• Giovanna Garcia Cobellis

Operárias e seu protagonismo diluído na História


Operárias no início do século XX.



Quando estudamos e falamos da História das mulheres, quase de imediato levantamos questionamentos a respeito das mulheres no mercado de trabalho, os desafios de se alcançar altos cargos e igualdade de remuneração e as conquistas já colhidas de séculos de luta do movimento feminista. Fato é que todas essas discussões precisam e devem ser levantadas, porém, pouco se fala sobre o poder da mulher operária, da trabalhadora “doméstica”, da cozinheira etc., como se essas funções, majoritariamente exercida por mulheres, não tivessem força de voz nos dias atuais, uma clara influencia do feminismo liberal “contemporâneo” que propõe um discurso distorcido sobre liberdade, luta e conquistas igualitárias entre as mulheres sem levar em consideração a existência da limitação destas, fruto do condicionamento classista, racial, cultural e social que a fala patriarcal e capitalista do discurso liberal tenta oprimir.

Cresci em uma família onde quase que a totalidade das últimas três gerações anteriores à minha foi formada por mulheres operárias do ramo industrial têxtil, metalúrgico e de vestuário. Nos cafés na casa de minha avó, relembrando o passado, frases como “correr atrás da linha”, “cochilar na pausa pro banheiro”, “almoço de 30 minutos” e “dedos machucados e com buracos de montar componentes” são frases comuns de se ouvir, bem como os relatos de abuso psicológico e importunação sexual. São frases e relatos de mulheres como minha mãe, tia, avó, tias-avós e bisavó, mulheres que não entendiam e ainda hoje por vezes não entendem que muitas das mudanças observadas no chão de fábrica a cada geração, são fruto de inconformismo e muita luta. Desta forma, este texto procura enaltecer o protagonismo da mulher operária em alguns momentos marcantes da história, como um meio de desempoeirar fatos históricos e acender o sentimento de pertencimento de todas à luta revolucionária!



Fim do século XVIII ao fim da primeira metade do século XIX


Durante quase um século, a Revolução Industrial configurou o distanciamento social gritante entre o proletariado e o os detentores de poder. Com uma pequena classe média em ascensão, a satisfação material e moral de status se davam à custa do trabalho dos operários que se caracterizava pela pressão da variação das estações de trabalho e a multiplicidade de tarefas na linha de produção, onde qualquer atraso, erro, danificação ou falta era penalizado com multa ou abatido da baixa remuneração recebida, que mal dava para garantir sua própria subsistência. A falta de tempo e dinheiro para regalias ou lazer é uma clara manifestação do poder do patronado e da mecanização do tempo no controle da vida privada do operário. Menciono a Revolução Industrial (1760-1840) e o impacto dela na vida do trabalhador para que seja estabelecida a ideia do trabalho industrial e fabril como reguladores da vida das classes menos favorecidas durante os períodos e situações que no texto serão mencionadas e que poucas mudanças ocorreram no período que se estabeleceu entre eles.

Em meados de 1789, a tão exaltada Revolução Francesa marcava o início de uma nova era com o fim da mais poderosa monarquia absolutista, que enfrentava uma crise econômica, a consolidação dos pilares iluministas e a insatisfação das classes mais baixas do terceiro Estado que sofriam com a fome e as péssimas condições de vida. Dentro deste cenário, o que é importante entender neste momento é o papel que tinha a mulher na sociedade francesa da época. Limitadas à vida privada e às designações maternais e passivas, as mulheres eram minimamente educadas dentro dos parâmetros impostos pela vida religiosa e seus ensinamentos que levavam a um aprendizado sobre comportamento no lar e afazeres em um casamento. Totalmente excluídas do direito à cidadania política, ainda assim as mulheres (que fique claro, mulheres das altas classes) começaram a “extrapolar os limites” estabelecidos socialmente, participando de motins, acompanhando e divulgando as decisões das assembleias etc. Sobre as mulheres pobres (ainda mais à margem da população), houveram manifestações contra o alto preço do pão (alimento básico), mas em termos gerais “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” representou a vitória da burguesia.

Já em 1871, a Comuna de Paris enfim trouxe à tona o poder do proletariado e o protagonismo da mulher proletária. Derrotada na Guerra Franco-Prussiana, a França se tornou palco de diversas manifestações por parte do operariado e das classes mais baixas da sociedade, que clamavam por reformas sociais básicas. Com a queda do Imperador Napoleão III e diante de uma possível Assembleia Nacional conservadora, o povo passou a governar a cidade, tomando as propriedades do Estado e da Igreja, instituindo um conselho e dividindo as obrigações de cada um dentro da Comuna. Sobre as mulheres:

[...] fizeram uniformes, trataram dos feridos, deram suprimentos aos soldados. Milhares de mulheres costuravam os sacos para construir barricadas. Criaram, igualmente, cooperativas e sindicatos, clubes políticos; participaram exigindo direitos iguais e fizeram suas próprias organizações como o Comitê das Mulheres de Monitoramento, o Clube da Revolução Social e a União das Mulheres para a Defesa do Paris, fundada por membros da Primeira Internacional, influenciada pelo pensamento de Karl Marx. E também foi na Comuna que, pela primeira vez, cerca de três mil mulheres trabalharam nas fábricas de armas e munições, construíram barricadas e recolheram as armas dos mortos para continuar lutando e formaram um batalhão feminino da Guarda Nacional, composto por 120 mulheres que lutaram nas barricadas de Paris durante a última semana de resistência da Comuna, quando todos morreram em combate. Eram trabalhadoras, mulheres de bairros pobres, pequenas comerciantes, professoras, prostitutas e “suburbanas” (D’ATRI, 2011. p. 282)

A Comuna de Paris serve de combustível para reconhecimento e admiração do papel da mulher na sociedade.



Início do século XX


No início do séc. XX, a Europa era o palco principal de um acontecimento até então inédito na história da humanidade. A Primeira Grande Guerra e seus desdobramentos duraram longos quatro anos, marcados por milhões de mortes entre combatentes e civis de todas as nações envolvidas e por um movimento de ressignificação do trabalho industrial no mundo. Os países declaradamente em guerra uniam todas as suas forças para o trabalho estratégico em batalha e em fechamento de alianças, levantando-se a necessidade de exportar produtos básicos de abastecimento interno, como alimentos e vestuário (motivo que levou à elevação do preço destes produtos), já que suas fábricas e seu operariado também passavam por uma grande mudança. Passaram a se dedicar primordialmente na produção de material bélico agora produzido principalmente por mulheres que, antes fadadas às atividades do lar, entraram no mercado de trabalho quando se percebeu uma dupla necessidade: a de repor o corpo operário por parte dos proprietários de fábricas (os homens estavam no campo de batalha) e a das mulheres de proverem o sustento do lar em um momento de desamparo. A guerra se espalhou geopoliticamente de forma muito rápida para regiões no norte da África, da Ásia e Leste europeu e é dentro deste contexto que a Rússia viveu se grande movimento revolucionário que mudaria a história do mundo ocidental e oriental, era a Revolução de Outubro de 1917.

Em fevereiro de 1917, as mulheres russas de Petrogrado (então capital do império russo) lideraram uma marcha pelas ruas da cidade e foram acompanhadas por apoiadores que se juntavam aos montes em sua causa, era o início do fim do absolutismo czarista que já durava mais de três séculos. “Pão e Paz!” era o clamor dessas mulheres, revoltadas com a fome e com as longas horas de fila por pão. Seus filhos, maridos, irmãos e pais morriam aos milhares todos os dias nas frentes de batalha e outros milhares já haviam morrido 12 anos antes, em 1905, na Guerra Russo-Japonesa que devastou de forma humilhante as frotas russas, deixando o país em grande dívida e o Czar Nicolau II, que em decadência de poder, marcou seus últimos vinte anos de governo com uma série de acontecimentos como a tragédia de Khodynka e o domingo sangrento, que evidenciavam a necessidade de mudanças radicais imediatas na Rússia e a incapacidade de se manter um governo autoritário no poder.

O Domingo Sangrento, também conhecido como Primeira Revolução Russa, já direcionava, mesmo que não intencionalmente, para a Revolução Proletária. Operárias e operários marcharam nas ruas até o Palácio de Inverno para serem ouvidos e atendidos pelo czar na tentativa de melhoria das condições de trabalho nas fábricas e de vida em aspectos sociais, mas ao contrário disso, foram recebidos com dura repressão. Sobre o Domingo Sangrento (1905), Lênin diz:

Milhares de operários, não social-democratas, mas crentes, súbditos fiéis do czar, conduzidos pelo padre Gapone, encaminharam-se de todos os pontos da cidade para o centro da capital, em direcção à praça do Palácio de Inverno, para entregar uma petição ao czar. Os operários caminham com ícones, e Gapone, o seu chefe na ocasião, tinha escrito ao czar dando-se como garante da sua segurança pessoal e pedindo-lhe que se apresentasse perante o povo. A tropa foi alertada. Ulanos e cossacos carregam sobre a multidão com armas brancas; disparam contra os operários desarmados que ajoelhados suplicam aos cossacos que lhes permitam aproximar-se do czar. Segundo os relatórios da polícia, houve nesse dia mais de um milhar de mortos e mais de dois mil feridos. A indignação dos operários foi indescritível (LENIN, 1905).

Foi o momento de nascimento do espírito revolucionário proletário e de organização do movimento operário russo, onde colocaram-se acima de tudo as necessidades e reivindicações das classes não-burguesas e modelaram-se as estruturas políticas que garantiriam anos depois a participação popular (por meio dos Sovietes) nas escolhas e decisões do governo de autogestão.

No decorrer de 1917, as baixas da primeira guerra e a fome levaram cerca de 90 mil operários para as ruas em manifesto. Gradativamente em apoio a esses operários, soldados da cidade se juntaram ao manifesto e baixaram suas armas em sinal de recusa a assassinar seu próprio povo. A manifestação tomava o corpo de greve geral e se espalhava para cidades além da capital e para o campo. O governo czarista fragilizado mal podia manter seus soldados nas trincheiras e muitos desses se recusavam a obedecer a seus generais, ainda aliados do governo. Dentro deste contexto, as mulheres ainda se mantinham fortes na luta e após a renúncia do czar, começavam a reivindicar espaço dentro dos sovietes, assembleias, comitês e sindicatos que se estabeleciam.

Um exemplo de mulher que impactou no ingresso das mulheres no meio político foi Alexandra Kollontai, que dentre muitas funções, atuou no Comité Executivo do Soviete de Petrogrado e como Comissária do Povo para Assuntos do Bem-estar Social. Em sua luta, Kollontai deu luz ao debate sobre o feminismo da mulher operária não ser o mesmo feminismo da mulher burguesa, reconhecendo que existem pautas básicas que são válidas para ambas as classes, mas que nem todas são universalizadas e colaboram para a instrução e acolhimento da mulher nos diversos âmbitos da sociedade.



Brasil, início do século XX


A Revolução Industrial e as Revoluções Russas foram movimentos indispensáveis de se mencionar quando falamos da fermentação do protagonismo das mulheres operárias e, sem sombra de dúvidas, são momentos da História que provocaram um efeito de divisor de águas e de influenciador, mas fato é que as mulheres operárias foram as responsáveis por encabeçar dezenas de grandes greves por toda a Europa, América do Norte e América Latina. Tomando de exemplo deste efeito influenciador, antes mesmo do desenvolvimento exponencial industrial fabril na cidade de São Paulo na década de 1930, a cidade foi palco de uma Greve Geral iniciada no ano de 1917 por operárias (na maioria imigrantes) e que em poucos dias se tornou um entrave de batalha nas ruas do centro da cidade, com prisões, linchamentos, torturas e mortes.

Na Greve de 1917, as operárias tiveram uma importante participação na construção e resistência do movimento paredista, mas pouco é falado ou estudado sobre o tema, onde por vezes erramos em dizer que essas mulheres estavam neutras durante este período conturbado e perigoso. As historiadoras Maria Pena e Zuleika Alvim propõem uma abordagem com trechos de relatos da época e estudos que apontam as mulheres como propulsoras da greve, iniciada por um grupo de tecelãs do Cotonifício Crespi que sofriam com as constantes importunações sexuais e abusos psicológicos advindas de seus patrões nas linhas de trabalho, trabalhavam horas a fio, em pé, sem descanso e cuidando de mais de um tear ao mesmo tempo. Além disso, muitas dessas mulheres iam acompanhadas de seus filhos para o trabalho na fábrica e ainda tinham de lidar com as tarefas do lar quando nele chegavam. Em pouco tempo essas insatisfações tomaram proporções inimagináveis para a época, que logo foram aderidas por outros grupos dentro das fábricas que visavam reivindicar necessidades trabalhistas (melhores salários, jornada de trabalho reduzida, assistência social etc.).

Em Junho de 1917, quando a greve geral já tomava corpo organizado e seu espírito revolucionário começava a inflamar o chão de fábricas no interior do estado, os rádios e jornais oficiais foram surpreendidos por um manifesto chamado O appello aos soldados, escrito por um grupo autodenominado “Um grupo de mulheres grevistas”:

Soldados! Não deveis perseguir os nossos irmãos de miséria. Vós também sois da grande massa popular, e, se hoje vestis fardas, voltareis amanhã os camponeses que cultivam a terra, ou os operários explorados das fábricas e oficinas. A fome reina em nossos lares e nossos filhos nos pedem pão! Os perniciosos patrões contam, para sufocar as nossas reclamações, com armas que os armaram. Soldados! Estas armas vo-las deram para garantir o seu direito de esfomear o povo! [...] Não vos prestei, soldados, a servir de instrumento da opressão dos Crespi, Matarazzo, Gamba, Hoffmann etc, os capitalistas que levam a fome ao lar dos pobres! Soldados! Cumpri vosso dever de homens! Os grevistas são vossos irmãos na miséria e no sofrimento. Os grevistas morrem de fome, enquanto os patrões morrem de indigestão! Soldados recusai-vos ao papel de carrascos!

Este manifesto é um bom exemplo da influência da Revolução Russa e do papel das mulheres como protagonistas de lutas históricas e também soa como mecanismo de luta ativa das mulheres no desenrolar da greve. Quando paramos para analisar imagens da época, a predominância de homens nas ruas é nítida, mesmo quando levamos em consideração que no centro de São Paulo, em bairros como Mooca e Brás, a maior parte das fábricas era do ramo têxtil e nesse ramo grande parte dos trabalhadores eram mulheres e crianças. Então, é correto dizer que as operárias participaram da luta? Sim, as mulheres operárias não somente participaram como enfrentaram duplamente esta luta! Após a consolidação dos direitos trabalhistas básicos, a luta operária e grevista nunca deixou de existir, pois para além de um movimento econômico, se tratam também, mesmo que de forma intrínseca, de um movimento político e social.

A avalanche de necessidades e a falta de referências às mulheres na história podem ter soterrado muitas vozes femininas e as fontes patriarcais que um dia apagaram, hoje são capazes de reviver e trazer à tona o que ficou esquecido e promover um simbolismo para a importância da história dessas mulheres . As mulheres não foram e não são protagonistas pelo único fato de, em dados momentos aqui retratados, serem maioria dentro das fábricas, mas sim porque sempre foram ativas na luta.

A luta é de toda mulher proletária, operária ou não. De todas as trabalhadoras que em muitos momentos não se veem comtempladas pela causa das mulheres. Por nós, por nossas contemporâneas e por todas que virão depois de nós! Que para estas, a luta seja menos dura. Não são apenas as relações econômicas e políticas que mudam e influenciam o mundo, mas ideais também são capazes de atravessar oceanos.

Giovanna Cobellis é Historiadora, pesquisadora sobre Violência do Estado, História das Mulheres e pós graduanda em História das Religiões pela Universidade Cidade de São Paulo.

Bibliografia

HOBSBAWM, Eric. Da Revolução Industrial inglesa ao Imperialismo: Os resultados humanos da Revolução Industrial, 1750‐1850. Rio de Janeiro: Editoria Forense Universitária, 2000.


D’ATRI, Andréa. Comuna de Paris: mulheres parindo um mundo novo. Revista do Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais (NEILS). Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais – PUC/SP.


Relatório Sobre a Revolução de 1905. V. I. Lenine. 22 de Janeiro de 1917. Arquivo Marxista na Internet, 2014. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/01/22.htm


22/01/1905: Domingo Sangrento inicia a Revolução de 1905 na Rússia. Diário Causa Operária, 2020.

Disponível em: https://www.causaoperaria.org.br/22-01-1905-domingo-sangrento-inicia-a-revolucao-de-1905-na-russia/#:~:text=De%20acordo%20com%20L%C3%AAnin%2C%20o,Oper%C3%A1rios%20e%20Soldados%20(Sovietes).&text=No%20domingo%2C%2022%20de%20Janeiro,Domingo%20Sangrento%20na%20R%C3%BAssia%20czarista.


FERRO, Marc. Dos Sovietes à burocracia. Porto Alegre: CECA-CEDAC, 1988.


PENA, Maria Valeria Junho; RODRIGUES, Leôncio Martins. Mulheres trabalhadoras: presença feminina na constituição do sistema fabril. 1980. Universidade de São Paulo, São Paulo, 1980.


ALVIN, Zuleika M. F. A participação política da mulher no Início da Industrialização em São Paulo. Mestrado do curso de pós-graduação em História Social da USP.

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