• Rafael Lopes

Promover o anticomunismo é a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo

O artigo a seguir foi publicado originalmente no dia 26/01/2020 no antigo site onde a Clio Operária hospedava seus artigos. Ele teve o intuito de traçar uma crítica ao artigo que saiu no The Intercept Brasil, Elogiar ditadores é a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo, no dia 22/01/2020. Preservei o artigo da forma como ele fora publicado, com apenas algumas correções ortográficas.


Durante os últimos anos vivemos em constante dúvida sobre os rumos do Brasil. Normatizar o absurdo ou relativizar a atual conjuntura do país — conjuntura essa de desemprego e precarização do trabalho — tornou-se uma tentação cotidiana para minha geração, que cresceu durante os governos petistas e se tornou adulta já no período pós Golpe de 2016 e hoje vivencia a fortificação do fascismo, impulsionado pelo regime bolsonarista. Porém nem todos caem nessa tentação. Nessa conjuntura, cada um toma o rumo que acha necessário e efetivo para si. Alguns procuram estudar o passado para buscar acontecimentos semelhantes na história e como estes foram superados, e tendem a procurar a saída, não de forma cega, mas com o auxílio de sua crítica. Outros concentram a sua desilusão em fantoches criados pelos mesmos que levaram o país a esse caos. Dado isso, essa semana o jornal The Intercept Brasil, juntou-se à reação com um artigo intitulado Elogiar ditadores é a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo. No artigo, os jornalistas (jornalistas, não historiadores) colocam os radicais de esquerda, os comunistas, como um fator que faz a esquerda perder seu espaço para a extrema direita.

O que mais me impressionou no texto é o ego dos jornalistas. São citados dois exemplos de pessoas que “homenageiam líderes autoritários”. A primeira citação é ao historiador Jones Manoel. O texto dá a entender que Jones acha normal “fuzilar uma família aqui, matar outro tantos milhões de fome ali, torturar e assassinar indiscriminadamente e promover o terror entre os dissidentes”. Porém, Jones (que teve seu direito de resposta negado pelos editores do Intercept) tweetou isso com um complemento: de que os comunistas russos não começaram a guerra civil e nem a venceram com flores. É claro que os jornalistas não colocaram isso no texto.

Vale lembrar que a frase “fuzilar uma família aqui” faz referência ao assassinato da família Romanov pelos bolcheviques durante a Revolução Russa. Os Romanov foram governantes absolutistas por séculos do Império Russo. Governantes esses que levaram a população russa à fome, à miséria, à um sistema próximo ao feudal. Os Romanov tinham uma forma bem simples de tratar as exigências do povo por melhores condições de vida: a morte. Lembremos das manifestações por pão lideradas pelas mulheres russas no começo do século XX, que foram respondidas a base da bala. As Revolução Russa, mostrou a todos os povos oprimidos do mundo que sim, eles podem se erguer contra seus opressores. Que sim, um mundo melhor pode ser construído. Porém, os jornalistas jogam toda essa experiência no ralo. A outra citação é feita a deputada federal eleita pelo Rio de Janeiro, Talíria Petrone. A deputada, no dia do aniversário da morte de Vladimir Lênin, um dos líderes da Revolução Russa, tweetou em homenagem ao revolucionário. Segundo o artigo, declarações como essas entregam a esquerda de bandeja para a direita. Para os jornalistas não devemos confrontar as mentiras da direita de forma direta, mas sim apenas não dando mais lenha para suas falácias. Devemos aceitar o seu balanço histórico. Vale lembrar que a direita serve às classes dominantes, aos opressores, e eles utilizaram de todas as formas para fazer a manutenção da ordem; inclusive criando sua própria história. E falo do ego dos jornalistas pois tanto o Jones Manoel, quanto a Talíria Petrone são historiadores, mas os jornalistas não consideraram isso e trataram ambos como se fossem “ingênuos”.

O artigo publicado pelo Intercept visa tratar toda uma teoria econômica, social e política, oriunda de séculos de estudos, de prática e de autocrítica, como algo inútil. O artigo, dessa forma, é um prato cheio aos reacionários. Ao colocar as experiências socialistas no mesmo grupo dos regimes nazifascistas, os jornalistas enfraquecem a esquerda como um todo. Durante o artigo, os jornalistas escrevem que o texto “não é uma crítica a correntes teóricas especificas” e que “cada um defende o que quiser e nós defendemos esse direito até o final”, porém logo em seguida falam que esses direitos não abrangem àqueles que defendem autoritarismos. Acusam a esquerda radical de ser ingênua e buscar por uma “pureza ideológica”. Essas críticas ao comunismo são oriundas de uma crítica as experiências socialistas feitas pelo balanço histórico das classes dominantes. É um pensamento baseado no que os de cima falam.

Em um artigo intitulado O anticomunismo que a esquerda gosta, publicado na primeira edição brasileira da revista Jacobin Brasil, o próprio Jones Manoel escreve que “enquanto a direita promove delírios sobre uma conspiração marxista, parte da esquerda continua rendida à versão histórica da classe dominante”. Tal afirmação fica mais evidente em artigos como esse do Intercept. Para Jones, essas afirmações ganham forças no espaço deixado pelos próprios partidos comunistas que não se dedicam a estudar as experiências socialistas sem ser com o balanço histórico da classe dominante. E, como completa Jones:


Um espaço vazio, na política, nunca está realmente vazio. Essa lacuna cria oportunidade para uma ideologia liberal e anticomunista atravessar o quase-deserto de ideias e pesquisas e apresentar um balanço histórico do século XX que reflete a ótica dos vencedores.

Para completar, Jones faz as seguintes perguntas:


…por que comparar o bolsonarismo com a Revolução Cultural e não com o macarthismo? Qual o sentido de tentar assimilar a defesa reacionária da família feita pela extrema direta com o “stalinismo” — seja lá o que for tomado por stalinismo pelo locutor — e não a tradição cristã conservadora das Marchas da Família com Deus Pela Liberdade? E por qual razão comparar Bolsonaro e seus vassalos com Hugo Chavez e Lênin e não com o Patria y Libertad e o ditador chileno Augusto Pinochet? (MANOEL, 2019)

Artigos como esse publicados pelo Intercept, não servem para mostrar novos rumos a esquerda, mas sim como afundar mais a sua cabeça no buraco. Equiparar as experiências socialistas como autoritárias, não é só um ato que demostra a ingenuidade como também o mau-caratismo dos liberais “de esquerda”. A proximidade da esquerda aos seus líderes revolucionários não é um atraso e sim um avanço, pois só estes compreenderam que não há formas de construir uma sociedade mais justa a não ser pela revolução do proletariado. Os jornalistas acusam os comunistas de não promover uma coligação que junte vários ramos da esquerda contra o fascismo promovido pelo regime bolsonarista, porém são eles, que ao promoverem um anticomunismo raso como este, separam a esquerda de uma união. Para terminar, ao contrário do que Engels acreditava dos anarquistas (outros que promovem o anticomunismo sob o espectro do “autoritarismo”), que estes ou era ingênuos ou estavam mal intencionados, mas em ambos os casos servem a reação, jornalistas como estes estão mais próximos do lado fascista do que dos que o combatem e, em última, não só servem a reação, como promovem o pensamento reacionário.


Além das referências, abaixo consta também a nota de resposta do Jones Manoel, que foi negada pelo Intercept, porém que o historiador publicou em seu perfil no Facebook.


Referencias:

The Intercept Brasil — Elogiar ditadores é a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo, disponível em: https://theintercept.com/2020/01/22/elogiar-ditadores-faz-esquerda-continuar-perdendo/ acesso em 24 jan 2020.

Manoel, Jones — O anticomunismo que a esquerda gosta­ — Revista Jacobin, 2019.

Nota de resposta de Jones Manoel: https://www.facebook.com/jones.makaveli/posts/2561840693924273?_rdc=1&_rdr/


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