O rei adoecido e o principado dos fardados


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Aos novos governantes é fundamentalmente importante entender a tradição dentro das relações políticas, econômicas, sociais e culturais. É salutar a maior facilidade em encontrar condições para estabelecer legitimidade, já que a força, o poder da coerção, em linguajar gramsciano não faz o bastante. Entender e não romper de maneira drástica com as tradições é fundamental, não apenas para um governo em si, mas também para criar formas necessárias para contemporizar estratégias diante das questões emergentes de cada tempo.


Um novo predador na história do bando não se faz alfa destruindo o bando e pisando na sua história, portanto, governar também está profundamente ligado a prática de amizades oportunas, aliás, se a tradição política é parte fundamental do exercício do poder, ela não poderia se efetivar sem as diferentes forças que compõem as relações dessas tradições. As novas forças podem emergir com toda a energia, mas se faz um erro, a nível de manutenção da normalidade política, se confrontar com as forças já estabelecidas em uma bravata orgulhosa.


Virtuosamente, do alto do método na loucura, Bolsonaro fez uma bagunça inigualável no equilíbrio dessas relações, colocando até mesmo a sua legitimidade da ordem da guilhotina deformada do dia. Ao aglutinar em torno de si, representantes das mais poderosas e expressivas das forças do establishment brasileiro, concentrou, para além das promessas abstratas, as abatidas e diagnosticadas massas, expectativas em uma disputa grandiosa de pautas dentro de um projeto maior.


A falta de rigor e respeito ao tradicionalismo da política nacional, estabeleceu as sínteses das suas elucidações com base na loucura, no grito, como o discurso eloquente da interminável posse da fraude como o que há de concreto na prática saudosista dos passados superados.


Mas que já mais fuja as mentes mais próximas de lucidez – tudo se trata das viabilidades e construções de possibilidade para a aplicação de um projeto de mundo, no qual Bolsonaro, por mais que seja como a figura de um rei infantil sentado sobre uma cadeira enorme, com conselheiros anciões a todo vigor o rodeado, é só um detalhe, talvez uma estratégia ou um acidente de percurso.


Uma vez feitas as amizades oportunas, a questão é garantir o estreitamento mutuo dos laços, ou numa visão weberiana, a correta correlações de forças em busca do acordo no qual a parte mais fraca ha de ceder, mas quando a loucura da teto ao método, como jogar um jogo já completamente regrado?


A falta de habilidade ou estratégia para negociar pelos próprios interesses e dos amigos oportunos – uma vez que os interesses dos segundos são fundamentais para legitimar uma parte do governo – gera incertezas e angústias nas estruturas mais antigas dos pilares nacionais. A batalha para o curso do projeto, (e não pelo tipo de projeto) travada com o congresso nacional, com Rodrigo Maia e as velhas tartarugas da classe dominante brasileira - tartarugas, pois como na fábula, a velocidade não importa, uma vez que estão certos da vitória e conhecem bem o caminho – gera conturbações nas forças dos laços dessas amizades.


O confronto da guerra, segundo Maquiavel, nunca deve ser impedido porque uma guerra somente é adiada, e quem é o responsável por isso só gera desvantagens para si mesmo. Quando a guerra já é perdida antes do confronto, só existe a possibilidade da negociação ou da derrota. O governante que, a nível da política burguesa conservadora, busca as condições de legitimidade somente nas frações do povo que o apoiam e se vira as forças da tradição, está fadado ao fracasso. Sobretudo, quando a respostas do povo é irrisória.


Inevitavelmente, agora, o rei que adoece, busca revitalizar a amizades sem questionar mais o seu poder. Busca se firmar nas traições, nos cargos, ministérios, demissões e emendas parlamentares. Procurando se recolocar em seu lugar de acidente necessário ao percurso, pois sabe que tudo isso se trata da viabilidade ou não da aplicação de um projeto de mundo, sobretudo econômico, do qual, a cada dia, se torna cada vez mais dispensável.


Da terra arrasada nascem as flores e plantas radioativas. O que o rei em falência de corpo biológico não entende é que, apesar do seu espirito bonapartista, ele é aquele cercado de generais napoleônicos com pretensões imperiais. Ele até mesmo pode ter achado que um dia foi o rei escolhido pelo império para cuidar de um dos seus domínios. Em sua cegueira adoecida, mal conseguiu notar que era ele mesmo, o cavalo branco.


As negociações, os diálogos, as entrevistas e recepções para jornalistas não vieram dos ternos, gravatas e broches. Vieram das fardas, fuzis e coturnos. Foram os príncipes camuflados que preservaram as amizades oportunas, que agiram com respeito e astúcia diante das tradições políticas e as suas forças, e que exerceram o papeis de chás e cafés em fronteiras.


Foram os generais napoleônicos e seus soldados que souberam, como ninguém, se aproveitar do extermínio simbólico da linhagem política dos antigos governantes através da desarticulação da sua força política, o que evitou qualquer incômodo com possíveis oposições que nunca se formaram de fato.


Aqueles que usam fardas e que conseguiram se estabelecer concretamente enquanto alternativa, além de passaram a chancelar completamente a política institucional, reestabeleceram as amizades oportunas se tornando eles mesmos as mais oportunos possíveis para todos os cenários possíveis, desenhados para a ordem burguesa e a viabilidade de aplicação do projeto econômico.


O pequeno rei, com doença em estágio avançado, deixou a corte pegar fogo com seus membros dentro. Acreditou fielmente que venceria estabelecendo os servidores da sua vontade ao redor do reino, mas quem se cerca dos mais virtuosos do que a si mesmo, cumpre o intragável destino de ser a farsa contra-atacada pela tragédia.


O mais peculiar é que o principado fardado se trata de um Estado que reconhece e reforça a sua submissão a um outro império, um verdadeiro império, uma das maiores preocupações de Maquiavel – o estrangeiro altamente poderoso.


Vinicius Souza é historiador e Professor de História, pós graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira - SP.

Referências

MACHIAVELLI, N. O príncipe; comentado por Napoleão Bonaparte; tradução de Torrieri Guimarães [e Extratos dos Discursos de Tito Lívio; comentados por Napoleão Bonaparte; tradução de Márcio Pugliesi]. São Paulo: Hemus, 1977.

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