Para uma prática anticolonial, o pensamento radical

Pintura "Batalha de São Domingos de January Suchodolski.

A sociedade moderna (capitalista) produziu, dentre inúmeras coisas, uma forma de sociabilidade altamente violenta. Mais do que um simples fator da sua existência, a violência é uma das razões de ser dessa sociedade. O liberalismo, no qual repousam os valores e pressupostos da sociedade capitalista, tem em sua própria razão de ser a morte. O liberalismo é a negação da vida para todos que não são caracterizados enquanto o ser universal criado pela modernidade. Esse ser universal é o homem branco, prioritariamente europeu, heterossexual, rico e detentor de propriedade. Aqueles que destoam da universalidade branca e burguesa, são, necessariamente, antagônicos ao ideal de humanidade, relegados a uma associação inquisitiva à natureza, portanto, passíveis de dominação. Se tornam posses a serem adquiridas pelo homem moderno, burguês e detentor da razão dominadora. Essa relação de negação da humanidade do outro, encontra a sua máxima potencialidade na forma como é tratado o escravo preto. As colônias foram espaços de expressão máxima da soberania do poder do Estado (entre supremo que expressa a razão ocidental, portanto, do ideal moderno de humanidade) em relação à vida. Nas colônias, o liberalismo encontra o seu local sagrado para o exercício de si, da sua razão última que é a dominação violenta para a exploração incessável. Neste sentido, com a consolidação final da sociedade burguesa como forma hegemônica do sistema-mundo com a Revolução Industrial no Século XIX, Losurdo argumenta que os liberais passaram a tentar justificar determinada ausência de humanidade nos trabalhadores de maneira geral, não só nos escravos, para acirrar o processo de exploração industrial. Vemos então, a universalização da negação da humanidade para quem trabalha, a universalização da lógica colonial de dominação.


Em Hegel, Achille Mbembe percebe que a racionalidade no pensamento moderno reconhece a morte como fator, não só natural, mas normal a sua existência, portanto, sendo o Estado a expressão máxima da civilização moderna, da racionalidade, nele a morte mais do que residir como um fator completamente normalizado, é um critério para a sua própria existência, ou seja, a morte é um critério da prática política. O poder sobre a vida das pessoas, o poder de deixar viver e deixar morrer é uma forma fundamental da política, o exercício máximo do seu papel. A violência, em fator da forma da modernidade, é um fator comum de mediação, progresso, revolução, contrarrevolução e manutenção da ordem. A modernidade é uma celebração a violência como um elemento tão fundamental para o desenvolvimento da história, quanto a luta de classes. No caso específico da modernidade, a própria sociedade de classes só é possível com a presença da violência como fator da sua existência e desenvolvimento, a coesão, quando falha em negociar os termos da rendição do povo, em executar a guerra sem violência que é a política, dá lugar a sua irmã de contornos sombrios, a coerção que executa a política com violência, a guerra. A violência está, portanto, no centro da vida moderna. Está na ordem, assim como está nas rupturas. Isso coloca uma condição para a luta política revolucionária: não pode haver vacilo, a violência enquanto arma necessária do processo, não pode, jamais, ser celebrada.


Recalque e negação de si: o chauvinismo contra a História


No texto sobre a falsa polêmica de Fanon ser ou não marxistas, Deivison Nkosi, alerta para a necessidade dos marxistas não negligenciarem debates fundamentais em Fanon, como o debate sobre identidade em Pele Negra, Máscaras Brancas em detrimento da violência revolucionária dos Condenados da terra. A violência revolucionária, enquanto parte do processo de libertação nacional na luta anticolonial e socialista, só pode ser efetivada através da totalidade da construção da práxis, ou corre o risco de ser apenas um processo de democratização do poder sobre a morte na política moderna. Se houver um processo de negligência do pensamento radical que constrói a prática política que encontra a violência como ferramenta necessária no momento certo, estamos incidindo em um chauvinismo baixo e uma celebração vazia da virilidade. O processo de libertação nacional estaria sujeito a ser um ponto de descarrego do sofrimento recalcado, da neurose da modernidade. Este chauvinismo, incapaz de pensar a totalidade da construção revolucionária e incapaz de fazer a crítica necessária a violência para a sua não celebração, corre o risco de converter o processo de emancipação na revolta ressentida pela virilidade roubada, pela castração simbólica do colonizado. Para tanto, é tão importante também romper com o elogio fetichizado para com figuras políticas do passado que efetivaram processos revolucionários e que tiveram momentos de violência e terror, essa busca pelo homem viril, portador de uma enorme AK ou qualquer fuzil, é objeto do ideal da virilidade de si contra o colonizador, é a imposição violência através do culto masculinizado a virilidade, o que torna incapaz uma análise histórica de tais processos e a elucidação da real legitimidade da violência revolucionária.


O processo de negação da dominação violenta do poder colonial, precisa passar por um rompimento com a negação de si. Não só Fanon, como Virgínia Bicudo, constataram que a sociedade racializada leva o grupo que não é branco a negar a si mesmo. Na dialética senhor – escravo, no caso do escravo colonial e após isso o negro sujeito ao racismo na sociedade “livre”, para impor a sua humanidade ao outro, para entrar no processo de luta tornar-se humano, para ser reconhecido enquanto tal, o negro precisa primeiro superar a negação de si, pois na dialética de dominação racial, o negro é alienado quanto ao objeto da sua opressão e o seu movimento está em direção de tentar tornar a si mesmo, o senhor. Para construir então, um processo emancipatório anticolonial, se faz necessário superar a negação de si em primeiro ponto, ou seja, superar a alienação colonial. Em termos mais gerais, pensar um processo de libertação nacional, passa pela superação da alienação do negro, ou seja, da democracia racial, arma mitigadora das contradições nacionais no Brasil e instrumento da exploração imperialista, o que deve levar a um processo de superação da alienação nacional. Esta alienação caracteriza a negação de si na identidade brasileira, primeiro pela democracia racial que é um instrumento de cooptação do foco no objeto da opressão e que minimiza a capacidade de apreensão da realidade material, segundo pelo lugar de país periférico do capitalismo tardio, desenvolvido sob relações sociais arcaicas que, para a manutenção da condição de colônia, que impõe um ethos civilizatório inferiorizado e torna a própria identidade nacional como uma condição colonial. Com isto, temos a negação de si a nível nacional uma alienação nacional. Essa negação de si, contribui para a propagação de certo positivismo revolucionário, que tenta universalizar estratégias de emancipação sem historicizar a realidade material específica, nem mesmo a própria estratégia. Portanto, a negação de si, transfere o ideal do eu para determinado fetiche do que é o revolucionário e a revolução ideal, negligenciando o pensamento radical nacional e impossibilitando a mediação para que realmente modelos históricos agreguem aos desafios da nossa realidade e do nosso tempo. A negação recalcada, torna a ação na importação cega de modelos sem as devidas mediações com a realidade objetiva.


Contra o pensamento branco, o pensamento anticolonial


Diferente da vulgarização de que o pensamento branco (colonizador) seria qualquer coisa produzida por pessoas brancas, dentro ou fora da Europa, Clóvis Moura chama a um debate fundamental sobre a construção de um pensamento radical e insubmisso. O branco enquanto categoria sociológica e histórica é o ser universal da modernidade capitalista, a imposição do ideário humano europeu. Essa imposição, por sua vez, encontra a sua razão de ser no processo de exploração, pois é para a expansão do capitalismo que é a colonização ocorre, e as diferentes formas e tecnologias de comunicação que dela derivam, são parte da consolidação do processo de dominação e esta ocorre para as condições ideais de superexploração da mão de obra colonizada. Desta forma, o branco como categoria não é somente esse ser universal, mas para ser, ele também é o agente que impõe a ordem vigente. Portanto, o pensamento branco é, necessariamente, o pensamento da ordem, o pensamento dirigente da sociedade da propriedade privada dos meios de produção, o pensamento da expansão colonial, o pensamento da razão dominadora moderna, da opressão para quem não é exatamente como ele, da escravidão, do imperialismo, do genocídio... O pensamento branco é o pensamento burguês da sociedade moderna, a sua antítese é, portanto, o pensamento negro, pela sua própria natureza, o pensamento anticolonial.


O pensamento negro que defendemos aqui, é a práxis revolucionária, o pensamento radical insubordinado, a negação da ordem burguesa e do imperialismo, a imposição da humanidade dos condenados das mais diversas terras oprimidas. O pensamento negro é aquele que desnuda a realidade e expõe as suas contradições, aquele que, na construção teórica e prática política, busca destruir a falsa democracia racial e fazer frente ao imperialismo e a colonização de mentes e corações. O pensamento negro que Clóvis Moura reivindicou! Um pensamento anticolonial, que destrói a imposição de inferiorização e negação de si, que afirma a humanidade dos oprimidos e explorados através da negação radical da sociabilidade capitalista, que na dialética da história, ao se negar do pensamento branco, a síntese é a sociedade desracializada, da democracia proletária, que tem o seu referencial civilizatório não na universalidade branca moderna, mas na República de Palmares e em todas as experiência revolucionárias de emancipação.


O pensamento negro é o pensamento radical a ser constituído para a construção revolucionária, um pensamento que, genuinamente, advém das sínteses geradas entre o rigor teórico do que há de mais profundo na realidade objetiva brasileira, que reivindica o pensamento radical na história das nossas lutas, que saiba agregar os conhecimentos e saberes das experiências revolucionárias mundo afora e negue radicalmente toda forma de opressão, através das armas da crítica e da crítica das armas de modo a, em hipótese alguma, nunca renunciar nem retroceder a liberdade.


Vinicius Souza é historiador, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF UNIFESP, podcaster (20 de novembro) e colunista da Clio Operária.


Referências

BICUDO, Virginia. Leone. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. [Marcos Chor Maio org.]. São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010.

FANON, Frantz. Pele negra, mascaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. FANON, Frantz. Os condenados da terra. [tradução de Serafim Ferreira] Lisboa: Editora Ulisseia.

FFAUSTINO, Deivison Mendes. FANON ERA MARXISTA? Contribuições à um debate que nem deveria existir. Disponível em: <https://deivisonnkosi.kilombagem.net.br/artigos/frantz-fanon/fanon-era-marxista-contribuicoes-a-um-debate-que-nem-deveria-existir/ >. Acesso em 12 de out. 2020.

FAUSTINO, Deivison. Mendes. Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro. 1o ed. São Paulo: Ciclo Editorial Continuo, 2018.

FERNANDES, Florestan. O significado do protesto negro. São Paulo: Expressão Popular coedição Editora da Fundação Perseu Abramo, 2017.

GONZALEZ, L. Para compreender a “Améfrica” e o “pretuguês”. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/gonzalez/1980/10/31.htm>. Acesso em 12 de out. 2020.

LOSURDO, Domenico. Marx, a tradição liberal e a construção histórica do ceonceito de homem universal. Disponível em: <http://www4.pucsp.br/neils/downloads/v13_14_losurdo.pdf>. Acesso em: 18 de nov. 2020.

MATOS, Olgária.. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993.

MBEMBE, Achillie. Necropolítica. Diponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169>. Acesso em: 12 de out. 2020.

MOURA, Clóvis. Dialética Radical do Brasil Negro. 2. ed. São Paulo: Fundação Maurício Grabois co-edição com Anita Garibaldi, 2014..

MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. Editora Ática: São Paulo, 1988.


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