Quando o furacão perde de vista o seu olho



Desde os anos 30, o movimento negro no Brasil de trabalho livre realiza a apreensão da realidade de maneira múltipla e diversa. Muito pelo contrário do que acredita o senso comum sobre a luta antirracista, o povo negro em sua luta não possui uma unidade mística e um interesse comum, como se todos os negros fossem uma só pessoa. Essa lógica cumpre também um papel racista.


Não, as pessoas negras não querem todas a mesma coisa e, quando querem, não possuem um método único para alcançar. O movimento negro é bem heterogêneo e a crença de que ele é uma coisa só e que as diferenças ideológicas ao logo de sua história devem ser deixadas de lado em prol de uma união abstrata, cumpre um papel de despolitizar o debate..


As diferentes alas do movimento, se unem sim de maneira pontual para alcançar objetivos de curto prazo que são essenciais, trata-se de uma união tática e estratégica. Há exemplos históricos disso, como: a luta pelo reconhecimento do 20 de novembro como dia nacional na consciência negra, a criminalização do racismo, a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica através da lei 10.639/03 e, mais recentemente, a luta pela instituição das cotas raciais.


No entanto, apesar dos processos de unificação pontuais, o movimento segue ideologicamente fragmentado, o que é normal. A grande questão é como fugir da ideia abstrata de união universal, uma vez que a longo prazo, em termos de projeto de mundo, é impossível uma visão só em um movimento que abarca tão vasta população a nível mundial e, até mesmo, nacional.


Enquanto sujeitos que estão em movimento dialético constante com a sociedade, as pessoas negras, em sua diversidade, possuem diferentes visões de mundo e diferentes concepções ideológicas e, por suas visões e ideologias, trabalham constantemente. Portanto, essa abstração de uma união total, além de despolitizar, elimina o caráter de agentes históricos ativos do povo negro, uma vez que esse povo é entendido enquanto uma massa amorfa e homogênea.


Mais do que nunca a necessidade e dever do resgate da práxis negra é um dos desafios do nosso tempo, uma vez que raça e classe se encontram em movimento dialético e indissociabilidade histórica, junto ainda a diversas opressões estruturantes do capitalismo, como as questões de gênero, sexualidade e religiosidade.Logo, a superação do racismo e de todas as formas de opressão e exploração depende necessariamente da construção do socialismo, e para tal ação, é necessário entender que nem todos serão incluídos na revolução, pois nem todos buscam por ela.


Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF-UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve no perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.

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