• Clio Operária

Pandemia, cemitérios e aves multicolores


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Willians Meneses*


A pandemia provocada pelo COVID 19 que se alastra pelo Brasil, desde meados do mês de janeiro de 2020, expôs ao mundo as vísceras de uma terra em transe. Sob a presidência de um agitador neofascista, com amparo de significativa base social da população civil e militar, vemos incrédulos a um avassalador processo de contaminação em massa. O Brasil não pode parar! dizem os guias da aventura mórbida.

Em tempos de crise, os antecedentes coloniais do desenvolvimento desigual e combinado do país se expressam também na desigualdade combinada do tratamento sanitário dedicado às classes que compõem a nossa sociedade. A recomendação de muitos é o isolamento vertical. Um artifício nativo para “viralizar” nas “lives” de empresários insensíveis.

E como classe não é palavra sem substância, sem história, sem cor, sem gênero, sem origem étnico-racial, o sacrifício prioritário é o da massa populacional pauperizada e racializada, na homenagem sempre renovada aos alicerces escravocratas do laboratório genocida de nossa formação social.

Morrer de trabalhar ou por um vírus parece nos ser indiferente. Pois já sofremos há muito tempo uma morte mais profunda e desoladora: a da esperança. A paciente mais célebre de nossas UTIs.

A mesma moribunda esperança que, quando ainda viva, perece na impotência, sem seiva e sem ânimo, em um imenso cemitério de expectativas políticas frustradas. Mercadoria cobiçada por pastores venais e comerciantes de indulgências de toda espécie.

Um estado de coma que faz perecer o sentimento de pertença ao humano genérico. Algo que conduz mesmo à negação da humanidade, em um circuito interativo de insumos inanimados que esgotam o sentido do que deve ser uma sociedade. Cordeiros de imolação servidos no altar da entidade econômica, com lustrosas bandeiras verde amarelas entufadas nos focinhos.

Nossa sorte é termos o samba, o funk e o futebol, mas estes também estão em quarentena.

No velório da referida espera sem viço, uma guerra de desinformação orquestrada para indução de um suicídio consentido em inimaginável escala. Em disputa, a adesão voluntária ao comboio da morte.

Com os corpos cansados e o discernimento mental exaurido, assistimos aos golpes à possível verdade dos fatos no coliseu das ficções narrativas, onde quem persuadir com mais agressividade, apelações e irreverência, aumenta o séquito. Escolha a sua arara parlante e se pendure no poleiro da que tiver a cor de sua preferência.

A propósito das araras, nossa fauna sempre foi diversificada, contendo pássaros de cores variadas, mas, ultimamente as vermelhas estão em extinção e tomadas pela melancolia, e as verde amarelas andaram se reproduzindo mais acentuadamente, um verdadeiro fenômeno para o qual as repostas são ainda inconclusas.

Não podemos esquecer de uma outra espécie importante: os pardais. Há quem os chame de ratos voadores ou aves do centrão. Esta espécie de pássaro oportunista habita majoritariamente as grandes cidades e voa em grande quantidade, sempre em busca da melhor ocasião para fazer seus ninhos nas brechas das construções e do trabalho alheio.

Aliás, o trabalho não cessa. Hospitais colapsam. As covas se avolumam. Os tecnocratas se apressam em seus cálculos, quantas mortes, quando, onde, quem, em quanto tempo, depois de se colocarem a salvo é claro, afinal, mortos não poderiam operar as suas calculadoras.

Até aqui tudo vai bem, são só quinhentos, não, mil, mil e quinhentos, dois mil, ah não importa, enquanto não estivermos entre os cadáveres, os bancos não quebrarem e os cárceres não fecharem, ainda há moradia para o otimismo.

Sobre os nossos cárceres abarrotados e sub-humanos, não há crise, há oportunidade. No mundo dominado pelo mercado fetichizado, temos que zelar pelo seu bom humor, a notícia de que ele possa ficar nervoso ou aborrecido gela a espinha, mais do que o temor de como a pandemia pode afetar os condenados de sempre, estejam soltos ou aprisionados.

É sabido que o tempo do capital, não é o mesmo tempo da vida. O tempo da vida é a sua matéria prima. A interrupção abrupta desta temporalidade artificial que rege o metabolismo destrutivo do capitalismo tem sido uma pausa para olhar a vida e, para alguns, se lembrar com nostalgia dos momentos mais simples de recreação com pessoas que amamos e que, não raro, evitávamos pela exaustão do trabalho.

Para outros, tem sido a dor do desemprego e a angústia de incertezas ainda maiores do que as habituais quanto ao futuro. Quando não o fantasma da fome batendo à porta, ainda mais assombroso, porque em meio à abundância da vida faustuosa de uns poucos, ostentada a cada segundo no aquário de fantasias e farsas das redes sociais.

Manter a vida longe do vírus não basta. Quem poderá continuar a se alimentar, vestir e morar, na quarentena ou no desemprego?

Sobreviver para trabalhar ou trabalhar para sobreviver é o espírito da tautologia que naturalizamos, agora perturbada pela pandemia. Seja lá qual for o nosso futuro, a reposta não pode mais se esgotar na camisa de força deste raciocínio. Sua validade se tornou insuportável.

As araras vermelhas terão que sair de seu banzo e, com seus bicos, quebrar as sementes do choque, fertilizar o solo e, assim, fazer brotar o porvir. Ou serão dissolvidas na sopa intragável de coloração de hepatite abacatada que ora domina a paisagem política nacional.

O cromaqui do capital sobre o qual se projetava a imagem entusiástica do progresso, da civilização cosmopolita, urbana e industrial foi removido. Há vagas para os agricultores da realidade futura e, nesta, são permitidas aglomerações.


Willians Meneses é bacharel em Direito pela PUC/SP, editor e Educador Popular e membro do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/SP.


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