• Rafael Lopes

Onde está a ação coletiva?

O capitalismo nos transforma em seres individuais e mesquinhos. Toda a sociedade larga mão do desenvolvimento coletivo de seus cidadãos para um enriquecimento privado. A propriedade privada torna-se o item mais santo no capitalismo, onde para defendê-la, até o assassinato é palpável. Ou seja, no capitalismo, o indivíduo não é o bem mais precioso que deve ser defendido por todos, o que é defendido seja com armas, seja com artifícios ideológicos, é a propriedade privada. Foi-se o tempo onde o sentido da vida necessitava da conexão do cidadão com a cidade. Hoje, justificam milhões de pessoas dormindo na rua, mesmo com o prédio do burguês vazio e sem função social.


Nos livros de história quando lemos sobra a Grécia Antiga, fica impossível ignorar seu apreço pela pólis. Naquela época, o individuo só existia dentro da pólis. Em Apologia de Sócrates, Platão narra que Sócrates se recusa a fugir da pena de morte sentenciada em Atenas, porque pra ele a vida só era tinha sentido dentro da pólis, e se essa o julgava culpado, mesmo sendo uma injustiça, ele deve aceitar sua decisão. Além do mais, ao fugir Sócrates estaria privando a pólis de confrontar o seu erro e aprender com ele. Os valores dessa ação são mais profundos que uma mera análise superficial. Porém, o intuito desse pequeno texto não é analisar a obra de Platão. Mas fica evidente como a relação entre a cidade e o individuo mudou drasticamente de lá para cá. Assim como toda mudança de pensamento na história, sua transformação foi de forma gradual e não instantânea, porém, é perceptível que com a consolidação do capitalismo, a ação coletiva para o desenvolvimento da pólis perde o seu posto, e a vida social passa a ser predominantemente marcada pela propriedade privada. A razão da existência pessoal deixa de ser a ação coletiva, para ser o enriquecimento privado.

Esse individualismo burguês vai ser o responsável por os indivíduos passarem a ver uns aos outro como inimigos, e não como seres que constroem a sociedade. A riqueza vai se concentrar cada vez mais na mão de poucos. Esses burgueses vão espalhar o seu individualismo para as massas populares, porém, essa massa é impossibilitada de enriquecer. Mas isso não vai impedir que os burgueses continuem expandindo sua ideologia, fazendo dos trabalhadores uma marionete de seus interesses. Podemos ver essa relação claramente nas relações econômicas de mercado atuais: mesmo com o COVID-19 ceifando a vida de milhares de brasileiros, quando um governo estadual faz uma declaração de que vai ajudar no processo de desenvolvimento da vacina chinesa contra o vírus, diversas pessoas, seguindo a ordem de setores da burguesia ligados ao capital estrangeiro (principalmente o estadunidense), começam a protestar contra essa parceria. Não interessa que a vacina possa salvar a vida de milhões de brasileiros, o que importa é não tomar a vacina chinesa, porque isso prejudicaria a venda de uma suposta vacina estadunidense.

Ao falar desse individualismo burguês e do seu aposto, a ação coletiva, eu não estou negando que os indivíduos são diferentes e tem necessidades diferentes. O desenvolvimento do indivíduo é um processo diferente da reprodução social no seu conjunto. Nas palavras de Sergio Lessa e Ivo Tonet em Introdução à Filosofia de Marx, devemos reconhecer essa diferença, porque ela trás luz as necessidades individuais, e isso abre campo para o reconhecimento de dois fatos decisivos da reprodução social:

O primeiro é que o desenvolvimento do individuo é fundamental para a evolução da totalidade social. E, o segundo, que, na relação entre a sociedade e o indivíduo, a evolução daquela é o fundamento do desenvolvimento deste. (LESSA, TONET, pag 79.)

As necessidades individuais e coletivas existem e ambas devem ser atendidas numa sociedade emancipada. O que acontece é que o capitalismo, ao desenvolver o individualismo burguês, deu origem a uma sociedade na qual as necessidades coletivas estão subordinadas ao enriquecimento privado, e na qual as necessidades humanas, sejam elas coletivas ou individuais, estão refém do processo de acumulação do capital pelos burgueses. Lessa e Tonet prosseguem:


Desse modo, o capitalismo deu origem a indivíduos que perderam a noção da real dimensão genérica, social, das suas existências, ficando presos a mesquinha patifaria, ao estreito e pobre horizonte da acumulação do capital. (LESSA, TONET, pag 79 e 80.)

É necessário pensarmos, sem ignorar nossas necessidades individuais, de forma coletiva. O individualismo burguês banaliza a vida; ele transforma pessoas em objetos, e objetos em pessoas. Devemos combatê-lo seja no campo ideológico, seja no campo social ou no econômico. Não devemos esquecer que mesmo na mais profunda crise, um novo mundo é possível. A construção da coletividade, do socialismo, fica cada dia mais urgente, e, parafraseando José Paulo Netto “apesar desse túnel que estamos atravessando nesses tempos tão difíceis, há luz, há céu azul, há esperança, e há, enfim, a possibilidade de uma vida numa sociedade onde o livre desenvolvimento de cada um, é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.

Referencias:

LESS, S., TONET, I. Introdução à filosofia de Marx. 2. Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

Boitempo. Jose Paulo Netto: por que ler Lukács? Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=VZt4RwNR3W4/>. Acesso em 13 jun 2020.

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