sujeitas a troca direta – só se efetiva quando a relação social dominante é tal que universaliza o produto do trabalho humano como mercadorias. Por isso a economia é política desde sempre e qualquer análise que procure despolitizar as relações econômicas sob pretensa neutralidade, na verdade esconde no âmago de suas proposições justificativas que visam legitimar pela política interesses particulares como se fossem coletivos. Mas nada é divino, nem misterioso entre coisas reais.

Referências

[1] Karl Marx. O Capital. Ed. Boitempo, livro I, São Paulo, 2013, p. 114-115.

[2] Harry Merrick; Francis Brown. Obsidian sources and patterns of source utilization in Kenya and northern Tanzania: some initial findings. The African Archaeological Review, 2, 1984.

[3] Alfred L. Oppenheim. The seafaring merchants of Ur. Journal of the American Oriental Society, vol. 74, n. 1, 1954.

[4] Charles Tilly. Trust and rule. Cambridge University Press, 2005, p. 10.


Leonardo Segura Moraes é economista, pesquisador e professor no Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Escreve na Clio Operária quinzenalmente às terças-feiras

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