• Ricardo Normanha

O tucanistão próximo do fim?


Embora João Dória tenha tentado construir uma imagem de responsabilidade e de boa condução da pandemia em São Paulo, uma observação atenta da realidade nos permite constatar que o tucano tem tanta responsabilidade nas mais de 90 mil mortes por Covid-19 no estado de São Paulo (números de 21/04/21), quanto a política deliberadamente genocida de Bolsonaro. Desde o início da pandemia, em março de 2020, Dória tem tentado conciliar o inconciliável: por um lado, buscou adotar medidas de contenção do vírus e prevenção da doença; por outro, manteve como prioritárias as necessidades de lucro do empresariado paulista e nacional. Desta forma, as medidas de isolamento social foram sendo gradativamente flexibilizadas sem que este processo tivesse lastro na redução efetiva da velocidade de contágio da doença ou da ocupação de leitos de UTI. Escolas públicas e privadas foram autorizadas a retornar ao ensino presencial muito antes da situação da pandemia mostrar sinais de que estava controlada e sem colocar os profissionais da educação e os estudantes nos grupos prioritários de vacinação. Com médias diárias de cerca de 800 mortes no estado e ocupação de mais de 80% dos leitos de UTI, Dória inventa uma "fase de transição", mesmo que os número indiquem a persistência de uma situação de alta gravidade, colocando o sistema de saúde em risco iminente de colapso. Esta "transição", de acordo com a secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado, Patrícia Ellen, é um "modelo de gestão entre saúde e economia". Em primeiro lugar, cabe esclarecer que trata-se de uma falsa dicotomia. A oposição que sempre figurou no plano de fundo das medidas de combate à pandemia está inscrita na relação entre a saúde pública e os interesses do mercado. O que o discurso tucano não esclarece é que, na prática, entre ambas, Dória sempre privilegiou os interesses do mercado, não poupando esforços para a manutenção dos lucros do empresariado. Cabe reforçar que, embora seja o estado mais rico do país, o governo estadual não criou nenhuma medida de auxílio emergencial que permitisse que a população mais pobre pudesse efetivamente aderir às medidas de isolamento. No mesmo contexto, no início de abril de 2021, ainda com a intenção de rivalizar com Bolsonaro, o governador tucano lançou o programa Bolsa do Povo, com valor superior aos míseros R$ 150 do auxílio-emergencial federal, mas que impõe que os beneficiários cumpram com uma jornada de 4 horas diárias de trabalho em escolas públicas do estado. Ou seja, para receber o auxílio, os trabalhadores e trabalhadoras deverão se expor ainda mais ao contágio e intensificar as condições de propagação do vírus. Ao mesmo tempo em que anunciava os êxitos do Instituto Butantan na produção da Coronavac, em parceria com a China, e da Butanvac, vacina produzida 100% no Brasil, Dória propunha o corte de investimentos em ciência. O mesmo Dória que hoje exalta os feitos do Instituto Butantan, na campanha para o governo do estado, explicitou sua intenção de privatizar o órgão ligado à Secretaria de Saúde, após anos de sucateamento e restrição orçamentária. Mas a pandemia da Covid-19 caiu como uma luva para a estratégia de Dória em sua escalada de poder. Como de costume na tradição tucana no Estado de São Paulo, a prefeitura de São Paulo serviu como trampolim para o Governo do Estado. E, com vistas a 2022, Dória aproveitou a pandemia para se projetar nacionalmente e angariar capital político para sua candidatura à Presidência. Tão logo se instalou no Palácio dos Bandeirantes, Dória procurou se desvencilhar da alcunha criada em sua própria campanha, o Bolsodória. Diante da necessidade de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, o tucano viu a possibilidade de potencializar suas aparentes diferenças com Bolsonaro, sobretudo quando se tratava das medidas de combate à doença e, especialmente, da vacina. Deste modo, a gestão tucana no governo do estado esteve totalmente voltada para contrapor Dória e Bolsonaro a partir de uma dupla constatação: por um lado, eram notórias as cisões e o enfraquecimento do consórcio que sustenta o governo genocida de Bolsonaro; por outro, a ausência de Lula da disputa e a impossibilidade de construção de uma alternativa à esquerda, abria o caminho para uma saída conservadora mobilizada pela ressurreição da direita "tradicional", capitaneada pelo PSDB. Dória buscou se chancelar como o principal opositor de Bolsonaro em 22 e usou como tática o discurso de estar fazendo um enfrentamento sério e responsável frente à pandemia. Não poupou ataques ao Bolsonaro e estava tentando uma projeção nacional como a saída civilizada para o Bolsonarismo sem a necessidade de "voltar à esquerda". Mas a anulação das condenações de Lula e a devolução de seus direitos políticos reconfigurou esse cenário. Com Lula na jogada, para Dória se tornou uma aventura arriscada abrir mão do governo estadual para disputar a presidência. Tanto é que tão logo saiu a decisão do STF, Dória já anunciou que pretendia disputar a reeleição. O fato é que ele tem enormes chances de se reeleger aqui no estado de São Paulo, mas sua estratégia de se contrapor ao Bolsonaro pode ter criado uma cisão na sua base. Em São Paulo há um segmento importante do eleitorado que até recentemente era compartilhado pelo bolsonarismo e pelo PSDB. Não foi à toa o "Bolsodória" de 2018 ter emplacado com grande facilidade. No entanto, ao buscar se diferenciar de Bolsonaro, Dória pode ter conquistado novos opositores, antes aliados. O bolsonarismo fiel à política genocida do ex-capitão do exército elegeu Dória como a figura a ser combatida. A ele não faltaram acusações de levar os comércios à falência, de se associar à China na produção da vacina e até de ser comunista! Neste sentido, Dória pode enfrentar no próximo pleito uma resistência de setores conservadores mais alinhados ao fascismo de Bolsonaro e das Forças Armadas, mesmo que a extrema-direita bolsonarista não tenha, até o momento, projetado nenhum nome de peso para a disputa ao governo do estado. Outros antigos aliados de Bolsonaro, como Joyce Hasselman e o falecido Major Olímpio, ao romperem com o governo federal, não se aproximaram de Dória. O cenário que pode ter se delineado, portanto, é de um enfraquecimento da base de apoio de Dória e uma cisão importante do bloco composto pela direita "tradicional" e a extrema-direita bolsonarista. Seria este o início do fim da perpetuação da dinastia do PSDB no estado de São Paulo? Ainda é cedo para este tipo de avaliação, mas as eleições de 22 vão ser um importante termômetro para os tucanos e uma oportunidade para as forças políticas de esquerda no estado. Abre-se uma pequena, porém importante, brecha para atuação para as forças de esquerda no estado de São Paulo. O acúmulo de capital político da eleição municipal de 2020 em algumas cidades do estado, especialmente na capital com o bom desempenho de Guilherme Boulos, do PSOL e a atuação de diversas organizações nas lutas territoriais e nas campanhas em torno das ações de solidariedade podem ter criado as bases para uma inserção mais qualificada junto à população. A tarefa, mais que urgente, é uma atuação cada vez mais estreita com o povo, nas periferias das grandes cidades mas também no interior do estado, participando ativamente da vida das pessoas em seus locais de moradia, oferecendo à população uma referência de alternativa à lógica oligárquica que o PSDB opera há décadas no estado de São Paulo.

Ricardo Normanha é sociólogo, professor e colunista da Revista Clio Operária.

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