Pantera Negra e os usos políticos da memória


É possível afirmar que, de certa forma, o presente é governado pelo passado. É no passado, na memória social, onde encontramos as legitimações necessárias das formas contemporâneas da sociedade. No projeto eurocêntrico de sistema-mundo, concretizado pela necessidade de expansão do capitalismo, no Brasil, a nossa memória social está condicionada ao que se convencionou chamar de antiguidade clássica para se referir às civilizações greco-romanas.


Fugindo um pouco da crítica ao conceito de antiguidade clássica, que responde a uma determinação fictícia de que foram essas civilizações puramente europeias, quando, na verdade são fruto do mediterrâneo, europeias somente na localização, mas longe de o serem culturalmente[1], queremos aqui pensar os lugares da memória para as formas políticas contemporâneas.


Na HQ da Marvel que narra a história do herói africano Pantera Negra, eternizado no cinema pelo genial Chadwick Boseman, a memória tem um local central, mais especificamente em Pantera Negra: uma nação sob nossos pés (livro três)[2]. Nesta edição, as Dora Milaje, famosas por serem as guardas do rei, se unem com outras forças para iniciar uma revolução pela tomada do poder, buscando dar fim à monarquia e a construção de uma Wakanda livre e justa.


O país africano futurista está devastado, mal se recuperou das batalhas com Thanos e encontra-se em uma grande revolta. A revolução se torna, logo, uma guerra civil. As forças revolucionárias encontram-se no desafio de como construir, em plena guerra, um mundo justo e livre da tirania. Os revolucionários seguem as ideias do filósofo Changamire, um dos grandes opositores da coroa e seu despotismo histórico.


Por outro lado, os governistas, ao lado de T’Challa e Shuri, ao mesmo tempo que querem preservar as narrativas tradicionais sobre Wakanda, estão tendendo a se abrir aos novos desafios que lhes fazem frente. A filosofia de Changamire, se opõe profundamente aos preceitos tradicionais de Wakanda, pois são, por eles, o caminho da legitimação da política, economia e cultura da sociedade wakandense. É a interpretação da história do país, através da filosofia tradicional que legitima a monarquia e tudo o que for necessário para a sua continuidade.


A filosofia de Changamire não faz outra coisa senão interpretar a história de Wakanda de uma forma antagônica, uma verdadeira antítese ao tradicionalismo, ao mito original que explica o país e a sua realidade material. Logo, além da luta das armas, a revolução se torna uma guerra pela narrativa, pela interpretação da história de Wakanda. Um conflito direto entre duas filosofias da história. Tanto governantes, quanto revolucionários, disputam a memória do país para legitimar as suas concepções e ações políticas.


O historiador senegalês Boubacar Barry[3], ao analisar o papel da tradição oral na cultura africana,aponta a forma como os Griôs, os guardiões da memória nas civilizações da África, através da preservação e difusão da memória, ajudam a impor e reafirmar a ordem política vigente. A memória aparece então, como uma das formas de não só legitimar um projeto de mundo, como realizar a manutenção da ordem, do establishment. Assim como em Wakanda, aliás, toda a disputa pelo espírito da nação, a disputa pelas consciências das pessoas, acontece a partir da disputa pela memória.


Como nas sociedades orais estudadas por Boubacar, a preservação da memória e os seus sentidos políticos que são dados, eram imperativos para reafirmar ou transformar a sociedade. Boubacar mostra como que com a invasão árabe, a memória virou palco de disputa também para legitimar a nova estrutura social. E com base na tradição, os governantes eram definidos de acordo com o aspecto da memória que escolhiam preservar como central, o que definia, por exemplo, o nível de tirania.


O historiador Glaydson José da Silva[4] ao analisar o uso do culto della romanità, aponta como, na Itália fascista, Mussolini buscou a memória social a respeito da Roma Antiga, para legitimar a construção nacional do fascismo. Ou seja, o uso político da história e memória, em movimento com a memória social do povo italiano, foi fundamental para a legitimação da ideologia fascista com as massas.


A busca por um passado glorioso para justificar a superioridade sufocada no passado e a necessidade de criar uma ofensiva contra os inimigos dessa superioridade só foi possível com o uso político da memória a respeito da antiguidade. São aspectos do passado explicando a política na atualidade. Sem o culto a esse passado glorioso, Mussolini também não teria pautado a supremacia racializada.


Contudo, fica explícito que é possível utilizar a memória como instrumento da razão política, tanto em um sentido revolucionário, quanto reacionário e fascista. É por isso que a memória é um palco de disputa.


No final da guerra revolucionária em Wakanda, as Dora Milaje e o trono entram em um acordo, uma espécie de pacto pelo país, pela nação. O Pantera Negra, assume que não quer reproduzir a tirania do passado e chega a conclusão de que o rei deve permanecer enquanto símbolo, mas o povo deve poder escolher os seus governantes. Em uma sala de reunião, após a conclusão de tudo, levanta-se o questionamento: E agora? Qual será o nosso mito?


A história é um espaço de disputa, a memória é fundamental tanto para perpetuar quanto para transformar radicalmente a sociedade. Os usos e sentidos da memória estão no balcão dessa disputa. A luta que se delimita é pelo uso desse instrumento político para mudar o mundo, em prol do fim das injustiças, exploração e opressão. É de suma importância combater o uso reacionário da memória e entender que o tempo histórico transcende o que é secular. Temos uma escolha a fazer: Qual será o nosso mito?


Vinicius Souza é historiador e professor de História, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF-UNIFESP) e colunista da Clio Operária.

[1] GUARINELLO, N. L. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013.


[2] COATES, Ta-Nehisi. Pantera Negra: uma nação sob nossos pés: livro 3. Barueri: Panini Comics, 2017.


[3] BOUBACAR, Barry. Senegâmbia: O Desafío da História Regional. RJ/Amsterdam. SEPHIS, 2000.


[4] SILVA, G. J., "Historicidade, memória e escrita da História: Augusto e o culto della romanità durante o ventennio fascista", in Romanitas, n. 12, 2018.


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