• Clio Operária

Razão, Felicidade e Meios de Produção no Pensamento de Hebert Marcuse

Vinicius Souza*


Nascido em Berlim, na Alemanha, em 19 de junho de 1898, Hebert Marcuse fez parte do Instituto de Pesquisa Sociais, conhecido como “Escola de Frankfurt”. Filósofo e sociólogo de grande destaque no século XX contribuiu ativamente para a formação da Teoria Crítica.


Marcuse faz uso do pensamento analítico de Hegel sobre a Revolução Francesa para formular seu pensamento sobre as relações da ação revolucionária e a filosofia de forma que fica evidente o modo que Hegel enxerga a relação entre razão e revolução. Tomando a base da Revolução Francesa representa um tipo de marco para uma ordem da razão onde o homem não estaria mais ligado a autoridade e controle de uma ordem vigente, mas sim buscando agir de acordo com sua própria razão indo em busca de uma liberdade maior que defina os homens como senhores de sua própria vontade contrapondo ordens naturais e sociais. É necessário ter em vista como a Revolução Francesa se apoiou em ideias liberais e, consequentemente no desenvolvimento da indústria, algo que os idealistas alemães vão relacionar ao avanço do pensamento racional. Para Hegel a Revolução Francesa se trata dos homens tornando da realidade a razão, pois a razão só pode governar quando a realidade em si se torna moldada pela razão. Sendo assim, o homem se torna individuo autônomo de seu próprio desenvolvimento e agora todo processo revolucionário é continuado através do conhecimento.


Marcuse vai se basear nesse senso que Hegel criou sobre a relação da razão e da revolução para traçar uma linha de pensamento que tem como finalidade definir a felicidade e suas barreiras na sociedade atual. Felicidade e liberdade são coisas distintas e separadas ao pensarmos as relações nas sociedades atuais, vejamos, o interesse “universal” que seria o interesse da ordem social e do meio onde ela é exercida é valorizado acima do interesse individual criando uma espécie de senso coletivo de felicidade. Porém, a felicidade nunca seria tão especifica e concreta a ponto de se resumir em universalidades. Nessa universalidade o individuo necessita da razão para fazer parte do coletivo, negando assim sua multiplicidade e sua subjetividade enquanto individuo. Razão e felicidade, universalidade e individualidade não podem se relacionar uma com a outra. O eudemonismo resume a felicidade a um estado onde se deve atingi-lo porém nos limites impostos pela ordem social vigente, algo contrario a autonomia critica da razão. Em contrapartida o hedonismo valoriza e busca um conceito de felicidade individual que valoriza o individuo e suas subjetividades como verdadeira felicidade. A felicidade de todos, seria então, a felicidade individual de cada um. O hedonismo nega a concepção da filosofia antiga de que a felicidade deve ser encontrada no âmbito pessoal, espiritual, pois as angustias são materiais, físicas, essas são maiores do que as angustias espirituais. A libertação de uma relação de trabalho desumana, a valorização do prazer sem tabus, à disponibilidade do mundo para o individuo, o hedonismo jamais estará ligado a um sistema de opressão e supressão da liberdade. No eudemonismo a felicidade de individuo é algo estranho a sociedade. O tempo também funciona como um instrumento repressivo para os extintos libidinosos ou o impulso vital, funcionando como uma forma de manutenção da ordem em sociedade. Temos internalizado uma moral libidinosa, através do instintivo fator de rejeição da gratificação absoluta sobre algo prazeroso. O prazer é inconscientemente doloroso, pois em cada momento de prazer a pessoa vive uma inconsciente dor que vem através do medo de que tal momento chegue ao fim. A liberdade se torna nula, pois nos tornamos escravos do medo e do tempo. A morte é o fator recorrente desse medo, pois simboliza o fim. As pessoas se veem verdadeiramente livres em relação em um momento de prazer somente na lembrança. A recordação vem como uma construção psicológica da civilização. O tempo se torna assim um grande aliado da manutenção da ordem, pois ele simboliza o quanto o homem não durará que o espaço entre seu nascimento e sua morte é simbolizado pelo medo constante do fim. A morte através do tempo é um instrumento automático de repressão, pois sempre limitará o homem ao medo do fim. A realidade então se torna abstração, o homem tem uma função social coletiva, interesses que não dele, mas de todos. A realidade se torna uma abstração coletiva e repressiva. A arte nos vem como forma de escape. Uma realidade subjetiva que emancipa a sensibilidade, a razão. Em um mundo ausente de liberdade, a arte se põe como a comunicação de uma verdade incomunicável. Ela dita a inconsciência de forma que liberta o autor. Ela se opõe a ordem social, denuncia injustiça, está ao lado do Eros. Ela dá a realidade de libertação ao individuo que está preso a sua liberdade funcional. Funciona como a voz de quem não a possui. Ela é um instrumento clandestino a ordem. O poder da estética através da arte não é abdicável, pois é o universo da esperança. Herbert Marcuse se torna um clássico, não pelo seu tempo na terra, mas pela atualidade de sua obra. As relações humanas estão infestadas por limitações e repressões vigentes no campo social de diversas formas. A análise sobre a plenitude do individuo se torna complexa. A obra nos faz levantar questões interesses, complexas e intrigantes como: A razão ou a felicidade? De forma que, devemos analisar, através de uma ótica que venha de uma amplitude de perspectivas para pontes que sirvam como construção estrutural para a compreensão que temos da nossa sociedade tão diversa e complexa. O pensamento de Marcuse vem como uma arma e, de certa forma, um conforto, pois nos permite abrir os olhos e se debruçar para compreender nossas relações pessoais ás relações de poder que estamos socialmente inseridos. A realidade ao ser analisada por essa obra nos mostra que Marcuse proporciona não só uma compreensão da realidade, mas uma forma a abrir um caminho não para a mudança da realidade funcional, mas abre margem para uma realização pessoal para consigo mesmo. Podemos assim, não só alterar a realidade de forma coletiva, mas, antes disso, de forma pessoal. Encontrarmo-nos como indivíduos subjetivos dentro de uma forçada ausência de liberdade, através de uma ideia de objetividade coletiva dentro do sistema para estabelecimento de uma ordem social que pode ser passível de manutenção através do controle, não só material, mas emocional dos indivíduos. A dialética se expande para além do campo material e se coloca como algo presente de diversas formas na relação: individuo e sociedade, englobando o indivíduo não só enquanto instrumento físico do estado, mas também suas contradições, questões e subjetividades internas enquanto ser humano emocional que, ainda assim, não perdem sua síntese material pois o resultado é um: controle social para a manutenção da ordem burguesa. Logo, na perspectiva levantada pelo autor, só seria possível atingir a felicidade com a dissolução da ordem vigente e o fim da sociedade de mercado.


*Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, militante da juventude do MTST e escreve no perfil do Instagam @luzcamerarevolucao.


Referências Bibliográficas


MATOS, Olgária C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993.

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