• Clio Operária

Reflexões sobre “ocupar e resistir”

Maria Luisa Lima*


Dentre as inúmeras faces do racismo há o racismo institucional, fenômeno que de maneira naturalizada age em favor da manutenção das desigualdades e hierarquias raciais dentro das instituições, tendo como uma das principais consequências a dificuldade de acesso de pessoas negras ao mercado de trabalho e à ascensão a cargos de liderança. Apesar da notícia recente de que pela primeira vez pessoas negras são a maioria nas universidades públicas do país, essas mesmas pessoas ainda ocupam os cargos mais baixos nas organizações ou instituições em que colaboram, como cargos de estagiários (28,8%) e aprendizes (57%). Tais dados não são difíceis de serem constatados empiricamente, basta observar o quadro de funcionários da maioria das organizações: Há quantos funcionários negros? Dentre eles, quantos ocupam cargos de liderança?


Essa problemática me leva automaticamente a refletir sobre os efeitos de fazer parte de um ciclo social majoritariamente branco. Ser negro e lutar contra o racismo envolve não raramente se deparar com inúmeras maneiras ditas como corretas de se lutar, dentre elas a de ocupar (espaços brancos) e resistir (ao constante expurgo dos nossos corpos desses espaços que nunca nos pertenceram) e, como se não bastasse, seguir reafirmando que podemos ser duas vezes melhor, mas como cantou Brown “como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses… por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como?”. Dessa forma, quando é de fato necessário e eficiente ocupar esses lugares e reafirmar nossas habilidades e qualidades? E o que isso requer de nós, pessoas negras? Como tornar esse processo menos doloroso e solitário?


Estar em locais em que você se enxerga naqueles que estão ali com você é importante e normalmente costuma agir como acalanto a nós, tão acostumados a estarmos suscetíveis à violência racial, porém estamos sujeitos aos conflitos raciais e a ambientes onde somos poucos, senão únicos. Acredito sim que devemos fazer valer nosso direito de vivenciar momentos e desfrutar de espaços até pouco tempo negados a nós, trata-se de uma questão política, contudo é necessário saber mensurar quando o embate vale de fato nossos esforços e saúde mental. Além disso fortalecer-se é necessário para que possamos travar batalhas que resultem em mais do que em reafirmação das nossas capacidades sempre colocadas à prova ou benefícios individuais, mas em árvores cujos frutos sejam destinados também aos nossos.


*Maria Luisa Lima é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).

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