• marciopauloas96

Pelo fim da violência policial na Nigéria! #EndSars

#EndSARS protest at Alausa, Ikeja, Lagos, Nigeria in October 2020.


Um vídeo-denúncia publicado no Twitter, onde aparece policiais cometendo assassinatos, gerou protestos na capital da Nigéria, Lagos, além de fazer com que a juventude se reunisse em diversos pontos do país. Um tweet de 3 de outubro mostra um jovem sendo assassinado pelo SARS, sendo deixado na rua, sem receber socorro. Esse assassinato aconteceu em Delta, no sul do país, o jovem teve seu veículo roubado pelos agentes do esquadrão, e tornou-se a nova centelha na população que foi as ruas. A discussão da violência policial perpassa a maioria dos países africanos, e os jovens são os principais coletivos que levantam a discussão, e com esse vídeo, a população foi à rua pedindo a dissolução do SARS.

Com diversos protestos nas praças públicas e grandes marcos da cidade pedindo o fim da violência policial, o governo nigeriano anunciou o fim pelotão de assalto, apelidado de “SARS”Anti-Robbery Squad (Esquadrão especial anti-roubo), que era uma unidade da polícia nigeriana criada em 1984, com a ideia de conter os furtos e os roubos por meio da repressão e força. Desde a década de 1990, o SARS tem sido alvo de debates sobre a sua real intenção, já que diversas vezes grupos de direitos humanos acusaram a unidade policial de força desproporcional e conchavos com os governantes. Por terem cometido violências brutais contra a população no decorrer dos anos, os pedidos da população para o fim do “SARS” iniciaram em 2017, e nesse mês de Outubro ganhou novo vigor através de uma série de tweets usando a hashtag “EndSars”. Através da hashtag, pessoas que sofreram violência policial passaram a denunciar pelo Twitter os abusos cometidos pela unidade policial, através de vídeos de sequestro, roubo, estupro, torturas, prisões ilegais. Os oficiais são acusados de traçar o perfil dos jovens com base nas escolhas das roupas que vestem, extorsão de jovens que utilizem iphones e carros chamativos, tudo isso com prisões ilegais sem mandado, além de casos de estupro de mulheres.

Em 11 de Outubro, a força policial nigeriana dissolveu o SARS, porém os protestos continuam de forma intensificada devido a promessas anteriores de realocação dos policiais da SARS em centros médicos e afins. O desejo das ruas é que todos sejam removidos para que possam ser julgados pelos crimes que cometeram. Mesmo com a população massiva de jovens nas ruas, a força policial foi intensificada e manifestantes foram mortos,

A Anistia Internacional fez um relatório onde consta que entre janeiro de 2017 até maio de 2020, mais de 82 casos de tortura e execução foram feitos em nome do SARS, sendo a maioria das vítimas homens de 18 a 35 anos, pobres e vulneráveis que são torturados para conseguir confissões ou punição pelos crimes que lhe são atribuídos. Ou seja, o SARS não faz apenas o papel de policial, ele também faz o papel de acusador e de até juiz, o que legitima os pedidos da população pelo fim da unidade.

Os jovens em questão são selecionados pelo SARS através de suas vestimentas, jovens com dreadlocks, jeans rasgado, tatuagens e carros chamativos ou aparelhos caros, são os alvos frequentes da SARS - a força policial em questão selecionou de forma unilateral um determinado grupo para torturar, perseguir e assassinar.


A hashtag tem sido impulsionada pelo Twitter por meio de atualizações dos manifestantes e demonstrando a força do povo nigeriano ao resistir de forma corajosa a repressão, praticamente sendo um dos únicos meios de atualizações

Os manifestantes invadiram uma prisão em Benin e libertaram reclusos, por volta de 200 pessoas, e o governo local anunciou um toque de recolher em Lagos, para evitar um possível estado de desordem geral. O presidente Muhammadu Buhari deu uma declaração aos veículos de imprensa dizendo que a voz dos manifestantes foram ouvidas em alto e bom som e pediu para a população não se instrumentalizar de subversão e disse que atos que ameacem a segurança nacional não serão tolerados, mas não comentou nada sobre a violência policial contra os manifestantes. O número de mortes anunciado pelo presidente por meio de reunião online entre antigos líderes nigerianos é de 69 pessoas, dentre as quais 11 eram policiais e 7 soldados que, segundo ele, foram mortos por “desordeiros”. Ele lamentou o aparelhamento da manifestação dos jovens em uma escala gradual de mortes e pandemônio, não responsabilizou ninguém pelas mortes.

Depois do toque de recolher feito pelo governador, as ruas amanheceram desertas e com pouca presença policial e, devido às restrições impostas, os principais expoentes do movimento não convocaram novos atos. Porém, nas redes sociais foram amplamente apoiados por esportistas e músicos oriundos do país e de outros locais. O piloto de F-1, Lewis Hamilton que sempre utiliza do seu espaço para protestar contra as atrocidades que o povo negro enfrenta, utilizou uma camiseta nesse fim de semana com a #EndSars, jogadores de futebol também levantaram camisetas e falaram sobre os protestos.

Depois de dias de conflitos entre manifestantes e policiais, de certo modo, a Nigéria tem momentos de calmaria. O #EndSars saiu dos trendings topics do Twitter, então é deixada de lado assim como todas as crises humanitárias. Porém a Nigéria não resume a violência policial. Há pouco foi anunciado o fim da Poliomielite no País,a doença foi erradicada e comemorada pelas autoridades sanitárias,a doença que assolou o continente Africano por décadas, por volta de 1950, países com maiores recursos conseguiram ter acesso a vacinas criadas contra a doença e campanhas de vacinação para erradicação, enquanto os países africanos perduraram para ter acesso a esses recursos,devido a conflitos no Sahel e a grupos como Boko Haram que tem atuação majoritária nos grandes centros populacionais que acabou atrasando a efetividade das campanhas, apenas neste ano a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou que a doença foi erradicada do continente.

A pandemia de Covid-19 anda bem abaixo do que era esperado pela Organização mundial da Saúde, já que países como Brasil e Estados Unidos da América tem casos extremamente superiores, na Nigéria os casos de Covid estão próximos dos 65.000 casos e 59.000 de recuperados, e os casos letais não chegam a 2.000 mortes.



Márcio Paulo é historiador, pós graduado em Filosofia e graduando em Ciências sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul, e colunista da revista Clio Operária.


Referências

https://oglobo.globo.com/mundo/ue-onu-criticam-repressao-na-nigeria-que-deixou-ao-menos-12-mortos-segundo-anistia-internacional-24704116

https://www.dw.com/pt-002/pelo-menos-56-mortos-em-protestos-na-nig%C3%A9ria/a-55366159

https://www.dw.com/pt-002/pris%C3%A3o-%C3%A9-incendiada-em-protestos-na-nig%C3%A9ria/a-55369807

https://www.dw.com/pt-002/pelo-menos-56-mortos-em-protestos-na-nig%C3%A9ria/a-55366159

Fela Kuti and Afrika 70- No Agreement, de 1977

Podcast Ponta de lança: África em pauta: “O Endsars e as urnas” https://spoti.fi/37GiNen





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