• Ricardo Normanha

Pedro, descalço, plantado na beira do Araguaia

Em um caixão simples, sem ornamentos, sem flores nem rendas, de pés descalços, Pedro descansa.


Foto: Raul Vico - IHU Unisinos


“Ser o que se é

Falar o que se crê

Crer no que se prega

Viver o que se proclama

Até às últimas consequências” (Pedro Casaldáliga)


Apenas uma estola de retalhos da Nicarágua, uma cruz peitoral de madeira feita pelos índios Xavantes e uma Bíblia acompanhavam o corpo cansado de Dom Pedro Casaldáliga. Em São Félix, foi enterrado no cemitério dos Karajás, sob uma cruz de pau, com sol e chuva, à beira das águas do Rio Araguaia. Rio que molhou os pés do catalão que, ainda jovem, chegou ao interior do Brasil, se fixou, criou raízes com esta terra, o povo e a sua luta. A simplicidade de seu sepultamento fazia jus a sua vida, a sua opção pelos pobres, por aqueles que, não por opção, caminhavam descalços sobre a terra vermelha e que por ela sangravam. Ao ser ordenado bispo, Pedro recusou todos os símbolos e ornamentos de ostentação característicos do abismo que separa a Igreja de mulheres e homens comuns, que trabalham e sofrem as penúrias de uma vida amargada pela exploração da terra e de seu povo. Usava como mitra o chapéu de palha típico do sertanejo e fazia-se mais um em meio aos seus.


“Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e a lua; a chuva e o tempo sereno, os olhares dos pobres com os quais caminhas e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor. Teu báculo será a verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti. Teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e a fidelidade ao povo desta terra. Não terás outro escudo que a liberdade dos filhos de Deus; nem usarás outras luvas que o serviço do amor" (Pedro Casaldáliga).


A morte encomendada lhe sussurrou no ouvido algumas vezes. O bispado lhe conferia proteção ao mesmo tempo em que amplificava sua voz e o grito de um povo que luta por um pedaço de chão. Por esta luta, muitos homens e mulheres tiveram seu sangue misturado ao chão encarnado. E este sangue continua a ser derramado, todos os dias, por estacas que fincam cercas, por arames farpados que conferem à propriedade a sacralidade que a vida humana deixou de ter. Para Pedro, descalço, sua condição de bispo não o fazia especial. Lamentava o silêncio da morte diária de índios, posseiros, peões. Sair de São Félix nunca se configurou como uma opção. Entendia que sua saída seria uma covardia com todos aqueles que não teriam essa opção e que continuariam a morrer pelas balas do latifúndio. Nas suas próprias palavras, Cristo não havia fugido, caminhou até a cruz.

Pedro se tornou uma estatística da exceção. No país que mais mata sem-terras, defensores de direitos humanos e ambientalistas, Pedro concluiu sua jornada seguindo o curso natural da vida. Aos 92 anos, abatido pelas doenças que o tempo impõe aos organismos mortais, com o corpo debilitado, Pedro não se curvou a não ser diante daqueles a quem devotou sua fé: Cristo e o povo pobre do sertão. Manteve a espinha ereta, a cabeça em riste diante do Papa, da UDR, do agronegócio, da morte.

Seu corpo, carregado pelos índios Xavantes, seguiu para a parte que lhe coube neste imenso latifúndio, debaixo de sete palmos medidos de terra, sob uma cruz de pau, como havia desejado. Encerra sua jornada plantando-se como semente no chão em que cultivou o amor, a fraternidade e a esperança. Que sua luta brote, floresça e nos traga os frutos desta guerra contra o domínio do capital sobre a terra e sobre as vidas para, enfim, caminharmos sobre a tão sonhada terra sem males.


“Quanto mais difíceis são os tempos, mais forte deve ser a esperança” (Dom Pedro Casaldáliga).


Ricardo Normanha é sociólogo e professor do Instituto Federal de Educação de São Paulo.

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