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Povo Huni Kuin e a influência da cultura nas definições de saúde e doença

“Psicologia e questões sociais”é uma coluna mensal da Revista Clio Operária, que busca trazer discussões sobre política, atualidades e saúde mental à luz da psicologia.

Mapu Huni Kuin: Uma das principais lideranças indígenas do Acre. Imagem: https://revistagalileu.globo.com/galileu-e-o-clima/noticia/2019/09/guardioes-do-seu-futuro-quem-sao-os-jovens-ativistas-do-clima.html

Recentemente, durante o desenvolvimento de determinado trabalho acadêmico, comecei a pensar sobre os conceitos de saúde e doença e a influência sociocultural ao qual ambos os conceitos estão submetidos. Tal trabalho permitiu que me debruçasse pela primeira vez na leitura sobre a relação de diferentes povos com as definições supracitadas, mais especificamente sobre o povo Huni Kuin. O presente texto surge da empolgação resultante do trabalho mencionado, que possibilitou não apenas uma primeira compreensão dessas distinções, mas a reafirmação da necessidade de se pensar saúde de forma ampla e contextualizada.


O povo Huni Kuin (Pessoas Reais; Seres Humanos) habita o estado do Acre e a nascente do Rio Purús, no Peru, chegando a 5000 indivíduos no total. A cultura Huni Kin enxerga o corpo como uma entidade em contínuo estado de criação fora do ambiente e através da ação de outras pessoas, além disso, o corpo acumula os efeitos do que é experienciado pelo sujeito, bem como todo o conhecimento adquirido, de forma que corpo e conhecimento são indissociáveis.


“Conhecimento não é um campo fechado. Tudo o que o mundo contém e o corpo encontra pode se tornar conhecimento […] Corpos diferentes acumulam ‘conhecimento’ de formas diferentes dependendo das suas histórias individuais (ALVES; RABELO, 1998)”.


Dessa forma, a ação social pode ser considerada a exteriorização do conhecimento adquirido, sendo necessário que o corpo aprenda para que possa agir socialmente.


Pensar a relação do povo Huni Kuin com o corpo é importante para compreender a visão dos mesmo sobre os processos de doença e saúde. Para esse povo, saúde pode ser definida como a combinação entre o conhecimento acumulado e a capacidade de agir socialmente, sendo que a doença é então um distúrbio no poder de conhecimento do corpo, uma vez que esta interfere o processo de aprendizado e a capacidade de absorver conhecimento de maneira eficaz, e afeta negativamente o atributo de pensar e sentir. O corpo doente é tratado de plantas e medicamento, levando em conta que doenças novas exigem materiais e conhecimentos novos.


Analisar questões relativas à saúde e doença requer necessariamente a consideração do contexto sociocultural em que os sujeitos estão inseridos e como esse contexto é responsável por atribuir sentido à essas experiências. Assim como a doença, a preocupação com a saúde é inerente a vida humana, porém cada cultura possui conceitos acerca do que é ser/estar doente ou saudável, assim como classificações dos sintomas, etiologia, gravidade e diagnóstico das doenças, que na maioria das vezes rompem com as definições do modelo biomédico.


Ao voltar-se para o atual contexto, é interessante a etiologia ao qual o povo Huni Kuin atribui à epidemia do COVID-19. Para eles, o desmatamento das florestas através do uso predatório da mesma pelo sistema de produção capitalista, tem como inevitável consequência a reação dos seres que nela habitam, pensamento compartilhado por outros povos indígenas, como relata Davi Kopenawa:


“Ao destruir cegamente as florestas tropicais, sua biodiversidade e os povos indígenas que as habitam com sabedoria, os ‘Povos da Mercadoria’ (como nos rotulou Davi Kopenawa) acabam virando contra si mesmos as consequências de sua predação desenfreada, tornando-se, assim, a vítima final de sua própria ‘hybris’. Essa é a mensagem que os xamãs Yanomâmi tentam nos transmitir há décadas”.


No entanto, é possível notar que apesar das consequências explícitas, o momento atual têm sido visto como uma oportunidade para os “povos da mercadoria” darem continuidade à exploração dos recursos naturais e “passar a boiada” — como dito pelo ministro do meio ambiente, Ricardo Salles — mudando as regras de proteção ambiental e evitando críticas e processos na justiça, enquanto o país está ocupado tentando sobreviver a uma pandemia sem precedentes que, de acordo com o observatório Quarentena Indígena, até o momento já atingiu 93 povos, resultando em 2390 infectados e 236 mortos, como resultado da condução extremamente falha do atual (des)governo.


Maria Luisa Lima é estudante de Psicologia e pesquisadora sobre violência e questões raciais no Núcleo de Pesquisa em Violência e Psicologia Jurídica (NUPEV - PJ).


Referências Bibliográficas


ALVES, PC.; RABELO, MC. orgs. Antropologia da saúde: traçando identidade e explorando fronteiras [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ; Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará, 1998. 248 p. ISBN 85–7316–151–5. Available from SciELO Books. Disponível em: <https://static.scielo.org/scielobooks/by55h/pdf/alves-9788575414040.pdf>.


ATUALIZAÇÃO DE CASOS INDÍGENAS. Quarentena Indígena, 2020. Disponível em: <http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas/>.


FERNANDES, N. Como os povos indígenas brasileiros veem a pandemia de Covid-19. Uol TAB, 2020. Disponível em: <https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/04/como-os-povos-indigenas-veem-a-pandemia-do-novo-coronavirus.htm>.


LANGDON, EJ.; WIIK, FB. Antropologia, saúde e doença: uma introdução ao conceito de cultura aplicado às ciências da saúde. Rev. Latino-Am. Enfermagem, n. 18, v. 3, mai.-jun. 2010, p. 173–181. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rlae/v18n3/pt_23.pdf>.

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