• Clio Operária

O que podemos aprender com o pan-africanismo de Abdias Nascimento?

Vinicius Souza*



O símbolo do quilombismo criado por Abdias Nascimento.

Para que fique claro, esse texto se baseia na leitura que eu estou fazendo do clássico O quilombismo do militante negro brasileiro Abdias Nascimento. É uma leitura em andamento, mas vi a necessidade de pontuar algumas coisas ao longo desse processo. Abdias não era socialista, muito menos marxista. Possuía diversas noções problemáticas, o que não anula as suas contribuições. Possuía tendências extremamente complicadas e pós-modernas, como a velha máxima do “não sou socialista e nem capitalista”, mas frente ao cenário extremamente confuso sobre o que é de fato pan-africanismo e em um momento em que no país se tenta importar um pan-africanismo que é, por vezes, reacionário e totalmente oriundo dos Estados Unidos.


Muitos que se dizem pan-africanistas por aí, estão mais para algo como afrocentristas, quase sempre segregacionistas. Defendem a ideia de que não importa o cenário político, pois ele nada tem a ver com as pessoas negras e elas devem se organizar para além de tudo isso e focar em outras coisas. O que vai em contraponto à teoria do quilombismo de Abdias, que enxerga na participação política uma efetiva e ativa forma de combate ao racismo e uma necessidade de luta. Abdias busca contribuir, através do pan-africanismo, para a luta internacional das pessoas negras, mas sem se furtar ao fato de que a questão racial em cada contexto específico é uma questão nacional, nesse sentido a luta política é essencial:

Nesse contexto, sobressai a plena consciência do negro de que somente poderá ter um futuro quando houve a transformação de toda a estrutura do país, em todos os seus níveis: na economia, na sociedade, na cultura, política. O povo afro-brasileiro também sabe que sua participação em todos os degraus do poder é um imperativo de sua sobrevivência coletiva — como um povo, uma nação. (NASCIMENTO, 2019, p. 42)

Nesse sentido, a luta contra o racismo, a dominação racial, não é, como defendem aqueles que tentam desvirtuar o pan-africanismo de maneira reacionária, uma luta pela construção abstrata de um isolamento dentro do país, mas sim uma luta pela construção de um projeto de país que inclui a superação da racialização através da luta política efetiva da população negra que busca, como aponta Abdias, a transformação das estruturas que compõem o Brasil.


A luta negra no Brasil, nesses termos, não poderia ser uma cópia da luta contra o racismo nos Estados Unidos, Abdias continua:

De nossa perspectiva, no que se refere a certos objetivos, a luta do negro brasileiro difere da luta de seus irmãos afro-norte-americanos. […] nos Estados Unidos ele é uma minoria rodeada pela sociedade majoritária branca racista. No Brasil, debaixo de variadas gradações de cor epidérmica, somamos a maioria absoluta do povo brasileiro. (NASCIMENTO, p. 42)

A importância de se pensar o contexto do desenvolvimento histórico da luta do povo negro em cada país é fundamental, pois o próprio conceito de raça é historicamente determinado e está ligado a desenvolvimentos específicos das relações sócio-históricas de cada território nacional. Se nos Estados Unidos a segregação racial possuiu base e legitimação jurídica depois da abolição da escravidão e a população negra esteve sob o domínio de uma maioria branca que executava (e executa) o racismo de maneira explicita, o Brasil é bem diferente, sendo que aqui prevaleceu o mito da democracia racial, a total normalização das relações racializadas e da dominação e segregação do negro como fatores normais a identidade e jeito de ser social dos brasileiros:

A classe dominante no Brasil procede como uma antecipação dos ensinamentos de Goebbels, o famoso ideólogo do Terceiro Reich, de que a mentira, sustentada insistente e reiteradamente, é capaz de criar uma nova verdade; em contrapartida, a verdade passa a ser a mentira verdadeira. (ABDIAS, 2019, p 45)

Outra noção problemática do pan-africanismo que tentam trazer para o Brasil, é a noção do projeto de mundo para a população negra com base no capitalismo corporativo, comuns a Marcus Garvey e a Nação do Islã, onde uma das formas de combate ao racismo seria a população negra construir uma economia de mercado forte e global para não mais depender do consumo de produtos das empresas de pessoas brancas.


Essa ideia absurda ganhou grande força dos Estados Unidos e tentam força-la em terras brasileiras e por mais absurdo que seja, é um problema com o qual temos de nos defrontar. Enxergar na reafirmação e prática de valores da sociedade liberal capitalista na ordem burguesa é naturalizar como características universais os problemas do mundo.


Abdias — apesar de problemático nesse sentido, por sustentar propostas com graves imprecisões históricas e até mesmo certa visão essencialista — coloca como essencial a crítica a propriedade privada dos meios de produção e o combate efetivo a sociedade capitalista, gerando uma ruptura e a construção de uma nova sociedade que seria o Estado Nacional Quilombista:

Para a institucionalização do poder com base na autodeterminação da população afro-brasileira, temos o exemplo inspirador do Quilombo dos Palmares. Isso significaria a doação da estrutura progressista comunalismo tradicional da África, cuja longa experiência demonstrou que em seu seio não há lugar para exploradores e explorados. (NASCIMENTO, 2019, p. 47)

O quilombismo, ou seja, o projeto de libertação negra de Abdias, passa necessariamente pela tomada do poder e o fim do capitalismo dentre as suas ações. É claro que os problemas de Abdias em sua formulação teórica não podem ser ignorados, principalmente sua visão estratégica do processo de libertação, sua visão do socialismo e a sua noção de história.


Muitos militantes negros revolucionários, tais como Frantz Fanon, Kwame N’krumah, os panteras negras, Angela Davis, Clóvis Moura — que inclusive possui uma visão revolucionária do que seria o quilombismo, diferente da de Abdias — deixaram claro e pontuado a necessidade do marxismo enquanto ciência revolucionária do povo negro do mundo.


Contudo, o estudo desse quadro histórico do movimento negro é essencial para entender que existe mais de uma noção de pan-africanismo, inclusive algumas formuladas no Brasil, e que o conceito não se resume as perspectivas reacionárias que tentam importar a todo custo ao Brasil. Abdias nos ensina a necessidade da luta política, da tomada do poder, de se pensar as nossas próprias questões históricas e nacionais e ter um projeto de mundo, necessariamente, anticapitalista.


*Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve no perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.


Referências


NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. São Paulo: Editora Perspectiva; Rio de Janeiro: Ipeafro, 2019.

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