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Por que sou (ser) marxista? A introdução ao marxismo feita por um leigo

Rafael Torres*


Antes de passar para o marxismo em si, devo fazer algumas considerações iniciais para deixar mais claro minha intenção com esse texto. Recentemente, no meu dia a dia, algumas pessoas me questionaram sobre o que é o comunismo, ou o que é o marxismo, e eu expliquei, de acordo com o tempo que eu tinha — a maioria foi no meu ambiente de trabalho — e notei ainda uma certa dúvida dessas pessoas, o que é normal, tendo em vista que não tive tempo de passar pelos conceitos básicos do pensamento marxista e confesso que posso ter rebuscado demais a explicação. O que é isso? Bom, eu falei com essas pessoas como se estivesse tratando o assunto com um acadêmico, algum intelectual, algo do tipo e isso está errado! Eu esqueci que, assim como eu, aquelas pessoas fazem parte da grande massa, da classe trabalhadora, e como vou alcançar essas pessoas usando todo o vocabulário (curto, admito) acadêmico que eu tenho? Não vou alcançar quem precisa ser alcançado assim. Na minha introdução ao marxismo não fizeram isso comigo e não farei com outros. Além disso, quem melhor que alguém que tenta ser professor para explicar minimamente isso?


Bom, dito isso, podemos começar rabiscando minha trajetória com o marxismo e o próprio pensamento.


Em meados de Janeiro de 2019, quando eu ainda estava na universidade, me sentia um idiota já que eu não conseguia participar de uma só discussão acadêmica na sala, pois eu era menos capacitado que uma porta para debater filosofia (apesar de me formar em História, debatemos muito Sociologia e Filosofia na faculdade) e sempre me abstive quando começavam os debates. Mas, isso mudou um dia, quando um até então muito afastado colega, mas hoje um grande companheiro de lutas e amigo pessoal, Vinicius Souza, deixou um livro em cima da mesa quando íamos para o intervalo da aula e eu sou curioso, então virei o livro quando estava passando na mesa dele, esse livro era o Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels — ambos pais do comunismo e grandes amigos — e, no momento em que eu bati o olho na capa, senti uma vontade imensa de lê-lo e assim o fiz. A partir desse momento, minha vida mudou muito e me formou, e ainda forma, enquanto indivíduo. Porém, quando o li da primeira vez, alguns conceitos ficaram bem pouco explicados na minha cabeça e com essa cabeça confusa, um leigo vai explicar marxismo para vocês. Prometo ser o mais didático possível.



Antes de explicar o conceito básico do marxismo, devo explicar ao que ele se opõem, para ficar mais fácil.


Positivismo


O positivismo é uma das diversas correntes do pensamento filosófico que o marxismo se opõem. Essa corrente possui uma visão bem fechada do mundo e da sociedade, inclusive ela serve de base para o conservadorismo atual que reina no território latino americano.


Os filósofos que seguem essa corrente tendem a ver o mundo como algo não mutável, ou seja, o mundo não é algo em constante mudança e isso já traz outros problemas. Por exemplo, a população de um país que sofre com fome, guerra, falta de saneamento básico e sem acesso a terra, para um positivista não é algo estrutural, ou seja, não é algo que seja parte da base histórica que decorre da colonização feita naquele país, mas simplesmente aquela sociedade não estaria apta a uma evolução. Isso quer dizer que, mesmo reconhecendo o problema social, o positivismo diz que, enquanto local de interação de seres humanos, aquela sociedade falhou em evoluir. Essa tipologia que fazem de um país, povo ou cultura, é base de um dos conceitos mais racistas que existem: o Darwinismo Social. Mas não para aqui. Quando é reconhecido esse problema (no sentido do pensamento racista) não estamos falando sobre uma resolução de um problema estrutural, mas a eliminação daquela parcela que causa esse “problema”. Um exemplo: o Marrocos, país africano, faz fronteira com a Espanha, separados por um pequeno espaço de água e um muro enorme no lado espanhol. Começaram ondas imigratórias saindo da África em direção à Europa e, naturalmente, quando um país se preocupa com o bem estar social de sua população ele não incentivará a saída de seus cidadãos, mas isso não acontece por lá, pelo contrário, eles incentivam e muito a saída dessa parte pobre da sociedade, pois isso também exclui a oposição política ao governo, mas isso não é pelo marroquino ser racista com seus próprios, mas pelo país ser comandado pela Europa, como grande parte da África.


Já em outro exemplo, Maria Stella Martins Bresciani, historiadora brasileira, no livro Londres e Paris no séc. XIX: o Espetáculo da Pobreza, fala sobre como os trabalhadores que não estavam empregados no século XIX (19) eram chamados de vagabundos. Hoje, no Brasil, utilizamos o mesmo nome. Podemos fazer uma conexão do positivismo com a tal da “moral e bons costumes” sem ao menos saber explicar o que é a moral. Temos aqui um cenário em que o pensamento crítico, a análise estrutural de uma sociedade, da sua formação ou qualquer outro aspecto dela, são descartados e anunciamos frases feitas como “bandido bom é bandido morto”, sendo que, primeiro, não nos cabe julgar legalmente essa pessoa, tendo em vista que o Estado é formado por Poderes (Legislativo, Judiciário e Executivo) que cumprem ou deveriam cumprir esse papel. Segundo, um processo de formação de um país que conhecemos como subdesenvolvido, como o Brasil, nos mostra o porquê dos níveis estratosféricos de violência de hoje, mas é mais fácil transformar a rua num cenário de faroeste e que cada um faça sua defesa pessoal.


Logo, é fácil reconhecer como o positivismo está intimamente ligado ao conservadorismo e a exclusão da população pobre, negra e periférica.


Idealismo


Pelo nome fica fácil saber o que é o idealismo. Aqui a realidade é moldada pelas ideias, não o contrário. É confuso, eu sei, mas vai melhorar.


Já que, nesse ponto, a ideia molda a realidade, as explicações para o mundo normalmente são externas, por exemplo, quando um idealista ouve algum problema de alguém conhecido e logo pergunta de qual signo a pessoa é, como se a posição dos astros no momento do nascimento daquela pessoa ou no momento de tomada de alguma atitude influenciasse como será a vida dela daquele momento para a frente. Ou como a utilização de uma pedra no pescoço pode tirar energias ruins, ou como a droga que ele tomou na rave o fez ter uma experiência transcendental. Veja, todos esses pontos partem de ideias, do pensamento, nenhum deles são comprovados pela ciência, psicologia, psiquiatria ou qualquer outro campo de estudo, mas mesmo assim, dão credibilidade à essas explicações. Já um idealista conservador pode usar os conceitos da astrologia para justificar sua fala também, como faz Olavo de Carvalho.


Um exemplo mais prático do idealismo é a fala do Morgan Freeman, ator muito famoso. No último Dia da Consciência Negra, um vídeo do ator foi relembrado, no qual Freeman diz que para solucionar o racismo é necessário parar de falar sobre ele. Veja, ninguém consegue negar a existência do racismo, porém diferente dos positivistas, a solução é praticada pela mente, pelas ideias, de forma metafísica. Eu sei que essa palavra assusta um pouco, mas vou simplificar.


A metafísica é um conceito muito estudado na filosofia e eu sou historiador, logo, não sou o melhor pra tratar disso, mas vou explicar de acordo com o olhar marxista. A metafísica, para os marxistas, representa a análise superficial da situação, ou seja, não se leva em consideração muita coisa. Veja, assim como a existência do racismo, não podemos negar que a sociedade em que vivemos é dividida em classes, uns mais pobres, outros mais ricos e outros muito mais ricos que todos juntos. Essa parcela mais rica e até a menos rica, preza por um discurso sem debates sociais, já que com o debate é possível fazer quem é oprimido enxergar que está sofrendo e fazer essa pessoa se rebelar contra o que ou quem a oprime. Então, para as pessoas que dependem de continuar usufruindo de uma boa posição social é muito bom não haver uma explicação crítica do mundo, dessa forma todos se mantém onde estão, sem movimentação, protestos, greves, paralisações que são as únicas maneiras de quem é pobre conseguir representar seus interesses de forma política. Nesse sentido, a religião, por exemplo, ganha espaço e acabamos ouvindo que estamos assim pois Deus quer ou que ele escreve certo por linhas tortas. Calma! Não estou criticando a religião aqui e, na verdade, eu não me importo com a sua religiosidade, estou apenas mostrando como a instituição religiosa pode ganhar força nesse discurso.


Bom, explicado algumas outras correntes das quais o marxismo se opõe, apesar de existirem outras que não tenho como explicar agora, bora para o marxismo. A base do pensamento marxista é uma coisa chamada Materialismo Histórico-Dialético, eu sei que esse nome é complicado também, mas vai melhorar de novo, eu juro.


Esse nome é escrito assim porquê o pensamento marxista exerce os três ao mesmo tempo, mas para explicá-los, terei que separar os três.


Quando eu falei com algumas pessoas sobre Materialismo, logo elas relacionaram ao significado do senso comum de materialismo, ou seja, de matéria, ou, bens de consumo. Marx trata o materialismo de outra forma. Em contraponto ao idealismo, o materialismo abrange o mundo melhor, sabendo que tudo acontece com base na realidade concreta. Ou seja, um materialista sabe que, por mais que eu tenha desejo de ter dinheiro, grandes propriedades, bens materiais (no sentido do senso comum), se eu for pobre, minhas chances são mínimas mesmo que na minha cabeça eu fale todo dia que serei, como um idealista faz. O idealismo serve para uma coisa que eu particularmente odeio que são os coachs, onde eles vão gritar na tua cara que se você pensar, tudo vai se realizar, mas sabemos que não é assim. Ou seja, num processo de produção, quando se tem um x material, vai ser impossível produzir algo diferente daquilo, por exemplo, numa fábrica que trabalha com plástico, nenhum produto vai sair dali sendo de madeira, mesmo que o trabalhador que manuseou a máquina queira produzir madeira, nem a sua ideia mais forte fará com que isso se torne realidade. Mas é importante ressaltar que, mesmo que o marxismo compreenda a sociedade em classes, o indivíduo ainda possui suas particularidades e com o mesmo plástico ele pode produzir coisas diferentes do que seu colega de trabalho, de acordo com a sua criatividade. Aqui já tiramos algo do senso comum, imposto pela classe dominante: o marxismo respeita e compreende a particularidade individual de cada trabalhador.


“Nossa Rafael, Marx pensou nisso do nada?’ Não, não foi do nada. Marx era alemão, nascido no começo do século XIX (19) e nessa época, no que hoje conhecemos como Alemanha, o pensamento era extremamente baseado no idealismo, ou seja, reconheciam algo, mas permanecia só na ideia a solução. O primeiro cara que começou a querer mudar isso para o materialismo não foi Marx, mas Feuerbach (pronuncia tipo Fóêbá, alemão é uma língua bem curiosa) e quando Marx e Engels tiveram acesso às obras de Feuerbach, aceitaram seu materialismo, onde ele criticava Deus e colocava o homem como seu próprio Deus (é estranho, eu sei). Ele chamou isso de Materialismo humanismo naturista. Mas repare, Marx e Engels já entenderam que era necessária a mudança desse conceito de materialismo. Já vamos voltar nisso.



Já a parte Histórica do conceito é mais simples. Se no materialismo temos que a realidade concreta molda as ideias, a história, para Marx, mostra que os indivíduos sempre foram divididos em classes, ou seja, sempre houve um embate entre indivíduos. Logo, um explorador e um explorado, um que manda e o outro obedece (ou não, que é o aconselhável). Engels escreveu um livro muito bom sobre isso, chamado A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, no qual, numa passagem, ele aborda que a primeira relação de indivíduos que estão em contrário é o matrimônio entre homem e mulher, ou seja, o opressor e a oprimida. Estranho que esse conceito se aplique tão atualmente, né?! Ah, dica, isso tem a ver com o capitalismo. Mas é uma discussão pra outra hora.


A Dialética é uma sacada de gênio do Marx. Também não foi uma voz da cabeça dele que inventou isso. Marx teve contato com a dialética através de Hegel. Hegel era uma filósofo alemão também, mais velho que Marx e que foi estudado por ele. A dialética hegeliana é muito interessante: para ela, existe uma afirmação X, mas dialética significa movimento de contrários, então, para essa afirmação existirá uma negação Y. Porém, o atrito de dois contrários, X e Y, gera um resultado ou uma síntese que é Z. Calma, vocês vão entender tudo isso.


Vamos lembrar que Hegel era um idealista, logo, esse movimento de contrários é posto no mundo das ideias, certo? Pois bem, o que Marx fez foi simplesmente tirar a dialética da ideia e colocar no plano concreto — materialismo, sempre — logo, se o mundo sempre foi dividido entre classes, a classe dominante (X) e a classe oprimida (Y), o embate entre os dois gerará a síntese. Num exemplo prático, pois também sou materialista: a conquista da democracia após a ditadura militar instaurada em 1964 no Brasil na prática foi uma grande vitória para a ala da esquerda, a classe trabalhadora. Mas e no plano das ideias? No plano das ideias isso atende à burguesia (classe dominante) por quê? Bom, a democracia em que vivemos não é uma democracia em pleno estado, sabemos que não somos totalmente livres, já que não podemos sair comprando qualquer coisa no mercado, que não podemos deixar de votar, ou que a população carcerária cresceu, quase dobrou em dez anos (2006–2016) indo de 401,2 mil para 726,7 mil, respectivamente. Eu não acredito que isso seja liberdade, mas acreditamos que somos livres graças ao discurso vindo de cima.



Hegel

Bem, já pra finalizar, para o marxismo, o homem estabelece relações sociais através do trabalho, mediado pela natureza. Mas se o marxismo prega o materialismo, e o concreto muda a ideia, as relações sociais não podem mudar as relações de trabalho? Sim, podem! Isso porquê, segundo o próprio Marx e Engels, o capitalismo produz seu próprio coveiro e as armas que o matarão. O que é isso? Calma, vão entender. Segundo os capitalistas (burgueses) somos livres apenas nesta sociedade, mesmo que o trabalhador passe mais tempo nos seus empregos do que com sua família ou até mesmo dormindo (de novo, isso não é liberdade). Isso faz parte do conceito de Estrutura e Superestrutura. Estrutura é o que faz parte da base da sociedade capitalista: machismo, patriarcado, racismo, homofobia, superexploração. Disso nascerá a Superestrutura, ou seja, as relações sociais, a religião, o Estado. Mas, segundo o marxismo, a única classe capaz de acabar com essa estrutura é o trabalhador, ou, como chamamos, o proletariado, isso porque é a única classe que sobreviveu a existência do capitalismo já que ele mesmo precisa do proletariado para sobreviver. Entende como, numa brincadeira, o capitalismo é meio masoquista? Ele deu vida à quem vai acabar com ele.


Fechando tudo, para ser marxista você precisa saber ser materialista histórico-dialético. Materialismo para mostrar que são as condições concretas que moldam a realidade e as ideias que permitem a produção de algo, que sem a prática, ideais são só ideias.


Histórico para mostrar quem faz/fazia parte da produção e porque.


Dialético para mostrar que as contradições históricas impostas pelo desenvolvimento do capitalismo limitam, mas não proíbem o resultado dos contrários. Marx nos mostra que o homem só é ser histórico, ou seja, só faz história quando se insere nela e como fazer isso? Derrubando o sistema em que vive, quebrando os paradigmas, sabendo que seu lugar, enquanto trabalhador e pobre dificilmente mudará enquanto viver trabalhando para o enriquecimento de um outro que não você. E é por isso que eu escolhi ser marxista. Tudo é sobre escolha e, de verdade, ouvir jornaleco falando sobre comunismo, sobre marxismo e comprar aquele discurso é só falta de atenção. Lembre-se: nenhum veículo de mídia trabalha sozinho, dependem de financiamento e como agradar mais seus financiadores do que falando mal do que irá fazer mal pra eles?


*Rafael Torres é historiador, educador popular na rede Podemos+, editor na Revista Clio Operária, desenhista e escritor.


BÔNUS:


Marx redigiu 11 teses sobre o Feuerbach, que citei antes. Vou deixar a mais famosa aqui para vocês refletirem depois de tudo isso.


“Os filósofos só interpretaram o mundo de diversas maneiras; devemos tratar sobre transformá-lo”.



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