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Psicologia e questões sociais: A quarentena das mulheres vítimas de violência doméstica

Maria Luisa Lima*


“Psicologia e questões sociais”é uma coluna mensal da Revista Clio Operária, que busca trazer discussões sobre política, atualidades e saúde mental à luz da psicologia.


Em 26 de fevereiro o Brasil registrou seu primeiro caso do novo coronavírus e desde então o número vem crescendo de forma exponencial, chegando hoje a quase 50 mil casos e mais de 3 mil mortes registradas em território nacional. Diante de tal cenário, uma das medidas de prevenção recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é a quarentena, adotada recentemente por vários estados. Obrigada a manter o isolamento social, grande parte da população se viu diante de uma realidade até então desconhecida, onde o contato físico é nocivo e a mera saída de casa pode representar grande risco tanto a si mesmo, quanto aos demais. Contudo, como se dá a adaptação a essa nova configuração social quando ficar em casa também é um risco? Esse é o caso de inúmeras mulheres que habitam a mesma residência que seus agressores.


Com o início da quarentena, António Guterres, chefe da ONU, pediu que medidas fossem adotadas afim de combater o aumento global da violência doméstica, prevendo que o isolamento resultaria em maior ameaça à vida de mulheres e meninas obrigadas a viverem com seus agressores. Em pouco tempo este aumento se tornou realidade em diversas capitais do Brasil: em São Paulo, os pedidos de socorro emitidos em decorrência da violência doméstica aumentaram 19,8%; e no Rio de Janeiro, o número de registros de violência doméstica teve um salto de 50%.


A violência de gênero se caracteriza pelo fato do gênero do agressor e da vítima serem fatores indissociáveis para a motivação de tal violência, ou seja, mulheres são acometidas justamente por serem mulheres, de forma que a violência se estabelece enquanto uma reafirmação do domínio e poder do gênero masculino sobre o feminino como resultado do modelo patriarcal de sociedade.


Refletir acerca da dominação de gênero através da violência pelo viés da psicologia têm não raras vezes me lavado à associação ao conceito psicanalítico de projeção e identificação com o agressor. Refere-se à projeção o seguinte:

No sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro — pessoa ou coisa — qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que ele desconhece ou recusa nele […]. O sujeito atribui a outros as tendências, os desejos, etc., que desconhece em si mesmo: o racista, por exemplo, projeta no grupo desprezado suas próprias falhas e as suas inclinações inconfessadas […] (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p.374–375).

Ou seja, a projeção é um mecanismo de defesa através do qual atribuímos aos outros sentimentos, intenções, etc. que pertencem a nós mesmos. Tal mecanismo de defesa é comumente utilizado nas relações supracitadas, onde o sujeito em posição de dominação (nesse caso o homem) projeta em sua companheira afetos que pertencem a ele mesmo. Sigmund Freud, criador do conceito, fez alusão ao funcionamento da projeção no que denominou de “ciúme projetivo”: o sujeito defende-se de seu próprio desejo de ser infiel imputando a infidelidade ao cônjuge, desviando assim a atenção do seu próprio inconsciente e ganhando clarividência no que diz respeito ao outro e desconhecimento no que diz respeito à si mesmo e seus próprios desejos.


Cabe ressaltar o caráter inconsciente deste e dos demais mecanismos de defesa e, consequentemente, a normalidade no fato de que os mesmos são utilizados por todos nós em diversos momentos e situações. A grande problemática — e motivo pelo qual a projeção é aqui mencionada — está no fato de que em relações permeadas por violência, a vítima se torna mais vulnerável às ações e comportamentos de seu agressor, inclusive à internalização dos conteúdos projetados por este. Anna Freud postulou o conceito de identificação com o agressor, mecanismo de defesa que possibilita a internalização citada anteriormente:

O sujeito, confrontado com um perigo exterior (representado tipicamente por uma crítica emanada de uma autoridade), identifica-se com o seu agressor, ou assumindo por sua própria conta a agressão enquanto tal, ou imitando física ou moralmente a pessoa do agressor, ou adotando certos símbolos de poder que o caracterizam (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p.230).

O psicanalista Sándor Ferenczi estudou esse mecanismo de defesa através da análise de crianças vítimas de violência e pôde notar que a identificação com o agressor ocorre quando o medo da criança da autoridade e força do adulto causa uma perda de consciência que paralisa as reações instintuais de resistência a agressão, impossibilitando a tomada de qualquer medida contra o desprazer provocado pelo outro, levando a criança à identificação com o agressor e à sua submissão e obediência.


Todo esse movimento pode ser notado em relações abusivas, uma vez que a violência ocorre em ciclos: há primeiro o aumento da tensão do agressor, o ato de violência em si e por fim a demonstração de arrependimento da violência cometida e juras de mudança. O ciclo de violência permite que a mulher se identifique com o seu agressor e explica a ostensiva dificuldade no rompimento de relações desse gênero. O atual contexto, onde o isolamento social se faz obrigatório, contribui para que essa situação se torne ainda mais delicada, haja vista a submissão ao confinamento em um país onde a máxima que vale é a de não meter a colher em briga de marido e mulher. O presente texto vem como um grito afim de enunciar que a solidariedade deve ser regra no momento atual, e que mais do que nunca se faz necessário romper com essa máxima e atentar-se à vida, saúde e bem-estar de nossas vizinhas, conhecidas e mesmo daquelas que podem estar sendo vitimadas no quarto ao lado.


*Maria Luisa é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).



Referências bibliográficas:


LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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