• Clio Operária

Operação Barbarossa, 79 anos: O início do fim do Terceiro Reich

Atualizado: 27 de Jun de 2020

No último dia 22 de junho, completou 79 anos da invasão da URSS pelas tropas de Hitler. Essa data vem com a reflexão sobre o papel da memória histórica em um momento no qual a União Europeia e a Rússia estão travando uma batalha por ela.

Avanço alemão no centro industrial de Rostov, novembro de 1941. Fonte: https://rarehistoricalphotos.com/operation-barbarossa-in-rare-pictures-1941/

Lucas Modaneze*


Introdução

Quando falamos sobre Segunda Guerra Mundial não é difícil para um olhar mais atento compreender a escala dessa tragédia e como esse evento influenciou diretamente não só toda a estrutura geopolítica da segunda metade do século XX, mas deixou até o momento que vos escrevo cicatrizes permanentes. Não tão fácil de se notar são algumas características internas desse processo que moldaram o curso das ações e determinaram diretamente no seu resultado, e que ainda hoje suscitam calorosas discussões e controvérsias. Sim nós sabemos que a Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito da história humana, foi também, além da guerra total, uma guerra global, ​muito mais do que havia sido em 1914. A escala do morticínio praticado incessantemente durante aqueles 6 anos (ou 8, considerado que a guerra chegou mais cedo na Ásia) vai muito além de nossa imaginação. Ela opôs, mas também uniu antagonistas históricos, exacerbou antigos ódios e também criou novos. Mas, em sua estrutura, a Segunda Guerra Mundial foi acima de um o embate entre ideologias, levadas ao extremo mortal entre os dois totalitarismos** do século XX. Nenhuma frente de combate daquele confronto foi tão decisiva e determinou de maneira direta os rumos dos eventos quanto a “guerra de aniquilação” travada entre o Terceiro Reich e a União Soviética a partir de 22 de junho de 1941. Sendo assim, é mais do que válido relembrar os 79 anos de um dos momentos mais decisivos do século XX

Denominada de “Operação Barbarossa”, a invasão da União Soviética por forças do Eixo foi a maior campanha militar de todos os tempos. Mais de 3,5 milhões de soldados alemães, romenos húngaros, dentre outras nacionalidades, apoiados por 3.600 tanques, 600 mil veículos motorizados e um número equivalente de cavalos avançaram por uma ampla frente de quase 1.500 quilômetros, enfrentando outros 3 milhões de soldados soviéticos com um número de equipamentos vastamente superior, ainda que em sua maioria, inadequado. Nunca antes tantos homens e mulheres estiveram mobilizados numa área tão ampla. A escala material da invasão vai além do que podemos compreender. Mais do que números, o ataque nazista inaugurou uma nova fase na brutalidade da guerra. Não se tratava somente de conquistar um território e vencer um Estado inimigo, se tratava de aniquilar uma ideologia e não haviam limites morais, éticos ou mesmo judiciais para atingir esse objetivo, resultando invariavelmente no genocídio. Era também a realização do maior objetivo de Adolf Hitler e do projeto de poder nazista, defendida ferozmente desde os primórdios do Partido em princípios da dos anos 1920: a conquista do lebensraum, o “espaço vital” no Leste.

Rumo ao abismo

Tema controverso que suscita diversos debates e muitas vezes apontado como o “erro fatal de Hitler”, a intenção de atacar a União Soviética não era nova, pelo contrário. A expansão alemã e a “germanização” do leste era um tema central da retórica nazista desde sua gênese, sendo conquista do “espaço vital’ considerada essencial para o desenvolvimento e sobrevivência do Reich alemão. Além disso, a incompatibilidade ideológica entre os regimes era tida como inconciliável. Não havia espaço para que o bolchevismo e o nacional-socialismo, pudessem coexistir num mesmo mundo. Para os nazistas, o “bolchevismo judaico” era a raiz de todos os males causados a não somente a Alemanha, mas a Europa Ocidental como um todo e deveria ser erradicado, bem como a causa da “degradação da sociedade” (daí a surpresa, para não dizer o choque, por ocasião do anúncio do Pacto Molotov-Ribbentrop em agosto de 1939, no complexo xadrez geopolítico europeu pré-guerra). Conforme registrado por Adolf Hitler em seu manifesto, Minha Luta​ ​:

“Não devemos esquecer que o judeu internacional, que continua a dominar na Rússia, não olha a Alemanha como um aliado, mas como um Estado destinado à mesma sorte. (...) Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo” (p.488-489)

A seguir, conclui:

“A Alemanha é hoje o próximo grande objetivo do bolchevismo. É necessária toda a força de uma ideia nova, com o caráter de uma emissão, para mais uma vez fazer ressurgir o nosso povo, livrá-lo da fascinação dessa serpente internacional (...) de maneira que as forças da nação, assim libertada, possam ser empregadas para preservar nossa raça, evitando a repetição das últimas catástrofes” (p.489)

Fica claro o caráter belicoso do nacional-socialismo diante do bolchevismo - e o Estado que o representava, a União Soviética - sendo um conflito futuro dificilmente evitado. Logo, além da superficialidade e do o oportunismo cínico, nunca houve um interesse real em uma aliança com Stalin mesmo após o início das hostilidades, apesar de tal ideia circular nos meios diplomáticos de ambas as nações e ser rechaçada por Berlim em 1940. Mas, para além das considerações ideológicas e em desacordo com a popular ideia de um “erro estratégico”, haviam razões práticas que levaram a Alemanha e a União Soviética à guerra, em 1941. Para refletirmos sobre tais considerações, é necessária uma breve análise do desenrolar da guerra, até então. No início de 1941, a Alemanha controlava virtualmente toda a Europa central e ocidental, tinha a Escandinávia a sua disposição e vinha estendendo sua influência aos Bálcãs. A França, derrotada em pouco mais de um mês, havia capitulado em junho do ano anterior, numa vitória espetacular da Wehrmacht, as forças armadas alemãs.

A queda da França, da maneira como ocorreu, serviu para fortalecer o prestígio e o poder de Hitler diante do Alto Comando - que até então ainda tinha algumas poucas vozes dissonantes, mas sem influência real na tomada de decisões - e também isolou a Inglaterra. A saída mais óbvia para Londres seria negociar. A soma das retumbantes vitórias alemãs entre 1939-40 e a queda do principal aliado, elevou as esperanças das autoridades nazistas em efetivar um acordo com os britânicos, que sabiam serem incapazes de retomar a luta no continente. De fato, setores da elite britânica acenavam nessa direção, porém a ascensão de Churchill como primeiro ministro em maio de 1940 eliminou completamente essa possibilidade. Seguiu-se a Batalha da Inglaterra, a maior batalha aérea de todos os tempos, onde a Luftwaffe (Força Aérea Alemã), tentou em vão obter a superioridade aérea sob o Canal da Mancha para, em teoria, viabilizar a invasão as Ilhas Britânicas. A verdade, porém, é que tanto Hitler, quanto o Alto Comando da Wehrmacht (OKW) não levavam a sério a ideia de invasão, considerando que as possibilidades de sucesso eram mínimas, e os desafios logísticos, imensos. A aposta de Hitler com relação a Inglaterra, como fora desde 1939, era forçar um armistício que nunca aconteceu. O próximo passo, o ataque a União Soviética, parece ser impensável nessas circunstâncias, uma vez que obrigaria a Alemanha a lutar em duas frentes - o que seus dirigentes vinham tentando evitar a todo custo. Por isso, é comum apontar a decisão de invadir a União Soviética sem obter uma vitória contra a Grã-Bretanha como uma das principais causas do fracasso do Terceiro Reich. Segundo Hobsbawn:

“A guerra foi revivida pela invasão da URSS por Hitler em 22 de junho de 1941, data decisiva da Segunda Guerra Mundial; uma invasão tão insensata - pois compromete a Alemanha numa guerra de duas frentes - que Stalin simplesmente não acreditava que Hitler pudesse contemplá-la” (p.47)

Essa perspectiva é comum, tanto para o público geral quanto no âmbito historiográfico. Mas não explica por si só os eventos que se seguiram. Afinal, a luta em duas frentes contribuiu para a derrota nazista? Sem dúvidas. Era, então, uma decisão insensata motivada pelo extremismo ideológico do Terceiro Reich? Não somente, conforme aponta Mazower:

“Quando decidiu rasgar o Pacto Molotov-Ribbentrop, Hitler o fez inicialmente por razões estratégicas. Achava que bater a União Soviética eliminaria o único aliado potencial significativo de Londres no continente europeu e obrigaria os britânicos a buscar um acordo” (p.183)

Logo, é com a inflexível recusa britânica em ceder que a importância da eliminação da União Soviética enquanto uma potência militar se soma ao ódio ideológico ao bolchevismo e aos interesses expansionistas e econômicos do “espaço vital”. Hitler acreditava que a Grã-Bretanha se mantinha na guerra na esperança de obter apoio externo. Os Estados

Unidos, o seu aliado mais óbvio, estava imerso no isolacionismo adotado em relação à Europa desde a década de 1920 e apesar de Roosevelt sinalizar desde cedo sua intenção de apoiar Churchill e agir com uma falsa “neutralidade”, (levando ao rompimento com o Eixo e iniciando o fornecimento de materiais e armas à Grã Bretanha, meses antes de entrar oficialmente na guerra), a opinião pública norte-americana se opunha abertamente a uma intervenção - o que somente mudaria com o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Restava, dessa forma, a União Soviética: a última potência militar na Europa. A decisão de abrir uma nova frente, era, portanto, também uma das consequências do impasse no Ocidente - e a tentativa de quebrá-lo.

Guerra de Aniquilação

O ataque que se iniciou em 22 de junho de 1941 visava obter, assim como na Polônia e na França, uma rápida vitória sobre o Exército Vermelho. Considerando as suas limitações, um golpe relâmpago era a única chance da Alemanha lograr sucesso, antes que os recursos soviéticos pudessem ser devidamente mobilizados. Alguns poucos membros do OKW reconheciam a vantagem soviética nesse aspecto, mas a cúpula nazista ignorava tais riscos cegos em sua própria arrogância.

Inicialmente, tudo parecia seguir como o previsto; as forças alemãs avançaram de maneira avassaladora nas semanas iniciais enquanto o sistema defensivo entrava em colapso. O péssimo desempenho das forças soviéticas era resultado de um conjunto de fatores - dentre elas a má distribuição geográfica de suas forças em áreas expostas, a incompetência da cadeia de comando, o ceticismo de Stalin a respeito da invasão e suas desastrosas intervenções em assuntos militares. Não à toa, ao longo da guerra diversos comandantes afastados durante os expurgos de 1938 foram restituídos e Stalin passou a dar-lhes mais liberdade de ação nos anos seguintes, sendo “os anos de 1942-45 a única vez em que Stalin fez uma pausa em seu terror”, segundo Eric Hobsbawn.

Entretanto, a superioridade numérica e material do Exército Vermelho apenas serviu para aumentar o butim dos invasores, que fizeram milhões de prisioneiros nos primeiros meses de guerra. Essa situação parecia comprovar a crença que o Exército Vermelho era uma força ineficiente (a maneira desastrosa que essa força lutou contra a Finlândia, invadida pela União Soviética em novembro de 1939, deu a seus críticos um de seus principais argumentos nesse sentido), além de reforçar as apostas, não somente alemãs, que a União Soviética em breve entraria em colapso. O historiador Ian Kershaw assim descreve as perdas soviéticas:

“No fim de junho, os cercos de Bialystok e Minsk já haviam produzido a espantosa cifra de 324 mil prisioneiros do Exército Vermelho, 3.300 tanques e 1.800 peças de artilharia capturados ou destruídos. Pouco mais de duas semanas depois, a batalha de Smolensk dobrou esses números” (p.661)

E Martin Gilbert pontua:

“Em 27 de junho, duas forças Panzer, reunindo-se a leste de Minsk, encurralaram e atacaram trezentos mil soldados russos, sendo cinquenta mil na própria cidade de Minsk. Na batalha, morreram dezenas de milhares de homens. Quase todos os outros foram feitos prisioneiros, cujo destino seria horrendo: espancados, famintos, privados de assistência médica, sem abrigos dignos e fuzilados nas intermináveis marchas forçadas, poucos ainda estavam vivos um ano depois. O destino desses 250 mil russos, privados de direitos básicos de todos os prisioneiros de guerra, se estenderia aos vários outros milhões capturados nos dois anos seguintes.” (p.260)

Coluna de prisioneiros de guerra soviéticos após o rápido avanço alemão, setembro de 1941. A maioria morreria em cativeiro. Fonte: https://rarehistoricalphotos.com/operation-barbarossa-in-rare-pictures-1941/

Tais perdas, no ritmo em que foram infligidas, pareciam irreparáveis, e apesar da resistência do Exército Vermelho ter se tornado mais tenaz nas semanas seguintes depois do choque inicial, o avanço alemão era inexorável. Suas forças estavam divididas em três grandes grupos - Norte, cujo alvo era Leningrado; Centro, visando Moscou; e Sul, cujo objetivo era Kiev e as prósperas terras ucranianas. Em meados de setembro, Kiev havia caído e Leningrado, cercada. O número de soldados capturados atingiu a marca de 3 milhões no mesmo período, e a crença generalizada era que em breve não haveriam mais reservas. Porém, essas perdas não haviam incapacitado o Exército Vermelho, segundo Kershaw:

“Os sucessos militares do verão haviam sido notáveis. Mas o objetivo central da “Barbarossa” - um nocaute rápido - não fora alcançado. Apesar das imensas perdas, as forças soviéticas estavam longe de ter sido completamente destruídas. Elas continuavam a ser repostas com uma reserva aparentemente inesgotável de homens e recursos, e a lutar com unhas e dentes. Por sua vez, as perdas alemãs não eram insignificantes” (p.680)

Sejam quais fossem as razões estratégicas, logo o extremismo ideológico se tornou predominante no campo de batalha. Não se tratava de uma campanha como fora com a Polônia ou a França. Se tratava de erradicar uma ideologia, e de exterminar um povo. Essa ideia foi adotada amplamente pela Wehrmacht, que com o apoio dos Einsatzgruppen(“​Forças-Tarefa”, subordinadas a SS) sob a égide da luta contra os partisans (​movimentos de resistência atuando majoritariamente na retaguarda), iniciou-se o genocídio sistematizado de civis naquela frente. Essa extrema violência serviu para alimentar o espírito de resistência junto à população soviética, quando ficou claro que o objetivo das hordas nazistas ia muito além da conquista territorial. Se durante a fase inicial da invasão, em determinadas regiões, os alemães foram acolhidos pela população local como “libertadores” (notadamente nos países Bálticos e na Polônia recém anexadas pela URSS, bem como na Ucrânia), logo essa ilusão se dissipou. Em última análise, o insaciável desejo nazista de promover limpeza étnica no leste para garantir a “germanização” futura, foi um dos fatores que contribuíram para sua derrota.

O mito do “General Inverno” e a Batalha de Moscou

A derrota alemã na Batalha de Moscou, travada no final de 1941 marcou o fracasso da Operação Barbarossa. O objetivo de vencer a União Soviética em uma campanha rápida havia falhado, e a partir daquele momento a Alemanha seria forçada a lutar uma longa guerra de atrito que, em última análise, não poderia vencer, conforme aponta Hobsbawn:

“A Alemanha (e também o Japão) precisava de uma guerra ofensiva rápida pelos mesmos motivos que a tinham feito necessária em 1914. Os recursos conjuntos dos inimigos potenciais de cada um deles, uma vez unidos e coordenados, eram esmagadoramente maiores que os seus. Nenhum dos dois sequer fez planos para uma guerra extensa (...)” (p.45)

Muito se fala a respeito desse episódio, mas pouco se conclui. É assustadoramente comum associar a derrota da Wehrmacht diante de Moscou ao particularmente intenso inverno de 1941, inclusive fazendo diversas alusões a decisiva derrota de Bonaparte nas mesmas estepes russas pouco mais de um século antes. De fato, as temperaturas extremas causaram numerosas baixas aos alemães, ao ponto de em determinado momento da batalha estas serem maiores do que as causadas pelo fogo inimigo. Isso se deve, primordialmente, a grotesca falha de planejamento logístico que não supriu as tropas nazistas com recursos adequados para aquela situação - o que de fato tornou ainda mais grave a condição das mesmas. Mas, nem de longe, explica a derrota de uma força que até então era vista como “invencível” (um outro mito repetido à exaustão).

Fato é: desde a primeira diretriz a respeito do ataque à URSS, datada de dezembro de 1940, por mais controversa seja essa decisão, Moscou nunca foi um alvo prioritário. Hitler acreditava que a melhor maneira de assegurar a vitória sobre a União Soviética era dominando as regiões economicamente essenciais, como a Ucrânia, a bacia do rio Don e o Cáucaso. Segundo essa linha de pensamento, ao cortar o acesso soviético a regiões estratégicas, cedo ou tarde haveria um colapso. Moscou, era um mero "ponto geográfico" para o Fürher. Essa ideia não correspondia a opinião de membros do alto escalão do OKW, que consideravam a conquista da capital como decisiva para a vitória alemã. A falta de foco e as tensões internas a respeito dos objetivos a serem alcançados e onde empregar tropas, acompanhariam o avanço alemão durante 1941 e essa indecisão atrasaria o ataque a Moscou, anulando as ideias iniciais de finalizar a campanha antes do inverno. Outra decisão muitas vezes questionada é a prioridade dada por Hitler para a tomada de Kiev, deslocando as tropas do Grupo de Exércitos Centro (que avançava em direção a Moscou) para apoiar o flanco sul. Essa decisão, apesar de controversa, não é tão absurda quanto parece, uma vez que a grande concentração de tropas soviéticas naquele setor deixaria as forças que se dirigiam para a capital expostas a um contra-ataque. Essa manobra de fato atrasou ainda mais o avanço em direção a Moscou, mas resultou em mais um triunfo, onde as estimativas apontam que o Exército Vermelho perdeu 700 mil soldados. Isso reforçou inclusive o prestígio de Hitler - e também seu ego, acreditando que não dar prioridade a capital era a decisão correta. Porém, essa vitória assim como todas as demais até então, estava longe de ser decisiva.

Não cabe aqui analisar as razões mais profundas que levaram ao fiasco da tentativa de tomar a capital soviética, sendo necessário para isso ou artigo específico. Mas vale a reflexão sobre como esse episódio se enraizou na mentalidade a respeito da Segunda Guerra Mundial; e principalmente, como é representado.

Representações

Quando se reduz o resultado desse processo extremamente complexo ao fator “clima”, há uma desconsideração notória de diversos outros fatores que contribuíram para a vitória do Exército Vermelho, ele próprio renegado a um papel secundário na batalha sob essa perspectiva. O inverno contribuiu, sim, para o estado calamitoso das tropas alemãs, mas em essência diversos problemas sérios vinham se acumulando nos meses anteriores.

Vítimas dos seus próprios sucessos, quanto mais avançavam, mais distantes ficavam de suas linhas de abastecimento. Se manter um exército do tamanho que foi mobilizado para a Operação Barbarossa já era um pesadelo por si só, esse rápido avanço inicial e as características do meio na União Soviética tornaram esse cenário ainda pior. As ferrovias possuíam especifiicidades distintas das alemãs, num país cujas dimensões geográficas eram colossais. As estradas eram poucas e, a maioria, não era pavimentada. Durante o período de chuvas de outono, conhecido como rasputitsa, ​​essas mesmas estradas se tornaram um lamaçal que atolou os Panzers alemães, permitindo que o Exército Vermelho mobilizasse suas reservas e reduzindo o tempo disponível para a finalização da campanha antes do inverno. Ironicamente, foi o congelamento do solo que permitiu a retomada do avanço alemão no final daquele ano, e a política de “terra arrasada” adotada pelos soviéticos também contribuiu para dificultar o abastecimento. Quando o ataque a Moscou foi iniciado, as tropas alemãs estavam exaustas, com sérios problemas logísticos e suas forças mecanizadas estavam desgastadas pelos intensos combates dos meses anteriores, onde apesar das graves derrotas, a resistência do Exército Vermelho se tornava cada vez mais obstinada, tornando o avanço nazista mais lento. Nas divisões Panzer faltavam peças de reposição, combustíveis e munições. A Wehrmacht que se via diante de Moscou ainda era uma força militar poderosa, sem dúvidas, mas era também uma sombra do que fora no início da invasão. Conforme aponta Kershaw:

“A investida na direção de Moscou (...) em busca da vitória decisiva antes do início do inverno, baseava-se mais na esperança do que na expectativa. Era a última tentativa desesperada de forçar uma derrota conclusiva da União Soviética antes do inverno. Era mais uma improvisação que marcava o fracasso do plano original da “Barbarossa” do que o coroamento de sua glória” (p.681)

"Tropas alemãs nos arredores de Moscou, novembro de 1941. Apesar de ser associado a mecanização de suas forças, a logística da do Exército Alemão ainda era muito dependente da tração animal". Fontes: https://rarehistoricalphotos.com/operation-barbarossa-in-rare-pictures-1941/

O mito do “general inverno”, amplamente disseminada, diz muito a respeito de como a participação da União Soviética na Segunda Guerra Mundial é comumente representada. Os esforços dos soldados do Exército Vermelho são muitas vezes desmerecidos, seus êxitos são atribuídos a fatores externos além do seu controle e sua força, subestimada. Quando não é mais possível manter esse discurso, entra em cena a ideia que a URSS resistiu devido ao envio de recursos e materiais do Ocidente, por meio do Lend Lease, ​o programa de empréstimos e arrendamentos que Roosevelt colocou em prática a partir de 1941, inicialmente voltado à Grã-Bretanha mas que também beneficiou a União Soviética e os demais Aliados. Isso constitui um outro mito, ligado aos mesmos problemas de representação.

De fato, a União Soviética recebeu grandes quantidades de recursos provenientes dos demais aliados. A historiografia soviética tende a diminuir o impacto desse processo, enquanto no Ocidente há um enaltecimento. Deslizar para reducionismos, de ambas as partes, é um equívoco. Inquestionavelmente, os recursos do Lend Lease permitiram que a União Soviética mantivesse seu ímpeto, principalmente após conquistar a iniciativa em 1943; equipamentos voltados para a logística como caminhões, locomotivas, etc., foram fundamentais nesse sentido. Nada faltou para as tropas do Exército Vermelho no período e os recursos enviados pelos demais Aliados tiveram um impacto significativo nisso. Porém, conforme aponta Norman Davies, ao contrário da situação britânica, o Lend-Lease não fez a diferença entre a vitória e a derrota para a União Soviética. O que os detratores do Exército Vermelho convenientemente se esquecem de citar ao utilizar esse argumento é o fato que no momento em que a União Soviética mais necessitava de recursos - isto é, nos críticos meses iniciais da invasão - o Exército Vermelho resistiu por si mesmo. A quantidade de recursos ocidentais enviadas entre 1941-42 era irrelevante, considerando que as rotas marítimas do Ártico eram perigosas por natureza e vigiada pelos submarinos alemães, levando a grandes perdas. Além disso, o equipamento ocidental era, muitas vezes inadequado para as rígidas condições no Leste e, não obstante, comumente inferior aos próprios equipamentos soviéticos.

Essas tentativas de diminuir o papel soviético na Segunda Guerra Mundial se dão exatamente pela sua importância incomparável na derrota do Terceiro Reich. Norman Davies é bem claro ao afirmar que “não foi 50 a 50”, como querem fazer crer. O Exército Vermelho foi responsável por cerca de 75% de todas as baixas alemãs na guerra. O número de mortos e feridos na Frente Leste é superior, e por uma grande margem, a todas as baixas das demais frentes. Somando as perdas norte americanas e britânicas, bem como o seu impacto na luta contra a Wehrmacht, não chega nem perto da escala do que foi a atuação soviética. Tampouco a derrota nazista se deve aos fatores climáticos ou externos, e sim, segundo Kershaw, na natureza nazista em subestimar seus inimigos:


“Os problemas crescentes da Barbarossa foram, em última análise, uma consequência dos erros calamitosos do cálculo que a União Soviética cairia como um castelo de cartas na esteira de uma Blitzkrieg​ (guerra relâmpago), baseada em pressupostos altamente otimistas, numa subestimação grosseira do inimigo” (P. 683)


Sem dúvida alguma houve durante a Segunda Guerra Mundial um esforço mútuo e coordenado para a derrota do nazifascismo, e os feitos dos aliados ocidentais também causaram impactos significativos.

Mas o Exército Vermelho, além de significativo, foi decisivo.

*Lucas Modaneze é graduado em História pela Universidade Cidade de São Paulo e tem como área de interesse a História Contemporânea, com ênfase na primeira metade do século XX, dedicando-se particularmente na pesquisa de assuntos relacionados às Guerras Mundiais. Atua no Laboratório de Estudos e Pesquisas em História (LEPH) da mesma instituição na organização, catalogação e conservação do acervo. Também colabora com o projeto digital Histori0logando, voltado para divulgação do conhecimento historiográfico.

**O conceito de totalitarismo aqui empregado, não se trata de uma relativização entre a Alemenha Nazista e o Stalinismo, mas sim atendendo as especificidades de cada país e processo. Não se trata então, da reprodução da teoria da "ferradura" que parte do pressuposto de que os "extremos são iguais".


Referências

DAVIES, Norman. “Europa na Guerra - 1939-1945 Uma Vitória Nada Simples”. São Paulo: Record, 2009.

GILBERT, Martin. A Segunda Guerra Mundial: Os 2.174 dias que mudaram o Mundo”. São Paulo: Casa da Palavra, 2014.

HITLER, Adolf, “Minha Luta”. São Paulo: Centauro, 2001.

HOBSBAWN, “Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991)”. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

KERSHAW, Ian. “Hitler”. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KRIVOSHEEV, G.F. “Soviet Casualties and Combat Losses in the Twentieth Century”. Greenhill Books, 1997.

MAZOWER, Mark. “O Império de Hitler: A Europa Sob o Domínio Nazista”. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

267 visualizações
apoie.png