• Clio Operária

Racismo e o que você, psicólogo, tem a ver com isso

Maria Luisa Lima*



Temática pouco discutida, a saúde da população negra tem sido colocada em pauta pelos movimentos políticos e sociais visto a especificidade do povo negro no que se refere às necessidades e problemáticas decorrentes da posição social que este em sua maioria ocupa devido aos determinantes sociais que mantém o negro em situação de subalternidade, negligenciando-o inclusive no tocante a saúde. No entanto, o recorte racial na área da saúde mental segue sendo ignorado, onde poucos dados sobre povo negro são encontrados justamente devido a ausência de tal recorte para a compreensão dos transtornos mentais.


A Psicologia, do contexto acadêmico à prática clínica e às demais, mostra-se negligente quanto a saúde mental da população negra, haja vista a ausência do enfoque na questão racial em um país composto mais de 53% por pessoas negras. Uma pequena busca em bancos de dados de pesquisas científicas revela a escassez de artigos, teses, dissertações e até mesmos livros que retratem a questão racial pelo viés da Psicologia, o que é reflexo da ausência do debate e formação sobre o tema durante a graduação que, tendo como pilares teorias oriundas da Europa e dos Estados Unidos, tende a excluir ou mesmo esquecer a importância de teóricos negros que estudaram a relação entre raça e Psicologia, como Virgínia Bicudo, Frantz Fanon e Neusa Santos, levando à formação de profissionais incapazes de enxergar o racismo enquanto fator de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, bem como a influência deste na constituição da subjetividade desses sujeitos. Em decorrência disso, ainda hoje nota-se a dificuldade de inúmeros profissionais no reconhecimento do racismo enquanto promotor de sofrimento psíquico, expurgando muitas vezes a temática do contexto clínico quando esta emerge, provocando assim ainda mais sofrimento em pacientes negros, de adultos a crianças que, no consultório, relatam situações de racismo vivenciadas e sintomas decorrentes da discriminação racial. Fator presente por toda a vida de qualquer pessoa negra e constituinte da subjetividade destas, o racismo age de maneira violenta na autoestima e identidade das mesmas que, de maneira conflituosa, são levadas a identificação com o ideal de ego branco ou a aceitação da inferioridade que a estrutura racista impõem como inerente ao negro. Tal quadro conduz ao sofrimento que está além da baixa autoestima, manifestando-se também de maneira somática e através de transtornos como a depressão, síndrome do pânico, ansiedade e alcoolismo, não raramente não enxergados como consequências de traumas de cunho racial sofridos anteriormente pelo paciente.


Enquanto profissionais da saúde mental, é urgente que psicólogos reconheçam o racismo presente na sociedade e como este afeta a vida e modo de ver o mundo; e adotem uma postura anti racista que perpasse as paredes do consultório, indo de encontro também à pesquisa e produção científica acerca das consequências psíquicas da opressão racial, para que o acolhimento e compreensão de pacientes negros seja cada vez mais facilitado e embasado teoricamente. Para tanto, faz-se necessário que estudantes e profissionais estejam dispostos a exigir e trazer a tona o debate sobre raça, racismo e seus efeitos, e que as relações raciais façam parte da grade curricular da graduação em Psicologia, evitando a extensão do sofrimento de pessoas negras durante o atendimento psicológico devido má conduta de profissionais racistas e incapacitados para lidar com tão complexa questão.


*Maria Luisa Lima é Estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).


3 visualizações

Posts recentes

Ver tudo
apoie.png