• Clio Operária

Quem é covarde, trai: o poder de batismo de Djamila Ribeiro

“Só interessa restringir a identidade negra para quem quer ter direito exclusivo de falar em nosso nome na televisão” Letícia Parks, Esquerda Diário.


Por Paula Juliana Foltran [1], O Canhoto do Gama [2]


Esta frase me foi dita por uma amiga militante dedicada ao SUS: quem é covarde trai. Tais palavras me martelaram porque coincidiram com uma semana cheia de eventos que, embora distantes no espaço, são totalmente imbricados na totalidade complexa e dialética da realidade.

Primeiramente, destaco a vitória de Biden nos EUA, destituindo do poder da maior potência imperialista do planeta o nazifascista mor, o demônio laranja, Trump. Um passo importante no contexto de avanço de uma extrema direita violenta, odiosa e destrutiva, cujas labaredas de fogo e golpe lambem toda a América, a Europa, o Oriente Médio. Na reta final das eleições estadunidenses, o campo progressista de todo o mundo rendeu apoio aos Democratas. Ao contrário da direita (e esquerda) liberal irresponsável que atuou no Brasil nas eleições de 2018, nós sabíamos que entre Biden e Trump havia uma escolha. O triste é o bipartidarismo desse país que se vende como democrático. Oras, lá, como aqui, há outros partidos e tendências. Lá há o Partido Comunista [3], por exemplo. Nunca são vistos como opção. Então engolimos seco e torcemos pela queda de Trump. Vencemos.

Uma vez anunciada a derrota deste patife nas urnas, nossas vozes deveriam ter se unido no mesmo uníssono de quando gritamos “Fora Trump”. O grito agora é: nós sabemos quem são vocês, Democratas e Liberais. Sabemos que foram vocês que chocaram o ovo do fascismo. Sabemos que suas políticas não são diferentes das de Trump, exceto pelo perfume que disfarça interesses destruidores da natureza, da humanidade, do comunitarismo, dos direitos humanos, da existência pacífica, do respeito à soberania dos povos. Vocês cultuam o mesmo Deus Mercado e pelo lucro entregam nosso sangue como oferenda: o sangue de pretos, pobres, mulheres, indígenas, migrantes, árabes, palestinos, trabalhadores. Mas não. O campo “progressista” nacional não se cansa de cometer os mesmos erros, e segue aclamando viralatamente o fato de, na chapa vencedora, haver uma mulher negra, a tal da Kamala Harris, mesmo que seu currículo seja pior do que dos capitães do mato que tanto atuaram e atuam na história do nosso país.

Quem é covarde, trai. Quanto de coragem é preciso, estando no poder (pois essa mulher atuou nos aparatos estatais de justiça nos EUA – instituições histórica e estruturalmente racistas e supremacistas brancas –), para se posicionar pelos seus? Ela nunca fez isso; moralista e punitivista que é, deu andamento ao encarceramento em massa do povo preto e migrante naquele país. Quem é covarde, trai. Há dois anos, o coletivo cultural e político do qual esta gazeta faz parte, organizou, tendo como parceiro um professor de escola pública da nossa cidade, o lançamento do livro Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro.

Foto Ogan Luiz Alves

O professor de literatura, ciente que o bom escritor é antes um bom leitor, incentivava leituras diversas como atividade escolar e tentava trazer os autores para sala de aula, uma ação inspiradora de vinculação e afeto entre o pequeno leitor e as pessoas que publicam, construindo a referência. Entre outros escritores, a Djamila foi uma que, por estar em turnê de lançamento, topou participar da atividade e falou para mais de 200 alunas e alunos da comunidade, no espaço do Cia. Semente de Teatro.

Diante daqueles jovens periféricos e pretos, cuja gradação de cores e texturas de pele e cabelo tornou o auditório ainda mais belo, ela não teve coragem de dizer o que disse ontem no Roda Viva. Para meninas e meninos do Gama, gente negra em sua pluralidade, em pleno processo de reconhecimento de sua história e de sua ancestralidade, processo difícil e árduo porque eivado de racismo, ela não diferenciou o status nem a qualidade de ser negro. Estávamos ali unidos em irmandade e foi lindo, forte, inesquecível. No final da atividade, enquanto ela autografava os exemplares dos estudantes (empolgadíssimos e carregados do impulso do autorreconhecimento tão importante à organização coletiva), uma outra professora, também preta, também militante, “acusou” o professor organizador de não ser preto num tom de desdém e ofensa, como que para diminuir a potência do evento.

Nunca imaginei que dois anos depois eu veria a própria Djamila dizendo em rede nacional que uma “clarinha de turbante” fosse menos importante na luta antirracista do que os pretos retintos. Usando o termo histórico do racismo brasileiro, que desqualifica alguém como impuro e degenerado, ela chama uma militante negra e comunista de mulatinha. E ainda coloca, covarde, essas palavras na boca de Lélia Gonzalez, cujo sobrenome veio de seu primeiro companheiro, um homem branco. Mesmo após o suicídio de Luiz Carlos, e seu novo casamento, nunca abandonou o sobrenome daquele que junto dela despertou para os problemas raciais na sociedade brasileira. Quem tem coragem não trai.

Foto Martina Martinez (IG @tio.martina)

Na mesma entrevista em que ela desqualifica, usando a linguagem eugênica do purismo, uma militante negra e revolucionária, que dedica sua vida à luta pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras pretas, ela defende Kamala Harris, uma mulher negra da pele clara, dos cabelos lisos e que mandou prender pretos no sistema carcerário mais racista do planeta. O colorismo vale quando? Ser mais ou menos escuro é credencial de que e em qual situação? Ora, tão óbvio. Vale na medida da covardia. Não teve coragem de se revelar diante dos olhos e ouvidos curiosos da nossa juventude gamense, mas quem é covarde trai, e sua traição veio ontem, no Roda Viva.

Internamente, nos movimentos negros, tão diversos quanto a negritude das pessoas, é concebível que tal discussão se acalore e é importante que ela surja. No debate é que crescemos e compreendemos o lugar e o papel de cada um. É inegável que existem marcas corporais que, acumuladas, impõem ao sujeito vivências específicas de violência e racismo. É importante pensar isso. Externamente, numa televisão burguesa, racista, liberal e escrota, é inconcebível. É colocar uns contra os outros numa luta que deveria ser de todos. Não se vence o racismo prescindindo da consciência dos brancos, quanto mais da consciência de todos os sujeitos negros, que incluem a complexa e imensa variedade de colorações e texturas. Quando pensamos que mais de 50% da população brasileira é negra, estamos diante de um dado que não é homogêneo.

Não podemos negar a história do racismo brasileiro. A política de embranquecimento e a violência colonial contra mulheres escravizadas trouxeram um elemento constitutivo de nossa realidade que deve ser considerado sempre. Um professor, filho de uma família vinculada à tradição da congada e dos reisados de Catalão-GO, por exemplo, não pode ser desqualificado devido a seus traços fenotípicos trazerem mais a marca da violência do que da tradição. Ele escolheu trilhar ao nosso lado e sabe seu lugar de fala. Uma jovem militante negra, cujos pais são negros, e que tem a pele mais clara, não pode ser desqualificada por isso. Ela escolheu trilhar ao nosso lado e sabe seu lugar de fala. A Kamala escolheu endurecer as leis carcerárias que impactam diretamente a vida de pretos e pretas. Ela escolheu criar uma lei que encarcera pais de crianças que faltam às aulas. Ela escolheu defender a pena de morte. Ela escolheu trilhar o caminho do opressor. Esse é seu lugar de fala, algo ligado a posições e posicionamentos, e não à essência de nada. O essencialismo é racista e fruto do colonialismo.

Imagem: Palestina Hoy

O termo da moda, interseccionalidade, ensina, em suas muitas e diversificadas vertentes, que a realidade deve ser compreendida em sua totalidade. Somente assim é possível entender um Sérgio Camargo, preto retinto, presidente da Fundação Palmares, e sua defesa contra os interesses objetivos da população negra do país. Somente assim é possível entender que quem posa pra Vogue e defende banco pode ter a cor que for, não está do lado do povo. Quem quer invadir o Oriente Médio e faz parte do poder imperialista estadunidense não é parceiro dos interesses econômicos, políticos, sociais e culturais dos povos latino-americanos. Uma preta norte-americana tem uma relação dentro de seu país e outra fora, sobretudo quando em relação aos “chicanos” que ela manda encarcerar. Interseccionalidade não é para passar pano contra quem trai os seus, ou para gente covarde se esconder do debate real. É para entender a complexidade das relações: raça, gênero, classe e sexualidade não são pauzinhos a serem cruzados segundo o interesse do interlocutor, mas realidades objetivas inseparáveis, contraditórias e em constante tensão.

Angela Davis apoiou a candidatura da chapa Biden e Kamala pelos mesmos motivos que todos os progressistas apoiaram. Ela não comemorou contínua, efusiva, ingênua e longamente a eleição da dupla dias após o resultado, e nem ficou no discurso da representatividade vazia. Porém, isso pouco importa: somos pensadores independentes e nossas posições são fiéis a nós, ao nosso lugar, aos nossos interesses de classe, raça, gênero e sexualidade, e não batem continência para personalidades, mas para posicionamentos. Há um discurso de Kamala disponível online em que ela defende a violência contra a Palestina, uma política genocida e imperialista contra a qual Angela Davis sempre militou. A prática é o critério da verdade.

Por fim, chamar de racista quem se posiciona com coragem e de forma coerente é a velha estratégia dos conservadores e liberais de sempre. Os movimentos negros são plurais. Não somos todos iguais. Não estamos todos nas mesmas posições. Nem todo mundo tem acesso à mídia golpista para falar o que quer em rede nacional. Nós fazemos parte do “s” de movimentos. O fato de defendermos, na tão afamada encruzilhada interseccional, os interesses objetivos da classe trabalhadora, majoritariamente negra, não nos faz menos legítimos para levantarmos a bandeira do movimento negro. Pelo contrário, de forma coerente sabemos que o fim de todas as opressões requer uma luta total, e não parcial.

Raça, gênero, sexualidade e (a estrategicamente esquecida) classe devem ser lidos em sua totalidade. O covarde trai. Quem tem coragem de se posicionar anda do nosso lado, e ao nosso lado temos Minervinos, Claudias Jones, Kwames Nkrumahs, Divas Moreiras, Ednas Rolands, Lélias Gonzalez, Marighellas, Malcoms X, Beneditas da Silva, Sankaras, Lênins, Clóvis Mouras, Florestans, jacobinos negros e o Partido dos Panteras Negras etc. etc. etc. Quem nos acusa pelas mídias hegemônicas e não nos encara de frente tem ao seu lado a Vogue, a Elle, o banco Itaú, a Globo, a Vera Magalhães, o identitarismo vazio, a representatividade do black money etc. etc. etc.


Não deixe de acessar a edição especial do Jornal Canhoto do Gama: https://www.gamalivre.com.br/2020/09/o-canhoto-completa-com-esta-edicao-um.html


Notas:


[1] Paula Juliana Foltran é Assistente Social, historiadora e estudiosa das relações entre raça, classe e gênero e autora da tese Mulheres Incorrigíveis: capoeiragem, desordem e valentia nas ladeiras da Bahia (1900-1920).


[2] O Canhoto é um periódico mensal impresso que completou um ano em setembro, voltado ao debate e difusão do marxismo periférico na nossa comunidade espremida entre a esquina da Brasília burocrática e o mais reacionário bolsonarismo latifundiário Goiano, Venceremos!


[3] Mais precisamente, nos EUA, o único partido de orientação marxista-leninista é o Party for Socialism and Liberation (PSL).







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