• Ricardo Normanha

Sob a luz de Mariátegui e Che, a América Latina pulsa

A morte prematura de Mariátegui não permitiu que o intelectual peruano pudesse ver o impacto de suas ideias se materializando na heroica empreitada revolucionária do povo cubano, liderada por Che, Cienfuegos e os irmãos Castro


Arte: Rafael Lopes


A última quadra histórica tem sido de grandes reviravoltas na realidade latino-americana. Se no início dos anos 2000 se viveu um período prenhe de expectativas em torno da ascensão dos governos populares e de esquerda em vários países da região, a segunda década do milênio impôs um severo refluxo às lutas dos trabalhadores e dos povos indígenas do continente. Este refluxo, representado pelos golpes travestidos de institucionalidade, no entanto, já tem demonstrado estar suscetível a ainda mais reviravoltas.


As tentativas constantes de instabilidade e de golpes na Venezuela e o golpe consumado na Bolívia foram revertidos pela força do povo organizado. No Chile, as revoltas populares colocaram o ultraliberalismo contra a parede e enterraram a Constituição herdada de Pinochet. No Equador e Colômbia, os levantes dos trabalhadores têm feito a classe dominante acender o sinal de alerta. No Peru, a vitória eleitoral de Pedro Castillo, embora apertada, impôs à dinastia Fujimori um importante revés. A somatória destes acontecimentos demonstra que a América Latina pulsa. E este pulso vibrante se alimenta de vários nomes da luta dos povos. Dois deles merecem ser lembrados nesta semana.


No dia 14 de junho de 1894, no Peru, veio ao mundo José Carlos Mariátegui. No mesmo dia, 37 anos depois, em Rosário, na Argentina, nasceu Ernesto Guevara de La Serna. A morte prematura de Mariátegui, aos 36 anos de idade, não permitiu que o intelectual peruano pudesse ver o impacto de suas ideias se materializando na heróica empreitada revolucionária do povo cubano, liderada por Che Guevara, Camilo Cienfuegos e os irmãos Fidel e Raúl Castro. Mas o seu legado foi imprescindível para a Revolução Cubana.


José Carlos Mariátegui foi um dos mais importantes pensadores marxistas latino-americanos. Sua trajetória intelectual se dá a partir de sua atuação como jornalista, quando o jovem Mariátegui procura compreender as greves operárias e revoltas indígenas que sacudiram o seu país no início do século XX. É por meio deste entendimento sobre os anseios do povo que este pensador pôde articular a perspectiva marxista-leninista à realidade peruana e latino-americana.


Mariátegui, fundador do Partido Comunista Peruano, fugindo dos esquemas analíticos que transplantam mecanicamente a leitura de textos clássicos marxistas à realidade, procurou elaborar uma perspectiva analítica autêntica que, tendo a obra de Marx, Engels, Lenin e Gramsci como ponto de partida, incorpora as peculiaridades da realidade peruana e os modos de vida dos povos indígenas, que compunham grande parte da população de seu país. Nascia aí o marxismo indo-americano de José Carlos Mariátegui: uma perspectiva teórica e prática anti-imperialista e anticolonialista. Para o revolucionário peruano, os povos indígenas traziam consigo o germe da sociedade socialista exatamente por serem populações que experimentaram formas de vida coletivistas e comunitárias antes da dominação européia.


Não queremos, certamente, que o socialismo seja, na América, decalque e cópia. Deve ser criação heróica. Temos que dar vida com a nossa própria realidade, na nossa própria linguagem, ao socialismo indo-americano. Eis uma missão digna de uma nova geração (José Carlos Mariátegui).

E dessa nova geração, digna da missão de construir o socialismo latino-americano, emergiu Ernesto Guevara, o Che. O jovem Guevara, recém formado em medicina, viu suscitar a ânsia pela transformação da sociedade quando, em sua viagem pela América do Sul, testemunhou o sofrimento do povo latino americano, castigado pela fome, doenças e condições de vida e trabalho precárias. Deste testemunho deriva a sua compreensão, cada vez mais radical, de que a América Latina era vítima da articulação entre o capitalismo e o imperialismo estadunidense.


A radicalidade desta compreensão só poderia resultar em uma atuação igualmente radical. Che Guevara dedicou sua vida à Revolução Socialista na América Latina e em todo o Terceiro Mundo. Foi no México que conheceu os irmãos cubanos Fidel e Raúl Castro e se juntou ao Movimento Revolucionário 26 de Julho na luta contra a ditadura de Fulgêncio Batista, que governava Cuba seguindo, exclusivamente, os interesses dos Estados Unidos.


A vitória da Revolução Cubana sacudiu a América Latina e o mundo. A heroica batalha travada pelo povo, sob a liderança de Che, Fidel, Raúl e Cienfuegos, demonstraram na prática a possibilidade de construção de um socialismo autêntico dos povos latino-americanos. Um socialismo que se forja, diariamente, há 60 anos, a partir da realidade concreta do povo.


Nascidos no mesmo dia, em um 14 de junho, Mariátegui e Guevara encontram-se na luta dos povos da América Latina que, cotidianamente, buscam construir uma nova sociedade livre do domínio imperialista e colonial, livre da lógica da dependência econômica capitalista e livre da superexploração da força de trabalho.


Nesta semana em que comemoramos o nascimentos desses dois ícones da luta socialista da América Latina, convém lembrar: destas terras, de onde o capital extrai os recursos naturais, o suor condensado na mais-valia que escoa para o centro do sistema e o sangue do povo, também há de alvorecer a nova sociedade socialista indo-americana.


Fontes:


José Carlos Mariátegui, 126 anos | 15.jun.2020 - Hoje na Luta | Podcast on Spotify


Che | 8.out.2020 - Hoje na Luta | Podcast on Spotify

Ricardo Normanha é sociólogo, professor, pesquisador e colunista da Revista Clio Operária

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