• Celia Regina da Silva

O reino da necessidade e a luta coletiva rumo à liberdade


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No senso comum, a ideia de liberdade geralmente está associada a uma condição em que uma pessoa é vista como alguém livre quando é fiel às suas vontades. O comportamento dos brasileiros e brasileiras em relação ao uso de máscaras durante a pandemia ilustra bem a visão de que “ser livre é fazer o que se tem vontade”, haja vista as inúmeras ocorrências [1] de conflitos por recusa ao uso voluntário do acessório. Então, será que exigir o uso de máscara fere a liberdade individual?

Responder afirmativamente a essa pergunta revela uma visão metafísica de liberdade porque considera que a vontade é algo intrínseco aos indivíduos, e por isso, entende a coletividade como empecilho para que cada pessoa possa exercer plenamente sua liberdade. Sem entrar no âmbito filosófico do debate, buscaremos destacar pressupostos da perspectiva materialista-dialética relacionados à questão da liberdade humana e apresentar elementos para compreensão científica dos processos psicológicos envolvidos no exercício da liberdade pelos indivíduos a partir das contribuições de Vigotski [2].

Se a liberdade está relacionada com a vontade, cabe questionar as origens das vontades individuais e analisar sua relação com o exercício da liberdade humana. Ao investigar o conceito de liberdade na teoria vigotskiana, Toassa (2004) apresenta as análises do autor russo em relação aos experimentos desenvolvidos para investigar o desenvolvimento do comportamento voluntário, os quais sugerem que o estudo do ato de escolher no comportamento humano nos dá pistas para avançarmos em uma compreensão científica em relação ao exercício da liberdade humana.

Por meio da análise desses experimentos, Vigotski (1995) caracteriza as especificidades do comportamento de escolha na atividade humana, diferenciando-o da atividade dos animais. Nesse sentido, o autor destaca que todos os animais reagem aos estímulos do ambiente, voltando-se para aqueles relacionados à satisfação de alguma necessidade, entretanto, é necessário diferenciar as escolhas humanas das reações de outros animais diante de estímulos. Diferentemente do ser humano, os outros animais são reféns de suas necessidades biológicas, pois reagem a estímulos imediatos e tem suas reações determinadas pela relação entre as características do estímulo e a necessidade a ele associada. Por exemplo, se um cachorro faminto tiver diante de si dois tipos de alimento ele vai comer aquele cujas características como cheiro, temperatura etc., lhe forem mais atraentes. O animal não tem ferramenta psicológica para ter sua escolha influenciada pelas propriedades nutricionais ou pelo preço do alimento, não sendo, portanto, capaz de formular motivos para sua escolha devido à ausência de um universo simbólico para mediar sua relação com a realidade.

Nos primeiros meses de vida o bebê humano funciona de modo semelhante. É a palavra que vai retirando, gradativamente, o ser humano da condição de escolha por reação imediata aos estímulos, passando a reações de escolha mediadas por motivos. Por meio da linguagem, o adulto controla a conduta da criança que vai aos poucos internalizando esse controle externo, dialogando consigo mesma em voz alta até transformar a fala egocêntrica em um diálogo completamente interno, de modo que “a pessoa aprende a relacionar-se com sua própria consciência como se fosse outra pessoa” (TOASSA, 2004, p. 6). Ou seja, a nossa “voz interior” é a voz do coletivo ativamente transformada em conteúdo da consciência individual por meio das relações sociais vivenciadas por nós sob determinadas condições de vida, como sugere a famosa frase de Satre: “O que somos é o que fizemos com o que fizeram de nós”, ressaltando que, na perspectiva do materialismo histórico-dialético, “fizeram” não se refere somente às pessoas com as quais interagimos diretamente e sim às relações que mantivemos com toda a produção material e simbólica socialmente acumulada que nos foi possível acessar.

Toassa (2004) pondera que para Vigotski a internalização da linguagem vai aos poucos transformando a luta de estímulos, caracterizada pelas escolhas determinadas por associação simples entre as propriedades dos estímulos e a demanda de quem escolhe; em uma luta de motivos, na qual os significados relacionados à finalidade a ser alcançada por meio da escolha, bem como a antecipação de suas possíveis consequências, se sobrepõe às características imediatamente atrativas dos estímulos em disputa. Para exemplificar podemos retomar a questão do uso voluntário de máscara como uma conduta que pode estar muito mais próxima de um ato individual de exercício de liberdade humana se sua motivação estiver mediada pela reflexão sobre a necessidade humana geral associada a essa escolha, do que a recusa em adotar a proteção pautada na aversão imediata à sensação causada pelo uso do acessório.

A autora segue retomando as críticas de Vigotski ao idealismo cartesiano, a partir do qual pontua-se a liberdade humana como manifestação isenta de determinações, e demonstra que as reflexões que o psicólogo russo desenvolveu sobre o assunto, essencialmente baseadas nas ideias de Engels e Espinoza, associam o exercício da liberdade às possibilidades de exercer o domínio da própria conduta, complexíssimo processo que compõe o desenvolvimento individual, indissociavelmente relacionado com as condições concretas de vida de todos os seres humanos. Para evidenciar a indissociabilidade entre o desenvolvimento psicológico individual e a transformação do modo como a vida humana é produzida e reproduzida na sociedade, Toassa (2004) apresenta um dos mais belos trechos em que Vigotski vincula o desenvolvimento do autodomínio por cada pessoa com o domínio de todas as pessoas em relação à sociedade, situando o lugar a ser ocupado pela ciência psicológica em uma sociedade sem classes:

Sermos donos da verdade sobre a pessoa e da própria pessoa é impossível enquanto a humanidade não for dona da verdade sobre a sociedade e da própria sociedade. Ao contrário, na nova sociedade nossa ciência se encontrará no centro da vida. “O salto do reino da necessidade ao reino da liberdade colocará inevitavelmente a questão do domínio do nosso próprio ser, de subordiná-lo a nós mesmos. (VIGOTSKI, 1996, p. 417 apud TOASSA, 2004, p. 9)

Em síntese, na perspectiva vigotskiana, as vontades individuais têm uma origem social alicerçada no domínio externo do próprio comportamento (TOASSA, 2004). Compreender essa origem social das vontades individuais é a chave para inverter a lógica em relação às visões metafísicas sobre a liberdade humana. É interessante notar que a crítica à contraposição entre as escolhas individuais e o bem-estar coletivo já está presente no texto em que Marx, ainda bem jovem, desenvolve uma breve reflexão sobre escolha profissional:

Mas o guia que deve nos conduzir na escolha de uma profissão é o bem-estar da humanidade e nossa própria perfeição. Não se deve pensar que esses dois interesses possam estar em conflito, que um tenha que destruir o outro, pelo contrário, a natureza humana é constituída de modo que ele apenas pode alcançar sua própria perfeição trabalhando pela perfeição, pelo bem, de seus iguais. (Marx, 1835, s/p). [3]

Portanto, na perspectiva materialista-dialética, o exercício da liberdade individual está diretamente relacionado com o grau de consciência das circunstâncias envolvidas nas escolhas, as quais se constituem nas relações em que o indivíduo se encontra inserido. Entretanto, na sociedade capitalista até mesmo o mais livre dos indivíduos exerce um grau de liberdade extremamente limitado, pois a luta entre classes antagônicas prende exploradores e explorados ao reino de necessidades alheias ao domínio de si próprio e da sociedade. O motivo atribuído pelos indivíduos a boa parte das atividades que realizam não está vinculado aos resultados que essas atividades produzem para a sociedade, e sim, somente ao efeito imediatamente alcançado por quem as realizou.

Essa cisão entre atividade, motivo e resultado extrapola a atividade produtiva, generalizando-se para o conjunto das “escolhas” do sujeito como um padrão de conduta. Assim, como propõe Toassa (2004) em muitas situações, o que realizamos são “falsas escolhas” visto que aos explorados resta o predomínio de atividades motivadas pela garantia da sobrevivência: “[...] a “falsa escolha” colocada é entre morrer ou viver explorado” (p.8); e os exploradores, por sua vez, também são reféns de atividades centralmente motivadas pela manutenção de sua posição nas relações sociais. Entretanto, não se trata de responder se somos livres ou não nessa sociedade; e sim de analisar as possibilidades que cada pessoa tem de exercer o máximo grau de liberdade viável, tomando consciência das determinações que caracterizam as circunstâncias em que se encontra e abandonando, completamente, as ilusões sobre a origem das vontades individuais, pois “[...] perde-se a ilusão do livre arbítrio quando se analisa o determinismo da vontade, sua dependência dos motivos” (p.7).

É inegável que as possibilidades de exercer a liberdade individual são diretamente proporcionais à diversidade de opções disponíveis a cada escolha, o que coloca em situação vantajosa aqueles que vivem em melhores condições. No entanto, como vimos, o exercício da liberdade individual não se reduz à quantidade de estímulos entre os quais se pode escolher, de outro modo, associa-se ao conteúdo que orienta a intenção da escolha, à capacidade de identificar os efeitos da escolha fora da situação imediata, na totalidade nas relações sociais. Assim, a luta pela liberdade humana é uma luta coletiva e nenhum de nós será plenamente livre enquanto um único ser humano viver sob exploração de outro.

Notas:

[1] https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/09/16/bolsonaro-e-socio-dos-atos-de-violencia-de-quem-e-cobrado-a-usar-mascara.htm

[2] Autor bielo-russo que, juntamente com seus colaboradores, formula uma psicologia fundamentada na perspectiva do materialismo histórico-dialético. Considerando-se as diversas formas de escrita do seu nome (Vygotsky, Vigotsky, Vigotskii, Vigotski…) devido a especificidades das formas de transposição do alfabeto russo para as letras do alfabeto nas diferentes línguas, optamos pelo uso da escrita “Vigotski” por ser a forma mais coerente com o alfabeto da língua Portuguesa.

[3] https://www.marxists.org/portugues/marx/1835/08/16.htm


Referências bibliográficas

TOASSA, Gisele. Conceito de liberdade em Vigotski. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 24, n. 3, p. 2-11, set.  2004.   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932004000300002&lng=pt&nrm=iso>.

VIGOTSKI, Lev Semionovitch. História do Desenvolvimento das Funções Psíquicas Superiores. In: Obras Escogidas III. Madri: Visor Distribuiciones, 1995.

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Célia Regina da Silva é psicóloga, professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Atua como militante no Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro (Uberlândia) e na Unidade Classista (fração ANDES). Compõe o grupo de colunistas da Clio Operária com publicações mensais.

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