• Ricardo Normanha

O sonho de Tiago

Atualizado: 23 de Dez de 2020

Ilustração de Batata Sem Umbigo - https://www.instagram.com/batatasemumbigo/?hl=pt-br

Tiago estava atônito. Jogou seu notebook de lado e saltou da cama, quase se enrolando no cabo de energia. Ainda sem equilíbrio tentou calçar os chinelos, mas a pressa era tanta que apenas um dos pés ficou preso ao pé, meio torto, enquanto o outro foi parar embaixo da cama. Caminhou rápido até a sala. Procurava seu celular. Olhava ao redor sem conseguir focar a visão. Girava em torno do próprio corpo como se o movimento circular o fizesse encontrar o eixo. Estabilizou o giro e fixou o olhar sobre o rack onde a TV ligada passava um programa de auditório. Não encontrou o celular ali. Num movimento rápido, procurou no sofá e encontrou o celular embaixo de uma das almofadas. Pegou o aparelho e começou a digitar.


- Marcão, mano, preciso te mandar um áudio. Sei que vc não curte, mas o baguio tá tenso aqui.


Em pouquíssimo tempo chegou a resposta.


- Manda aí mano. Q q aconteceu?


Tiago sentiu um alívio por poder falar… Já fazia uns dias que não falava com ninguém. Segurou o celular com firmeza, acionou a gravação do whatsapp e começou a falar.


- Mano, aconteceu um baguio bizarro aqui. Tô cabreiro… Acordei meio zuado hoje. Ontem tava mó de bode e, cê tá ligado, sabadão, isolado em casa… Tomei quatro latão de Skol e umas três doses de conhaque que ainda tinha aqui em casa. Capotei na cama. Tive um sono mó agitado. Aí, quando levantei hoje, fui tomar uma água na cozinha. Comi um pão de forma, mas vi que tava sem café. Precisava sair pra comprar. Tomei coragem, peguei minha carteira e saí. Já tinha andado mais de um quarteirão quando cruzei com um maluco que tava sem máscara. Fiquei daquele jeito… xingando o cara aqui na minha mente. Daí me toquei que eu também tava sem máscara! Voltei correndo pra casa. Cabrero de ter me exposto ou de ter exposto alguém… Porra mano. 9 meses de isolamento e nunca tinha esquecido a máscara. Já saí sem carteira de casa, mas a máscara, nunca! Entrei em casa, peguei uma máscara limpa e saí de novo. No caminho fui vendo uma pá de gente sem máscara. Aliás… todo mundo tava sem máscara. E de boas, andando por aí. Gente junta nos boteco, na rua… Geral olhando pra mim com cara estranha. Só eu de máscara. E não era um ou outro com máscara no queixo, nariz pra fora não… Era sem máscara total. Cheguei no mercadinho, lotado! Não tinha mais nem o tiozinho que fingia que media a temperatura no pulso. Fila pra cacete. Gente comprando carne, carvão. Tiazinha com as compras da semana no carrinho… Fiquei bolado. Todo mundo me olhando esquisito. Só eu de máscara. Desisti de comprar o café. Voltei correndo pra casa. Na rua era como se tudo tivesse normal. Nem na farmácia que passei em frente tinha mais aquele anúncio de que tavam fazendo teste rápido de covid. Cheguei aqui em casa tenso. Fiquei pensando… num é possível que a galera já desencanou desse jeito da pandemia. Tão nem fingindo mais… Aí mano, bateu aquela paranóia. Liguei a TV e não se falava nada de pandemia, covid, nem nada. Passei por todos os canais e nada. Nem menção, nada. Peguei o notebook pra ver na internet. Os portais de notícia não falavam nada também. Facebook, Insta, Twitter… falavam de tudo, menos de Covid. Ia ligar pra minha mãe, mas do jeito que a véia é desconfiada, era capaz dela achar que eu tô doidão. Ia querer vir aqui pra me ver e não quero que ela se exponha. Tô há uma cara procurando as coisas, olhando a TV, celular, computador… Nada sobre a pandemia, nem sobre as mortes, internações, as filas pra UTI. Não se fala sobre a vacina, nem daqui, nem da China, Inglaterra… porra nenhuma! Cara, já rolou a vacinação e eu boiei? Ontem tava de bode justamente porque essa porra de vacina ia demorar, ainda mais aqui que não tem plano de vacinação. Mas hoje, parece que tá todo mundo vacinado. Parece que acabou tudo. Que tudo voltou ao normal. Pior: parece que nada aconteceu… Mano, fiquei pirando aqui no que pode estar acontecendo… Semana passada, na clínica social de psicanálise que tô fazendo - aquela de uma galera voluntária que se dispôs a atender quem não tem grana - o cara me falou sobre os sonhos, como eles têm significados, que apresentam coisas pra gente que às vezes a gente não consegue ver quando tá acordado. Mas essas coisas vêm sempre como figuras, alegorias… Ele falou que nunca é exatamente aquilo que a gente sonhou… Aí fiquei pensando aqui. Será que eu sonhei com isso tudo? Quer dizer… Não sei se eu estou sonhando agora, que esse rolê de estar todo mundo sem máscara e não ter notícia sobre a pandemia foi um sonho ou se eu sonhei que a gente tava há 9 meses numa pandemia, trancado em casa, em isolamento social… Mano, isso tá muito bizarro. E o pior é que se isso foi um sonho, foi um pesadelo que durou muito tempo. E foi um sonho muito cheio de detalhe. Em março tinha começado uma pandemia de um vírus que ninguém sabia como combater, um vírus novo. Em vários lugares, fez um baita estrago. Muita gente morrendo, com falta de ar. Mas muita gente nem sentia nada, ou só tinham uns sintomas leves. Mas mesmo assim, esse vírus se espalhava muito rápido. Chegou aqui no Brasil e foi se alastrando… E pra piorar, o governo fazia pouco caso, zombava da parada. Inventava uns remédio nada a ver que não curava a porra da doença, mas geral acreditava. O lance era tão bizarro que teve até troca de ministro da saúde durante a porra da pandemia, como se fosse um bagulho tranquilo… Os cara mentia o número de mortes pra minimizar a parada. Mas tinha um monte de protocolo de segurança, tinha que ficar em casa isolado. Várias paradas pararam de funcionar, galera tendo que trabalhar de casa. Eu mesmo parei de dar aula e tive que fazer as aulas virtuais… Teve uma febre de LIVE que era uma galera fazendo show e palestra pela internet. Não é possível que isso foi um sonho… Parece tão real… Lembro até de uns shows da hora que vi… Teresa Cristina cantando uns sambas… Mas então, aí o bagulho parecia estar melhorando. Os cientistas falavam numa tal de curva e que ela finalmente estava diminuindo. Começou abrir as paradas… Comércio, bar… Aí virou mó desbunde, galera fazendo mó auê nas ruas, churrascão, festa, gente aglomerada… Não deu outra: começou a subir de novo o número de casos da doença e gente morrendo. Tava tenso, porque tinha que sair pra comprar umas paradas e tinha muita gente na rua. Rapaziada nem aí, usando máscara no queixo, se juntando… Depois começaram a falar em vacina. Era tipo uma corrida pela vacina: vários países desenvolvendo tecnologia, pesquisando, fazendo teste. Vacina da China, Inglaterra, Estados Unidos… até Cuba tava fazendo vacina. E aí o governo aqui debochando, falando que a vacina não funcionava… O mundo começou a correr pra se vacinar e nóis aqui tudo parado que nem trouxa…


Ainda gravando, Tiago ficou um tempo em silêncio. Refletia sobre o sonho. Depois, continuou a falar.


- Marcão, que parada é essa? Mano, se foi sonho, como explico isso pro psicanalista? Na real nem sei se eu tava fazendo terapia mesmo. Se pá, isso fazia parte do sonho… Sei lá. Mas mano, me diz aí. Isso tudo aconteceu mesmo ou era sonho? Preciso saber cara! Segunda-feira tenho que dar aula e nem sei se preciso ir pra escola ou se faço a aula pelo Zoom.


Ricardo Normanha é sociólogo e professor.


Apoie a comunicação independente e contra-hegemônica! Contribua com nosso financiamento coletivo e concorra a prêmios no apoia se! https://apoia.se/cliooperaria

122 visualizações
apoie.png