• Leonardo Segura Moraes

O que são crises econômicas e por que ocorrem?

Atualizado: Ago 25

As crises econômicas cada vez mais parecem fenômenos permanentes nas sociedades modernas. É difícil ligar a televisão, acessar redes sociais, ler jornais ou revistas sem se deparar com o assunto das crises, suas causas e implicações.

De maneira geral, o fenômeno das crises econômicas são períodos mais ou menos prolongados de adversidades na esfera da produção e/ou circulação material da vida, cujas implicações afetam o sistema de decisões políticas nas realidades sociais onde são experienciadas. Nesse sentido, uma série de interpretações sobre suas causas e soluções têm sido aventadas, assim como análises das consequências sociais desses períodos. Mas antes de adentrarmos nas explicações contemporâneas, é preciso compreender melhor o que se quer dizer com a expressão “crise econômica”.

Em primeiro lugar, não se trata de um fenômeno exclusivo da modernidade, ainda que a partir dela as crises adquiriram nuances inéditas na história humana. Em tempos antigos, nos quais apenas uma pequena parte do produto social assumia a forma de mercadoria, nossos antepassados também enfrentaram situações de fomes generalizadas, epidemias e destruições produtivas no decorrer de guerras ou pilhagens que acarretaram severas consequências econômicas. Até mesmo insolvências financeiras são relatadas, como nos casos dos distúrbios na Roma Antiga em 89 a.C. e em 33 d.C. [1]

Contudo, a despeito da existência na Antiguidade de instrumentos bancários e financeiros atrelados em alguma medida à produção e ao comércio, tanto o grau de desenvolvimento das forças produtivas quanto a natureza das relações sociais de produção e distribuição eram outros. Por isso, embora problemas aparentemente semelhantes aos que observamos nas modernas crises econômicas figurassem, por exemplo, ao longo do processo de queda do Império Romano do Ocidente (395 d.C. – 476 d.C.), eles não constituem os mecanismos causais do processo em questão.

De acordo com os vestígios disponíveis, mudanças climáticas e ambientais – entre as quais, secas, atividades vulcânicas, degradação do solo, etc. – provavelmente estão por trás de transformações sociais de grande magnitude há pelo menos 12 mil anos atrás. Por meio delas, migrações de populações inteiras e a derrocada de até então poderosas entidades políticas do passado – como o Império Acádio, na Mesopotâmia asiática entre 2.199 a.C. e 2.119 a.C., e Tiwanaku, na atual Bolívia por volta do ano 1.000 d.C. – configuram alguns efeitos de crises na Antiguidade [2].

Além dessas, deve-se levar em conta as revoluções tecnológicas que alteram profundamente os termos da ação humana sobre a natureza desdobrando distintos processos civilizatórios [3]. Crises desse tipo parem estar associadas ao período conhecido como Colapso da Idade do Bronze, entre 1.200 a.C. e 1.150 a.C., quando ocorreram uma série de transformações políticas e sociais abrangendo áreas atuais do Egito, Turquia, Israel, Grécia, entre outros vizinhos, ao mesmo tempo que a revolução metalúrgica do ferro se difundia pela região e alterava os termos da guerra e do comércio.

Em segundo lugar, com o aprofundamento do desenvolvimento capitalista em escala mundial a partir do século XVI, promoveu-se progressivamente relativa autonomização da instância econômica sobre a vida social, que pode ser visto como a passagem de uma economia moral para uma economia de mercado. Não se trata, evidentemente, de mera alteração das ideias, mas a expressão de processos reais.

A acumulação primitiva do capital, com seus pares constituintes, colonialismo e escravismo, criou as bases para o mercado mundial de mercadorias e estruturou o modo de produção capitalista. Sua distinção em relação aos anteriores diz respeito à produção de mercadorias ser o caráter dominante e determinante do produto social, assim como a criação e apropriação do mais-valor ser objetivo da produção [4]. Desse modo, a relativa autonomização da economia não é neutra, pois na verdade ela se sobrepõe às demais instâncias da vida social se tornando a reguladora geral da sociedade.

Assim começam a se apresentar as nuances inéditas das modernas crises econômicas que vivenciamos. A crescente mercantilização da terra, do trabalho e do dinheiro vai forjando novas relações sociais de produção e distribuição, bem como sistemas de governo e governança adequados a tais processos. Mudanças climáticas e ambientais, assim como revoluções tecnológicas, continuam impactando sobre as dinâmicas econômicas concretas, porém as primeiras foram paulatinamente cedendo espaço para novas causas que afetariam a produção e circulação material da vida social de maneira decisiva.

Um modo de produção configura não só uma forma de produzir e distribuir socialmente o produto, mas fundamentalmente sua própria reprodução sistêmica. As crises são oriundas de dificuldades prolongadas ou falhas na reprodução do sistema político-econômico. Nesse sentido, a estrutura das relações sociais no capitalismo é elemento central para compreendermos não só o papel das crises, mas também em que medida elas se diferenciam dos modos de produção anteriores.

A especificidade do modo de produção capitalista reside na separação entre quem trabalha e a propriedade dos meios e condições para realizar tal trabalho. O estabelecimento da relação capitalista diz respeito a afirmação histórica e dominante da propriedade privada, tornando livres de coerção extraeconômica tanto a força de trabalho quanto a posse da porção de terra na qual se executa trabalho, além da parte da riqueza social que se configura sob a forma-dinheiro para a circulação de mercadorias.

Como no capitalismo a produção se dá fundamentalmente por meio de agentes privados que negociam contratualmente entre si, observa-se que em cada momento do processo que vai do adiantamento de capital até seu retorno valorizado, podem ocorrer entraves ou paralisações que afetam o tempo desse percurso. Aqui também se pode perceber como a produção capitalista é um processo inerentemente conflituoso devido aos vários interesses particulares em jogo.

Desçamos ao concreto para ver como isso se processa. Um empreendedor que queira colocar para funcionar sua fábrica de cervejas artesanais, por exemplo, deve antes de qualquer ato dispor de capital para os investimentos necessários. O mesmo vale para a produção capitalista de qualquer mercadoria, seja roupas, veículos, alimentos ou máquinas. Ou o empreendedor possui capital ou ele o toma emprestado com algum agente financeiro de mercado (bancos, fintechs, etc.), como aliás é o que geralmente ocorre.

Em posse de tais recursos, nosso empreendedor deve contratar força de trabalho, comprar máquinas, equipamentos e insumos necessários à produção de sua mercadoria. A transformação combinada envolvendo força de trabalho, tanques de fermentação, máquinas, água, cevada, lúpulo e outros insumos necessários cria algo novo: a cerveja artesanal, cuja venda possibilita ao empreendedor o retorno com algum lucro do dinheiro empenhado na produção.

A reprodução desse processo implica sua repetição cíclica, ao passo que a impossibilidade da reprodução evidencia crises. Salários mais elevados devido ao baixo desemprego ou por pressão de movimentos grevistas de trabalhadores organizados, bem como a dificuldade de acesso a meios e insumos de produção, assim como crédito, passando por problemas logísticos e nas vendas ou na esfera da produção, podem acarretar dificuldades na reprodução cíclica do conjunto dos capitais individuais.

Porém, vale lembrar que os entraves que afetam a realização da produção se originam das próprias contradições inerentes ao capitalismo. Por meio da concorrência, que é o mecanismo interno de funcionamento do modo de produção capitalista, expressam-se interesses econômicos antagônicos não só entre as classes sociais, mas também intraclasses. A concorrência é como uma guerra permanente pela existência nas modernas sociedades burguesas. Como observou Friedrich Engels:


Os operários concorrem entre si tal como os burgueses. O tecelão que opera um tear mecânico concorre com o tecelão manual; o tecelão manual desempregado ou mal pago concorre com aquele que está empregado ou é mais bem pago e procura substituí-lo. [5].

Não por acaso o número de crises econômicas se avoluma à medida que o desenvolvimento capitalista foi se afirmando historicamente como modo de produção dominante. A título de ilustração, considerando as crises detonadas por problemas cambiais ou de dívida entre os países da América Latina no período entre 1828 e 2003, calcula-se uma soma total de 940 crises econômicas. [6].

Porém, se entre 1828-1939 (111 anos) o número somado de crises econômicas na América Latina foi de 471, entre 1957-2003 (46 anos) essa soma correspondeu a 469 crises contabilizadas. Ainda que em termos absolutos a quantidade de crises tenha sido menor, claramente a proporção de crises econômicas se intensificou a partir da segunda metade do século XX.

A concorrência no capitalismo não é uma escolha livre. Consiste no imperativo para existência individual nas sociedades de mercado. Faz-se presente desde a escola básica, passando pelos exames de seleção (vestibular, concursos, entrevistas de emprego, etc.), ou quando se fazem análises de mercado para estabelecimento de empresas. A todo tempo a concorrência capitalista impõe a disputa econômica como modo de vida social.

Do ponto de vista da produção capitalista, a concorrência implica competitividade no mercado como condição necessária para manutenção do negócio. Isso significa que é preciso permanentes ações visando redução de custos para conseguir produzir a preço menor e assim expandir a fatia de mercado auferida. Para tanto, quem empreende deve potencializar a força produtiva de sua empresa, onde revela-se a natureza contraditória inerente na relação capital-trabalho.

A potencialização da força produtiva de uma empresa se dá por meio de melhorias tanto nos processos de trabalho quanto de valorização da mercadoria produzida ou serviço prestado. Isto é, através de aumento no tempo de trabalho ou na intensidade do trabalho. Não é à toa que historicamente a luta pela redução da jornada de trabalho sempre esteve presente entre as reivindicações sindicais, como também tem sido crescente o desenvolvimento de inovações tecnológicas que reduzam o tempo de produção individual das mercadorias, assim como a quantidade de trabalhadores diretos necessários.

Nota-se, portanto, que nas crises capitalistas a escassez não é uma de suas causas, mas um possível sintoma localizado que expressa em determinado contexto as consequências latentes da concorrência capitalista. Por isso, uma seca ou geada mais acentuada e prolongada do que o esperado, por exemplo, impactará negativamente sobre a produção de alimentos numa região, mas é bastante improvável que resulte em ondas migratórias que acarretem guerras ou pilhagens. Também dificilmente será o caso de criar fomes generalizadas, que assim como a pobreza ainda persistem e pouco tem a ver com capacidade de oferta alimentar das economias [7].

Isso nos leva ao aspecto político das crises no capitalismo e que não se resume ao conflito distributivo em torno da realização da produção. Diz respeito aos efeitos da tendência geral do desenvolvimento capitalista para a centralização e concentração de capitais, a qual por meio da dinâmica concorrencial promove tanto propagação desigual do progresso técnico entre regiões quanto desemprego tecnológico.

Ambos efeitos acirram as contradições desse desenvolvimento e incidem sobre os sistemas de decisão política em cada espaço geográfico envolvido. Por um lado, a propagação desigual do progresso técnico ao encadear os ramos da produção no mercado mundial, o faz configurando uma divisão internacional do trabalho hierarquizada entre regiões que determina os termos gerais da correlação de forças políticas em âmbito local. Por outro, o desemprego tecnológico além de atuar no sentido de diminuir os salários, também contribui para desorganização da classe trabalhadora afetando o poder de barganha de quem necessita vender sua força de trabalho para subsistir.

Por isso, situações de crises econômicas envolvem aspectos políticos e condicionantes histórico-estruturais que a mera análise de oferta e demanda por si só é incapaz de revelar. Na verdade, ela muitas vezes acaba atuando no encobrimento de suas causas reais à medida que naturaliza e eterniza as vigentes relações sociais de produção e distribuição material da vida, que de naturais e eternas a história nos mostra que nada tem.

Leonardo Segura Moraes é economista, pesquisador e professor no Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Escreve na Clio Operária mensalmente às terças-feiras


Referências

[1] Deivid Valério Gaia. Profissionais das finanças na Antiguidade romana: os faeneratores no final da República e no início do Império. História Unisinos, vol. 22, n. 4, São Leopoldo, 2018.

[2] Peter de Menocal. Cultural responses to climate change during the Late Holocene. Science, vol. 292, n. 5517, 27/04/2001. Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/292/5517/667.

[3] Darcy Ribeiro. O processo civilizatório. Ed. Vozes, 9ª edição, Petrópolis, 1987.

[4] Karl Marx. O Capital. Ed. Boitempo, livro III, São Paulo, 2017, p. 941-942.

[5] Friedrich Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Ed. Boitempo, São Paulo, 2010, p. 117-118.

[6] Luis Bértola; José Antonio Ocampo. El desarrollo económico de América Latina desde la Independencia. Fondo de Cultura Económica, México D.F, 2013, p. 36-37.

[7] Amartya Sen. Poverty and famines: an essay on entitlement and deprivation. Oxford University Press, 1981.

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