• Clio Operária

Sobre a polícia que chicoteia, mata e infelizmente não é surpresa pra ninguém

Maria Luisa Lima*



Ilustração: Junião.

Essa semana foi divulgado o caso de um jovem negro brutalmente chicoteado por policiais militares dentro da sua própria casa. Faz-se necessário repetir, dada a indignação frente ao acontecimento: Agosto de 2019 — Jovem negro é chicoteado (chicoteado!) por policiais militares. Segundo o irmão da vítima, policiais em operação invadiram a casa dos mesmos e, após acordar a vítima com um tapa, chicotearam-na pois esta não respondeu as perguntas realizadas pelos oficiais devido a ter esquizofrenia e autismo, transtornos psiquiátricos que podem afetar a comunicação verbal. Acontece que, apesar de forte uma manchete atual denunciando o chicoteamento de uma pessoa negra pela polícia, a realidade nas periferias não se distancia no que se refere ao ambiente hostil e violento onde mulheres e homens negros circulam como alvos na mira das forças de segurança que, na instituída guerra às drogas que intensificou a prática da violência policial no país, revelam que o caráter autoritário e a atuação análoga ao período escravocrata não se perdeu.


Sons de tiro, sirenes e helicópteros não são raros no cotidiano de quem mora na periferia, a política de guerra às drogas afeta o cotidiano de cada morador das favelas do país, uma violência que se apresenta tanto de maneira privativa, como ao impossibilitar a ida de alunos à escola ou das donas de casa ao supermercado, quanto de maneira fatal, pois as operações policiais expõe à morte não só aqueles envolvidos com o tráfico, mas toda a população presente no fogo cruzado, o que pode soar como consequência, mas que beira mais à intencionalidade de uma nação racista pelo genocídio do povo negro. Em um país onde o lema “bandido bom é bandido morto” é adotado, a execução de pessoas negras pelas mãos do Estado não gera comoção ou revolta, pois numa lógica biopolítica é aceitável que a vida dessa parcela da população seja ceifada por uma “guerra às drogas” que teoricamente esteja em curso para a proteção daqueles cujas vidas parecem ter valor de fato. A seletividade penal impera e o Estado atua de maneira impecável afim de justificar tais mortes, exemplo disso são os chamados autos de resistência, ato administrativo que justifica os homicídios cometidos por policiais quando estes são resultantes de suposta situação de confronto ou ato de legítima defesa, mas que não requer a apuração do homicídio para que seja utilizado: apenas a declaração do policial de que a morte se deu em situação de confronto ou resistência basta.


De justificativa em justificativa, os números evidenciam a legitimação dessa violência: só em 2008, no estado do Rio de Janeiro, o número de vítimas de auto de resistência foi de 1.137, enquanto o número de homicídios contra policiais foi de 26, ou seja, para cada policial morto ocorreram 43,7 homicídios justificados pelos autos de resistência, uma discrepância enorme entre ambos os números que deveria incitar o questionamento quanto ao que vem sendo considerado confronto ou resistência por esses policiais, mas não incita porque bandido bom é bandido morto, logo essas vidas não importam. Dessa maneira, a polícia e o sistema penal como um todo seguem tendo licença para matar e encontrando assim respaldo para chicotear jovens negros e para forjar mais inúmeras Cláudias[1] e Amarildos[2] pelas favelas do país.


[1] Cláudia Silva Ferreira: Mulher negra, moradora do Morro da Congonha no Rio de Janeiro, que foi baleada por policiais militares e teve seu corpo arrastado por 300 metros por uma viatura em 16 de março de 2014.


[2] Amarildo Dias de Souza: Homem negro, morador da Rocinha, no Rio de Janeiro, que desapareceu no ano de 2013 após ser conduzido por policiais militares até a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e torturado.


*Maria Luisa Lima é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).


Referências Bibliográficas


CARDOSO, Mariana; RIANELLI, Erick. Morador do Chapadão, Zona Norte do Rio, afirma que PMs agrediram e até chicotearam irmão dentro de casa.G1, Rio de Janeiro. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/08/02/morador-do-chapadao-zona-norte-do-rio-afirma-que-pms-agrediram-e-ate-chicotearam-irmao-dentro-de-casa.ghtml>.


LEMOS, Flávia Cristina Silveira et. al. O extermínio de jovens negros pobres no Brasil: práticas biopolíticas em questão. Pesquisas e Práticas Psicossociais, n. 1, v. 12, jan.-abr. 2017, p. 164–176.


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