O verde das fardas e o amarelo bestializado

Luisa Gabriela Santana e Vinicius Souza


Charge: Latuff 2010

Pegando a referência de Aristides Lobo, o propagandista da República em 1889 diz que “o povo assistiu bestializado, sem compreender o que se passava...” demonstramos aqui o assombro ao assistir o vídeo da reunião ministerial. Totalmente bestializado. Entendendo o que está acontecendo, mas sem acreditar que é possível. Ou acreditando que é possível.


Assim como em 1889 com a instauração e proclamação da República, o povo não foi o protagonista dessa ação, tampouco soube o que aconteceria até realmente acontecer. Como uma explosão química. Esse é o Brasil que vemos atualmente. Como povo, não vemos o que está acontecendo, tampouco sentimos os efeitos do que está sendo feito nas entrelinhas. Estamos submersos numa banheira quente, sem perceber que aos poucos a água está fervendo e gradativamente nos matando.


Os que perceberam, tentam tirar os que ainda se deliciam na água quente da banheira, que se mostram cômodos a essa situação, movidos por um fundamentalismo mascarado de fé, que por muitos anos sacrificou pessoas, de que essa é a única opção para nos salvar de todos os malefícios trazidos pelos governos anteriores.


O maior perigo dessa era que vivemos (mais uma vez) de fragilidade política e desconhecimento compulsório, é quem pode se aproveitar para articular um governo tirano, ditatorial, eugenista e necropolítico.


Os militares possuem uma longa tradição de interferência e permanência contínua na política brasileira, historicamente esses momentos não se revelam somente em momentos ditatoriais, como com o primeiro e pouco duradouro golpe de Estado da nossa história republicana, protagonizado, ironicamente, pelo proclamador da República Marechal Deodoro da Fonseca em 1891, da ditadura do Estado Novo instaurada por Vargas em 1937 ou o golpe empresarial-militar de caráter imperialista em 1964.


A verdade é que desde 1945, quando o Estado Novo chegou ao fim, os militares passaram a se apropriar do Estado de novas formas, encerrando o protagonismo do movimento tenentista que tem o seu apogeu no golpe de 30, os generais quando não estavam diretamente na presidência, estavam dentro do poder executivo em diversos cargos.


A fragilidade institucional dos períodos de democracia burguesa no Brasil sempre foi latente e, desde sempre, a possibilidade de efetivação ou impedimento de golpes estiveram ligados à vontade política dos militares. Até mesmo Lacerda, um jornalista civil, para criar as condições para a tentativa de impeachment que levou ao suicídio de Vargas em 1956, precisou do papel fundamental dos militares.


Em 1961, pela força dos fuzis e coturnos, foi imposto o parlamentarismo para impedir um trabalhista, Jango, de implementar a sua política desenvolvimentista com importantes reformas econômicas. Em 1964, um ano depois da volta do presidencialismo, os militares efetivaram o golpe e derrubam Jango respaldando o projeto imperialista e dependente de desenvolvimento do capitalismo brasileiro.


Quase 60 anos após o golpe militar de 64, considerando que toda a conjuntura atual nos leva ao mesmo lugar, quase como uma tradição, vemos a democracia burguesa e soberania do povo destruída pelo covil de Bolsonaro, da forma que para alguns soa como sutileza, mas para quem conhece a história é a forma mais suja de alcançar o poder: em cima do caos e do desespero da população.


Os militares sempre estiveram à espreita, como urubus aguardando a morte do animal para tomar conta da carniça. Em alguns momentos eles se evidenciam mais, mas sua participação, conta, sobretudo em cima do desespero da população, que a cada 30 anos parece escolher um Messias, um unificador e salvador da pátria, um boneco ventríloquo, para se apegar e fortalecer a socialização negacionista, racista e com síndrome de vira-lata. E essa situação nos evidência mais uma vez a atemporalidade da frase “quem não conhece a história, está fadado a repeti-la”.


Luisa Gabriela Santana é estudante de História.


Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF-UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve no perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.

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