• Clio Operária

Por um olhar anticolonial

Rafael Lopes*


A história do Brasil é marcada por uma série de permanências. Desde os tempos coloniais, nossos valores culturais, nossas religiões, nossas características e diversas outras faces da nossa identidade são inferiorizadas. O que é feito aqui é considerado ruim, inútil. Em compensação, tratamos tudo o que vem de fora com um clamor. Se é europeu, é bom, se é estadunidense é bom.


Fonte: https://www.pinterest.ch/pin/374291419026280795/

Nós alimentamos preconceitos contra nós mesmos. Dizemos que somos incapazes, inferiores, seja por nossa cor ou por uma imaginária incapacidade hereditária. Falamos que somos preguiçosos, que somos incapazes de trabalhar de forma regular e disciplinada, de nos esforçamos de forma construtiva e organizada. Para nós, é impossível realizar os grandes feitos das nações europeias; e para além disso, julgamos impressionantes os feitos europeus sem analisar de forma crítica, e até mesmo moral, esses feitos. Um exemplo claro disso são os liberais de esquerda que enaltecem a social democracia europeia, mas não citam que essa democracia é edificada sob a exploração do Terceiro Mundo. Para o europeu ter acesso a saúde e educação gratuita, milhares de trabalhadores morrem nos cantos esquecidos do mundo.


Essa autofagia chega até aos projetos econômicos brasileiros. Esse preconceito nutriu e nutre até hoje, uma ideia de que é impossível o Brasil conseguir a sua independência econômica. Para alguns, seremos sempre uma nação dependente, por que somos destinados a isso. Essas ideias são a reprodução do pensamento do colonizador. Argemiro Jacob Brum, relata no excelente O Desenvolvimento Econômico Brasileiro, como esses preconceitos afetaram o nosso desenvolvimento econômico:

Em decorrência de tais preconceitos, acreditávamos ser incapazes, no campo econômico, de viabilizar um processo industrial próprio, ficando, portanto, condenados indefinidamente a sermos importadores de produtos industrializados e a desempenhar uma função econômica complementar das economias adiantadas: produção de matérias-primas e gêneros alimentícios tropicais. (BRUM, 1987)

Esse pensamento de que o Brasil é condenado a ser um simples exportador de matérias-primas e alimentos é um reflexo não só do colonialismo, mas posteriormente do imperialismo. O imperialismo que inicialmente limitava o desenvolvimento das suas colônias controlando sua produção de forma direta, hoje exerce esse domínio por meio do controle de tecnologias. E quando um pais tenta contornar esse domínio, os imperialistas mandam suas tropas ou financiam grupos armados, como o que vimos acontecer na Líbia e na Síria, e que vemos hoje acontecer com a Venezuela e no Irã.


Mas, voltando a cultura, não podemos nos enganar: a desvalorização de nosso povo não surgiu de forma natural, ela foi implantada. Brum complementa seu raciocínio:

Todavia, essas características negativas, que tanto marcaram e ainda marcam a nossa vida, o nosso atraso e a nossa dependência, não são fruto de uma herança invencível, mas o resultado de uma continua inculcação ideológica dos dominadores para mais facilmente exercerem sua dominação em proveito próprio. (BRUM, 1987)

Esse preconceito que trazemos desde os tempos coloniais, foi e continua sendo assegurado pelo domínio imperialista que não só mina nosso desenvolvimento como uma nação independente, mas também faz com que depreciamos a nossa própria cultura.


Frantz Fanon explica a forma que os colonizadores faziam com que o colonizado não só negasse a sua cultura, como também a odiasse em favor de outros valores impostos pelo colonizador. O colonizado é convencido de que sua inferioridade provem de suas características raciais e culturais. O opressor, com isso, assegura a sua opressão pelo domínio não só econômico, como também cultural, e quando surge qualquer resistência a dominação, ele tende a modificá-la, fazendo a manutenção dessa opressão:

Contudo, a necessidade que o opressor tem, num dado momento, de dissimular as formas de exploração não provoca o desaparecimento desta última. As relações econômicas mais elaboradas, menos grosseiras, exigem um revestimento quotidiano, mas, a este nível, a alienação continua a ser terrível. Tendo julgado, condenado, abandonado, as suas formas culturais, a sua linguagem, a sua alimentação, os seus procedimentos sexuais, a sua maneira de sentar-se, de repousar, de rir, de divertir-se, o oprimido, com a energia e a tenacidade do náufrago, arremessa-se sobre a cultura imposta. (FANON, 1969)

As formas de domínio podem ter mudado, porém todo domínio exercido por uma nação estrangeira é ruim. Não há vantagens em ser submisso. É necessário, mesmo em 2020, um pensamento anticolonial. Devemos pensar em um projeto brasileiro, podendo buscar influência em outros pensadores emancipadores de fora, porém, o cerne da questão tem que ser a nossa realidade como povo brasileiro. Devemos pensar na nossa cultura, no nosso povo, sem essa autofagia para com tudo que é nosso; sem pensar em Brasil com os olhares impostos pelos colonizadores.


A nossa cultura é uma dialética da relação entre diversas outras culturas. A nossa história é marcada pelo domínio sanguinário colonial e hoje imperialista, porém, a nossa identidade como povo é indestrutível. Devemos não valorizar nossa cultura apenas num sentido abstrato, mas sim devemos olhar mais para nós mesmos ao pensar no futuro, ao invés de olhar apenas para o que vem de fora. Não se importam soluções, essas são construídas dentro da realidade social, econômica e política de uma sociedade, sendo construída diretamente por aqueles que são afetados pelo problema em questão. A solução para nossa realidade está em nós, está em nossos irmãos colonizados em África, está em todo o Terceiro Mundo que sofre com as garras do domínio imperialista e está, em última instancia, em todos os trabalhadores, que compartilham diariamente a esperança de um amanhã mais justo e que não têm nada a perder, a não ser os seus grilhões.


*Rafael Lopes é historiador e educador popular da Rede Emancipa.


Referências:


FANON, F.Em defesa da revolução africana. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/fanon/1969/defesa/index.htm>. Acesso em: 14 04 2020.


BRUM, A. J. O desenvolvimento econômico brasileiro. 8. Ed. — Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1987.


Lenin, V. I. Imperialismo, estágio superior do capitalismo. 1. Ed. — São Paulo: Expressão Popular, 2012.


1 visualização

Posts recentes

Ver tudo
apoie.png