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O que é uma análise materialista histórica e dialética do racismo?

Vinicius Souza*


O que é o racismo, afinal? Muitos respondem a essa pergunta afirmando coisas como discriminação com base na cor, cabelo e fenótipo, já outros diriam que é uma forma de segregar na qual um grupo mantém dominação sobre o outro. Tudo isso está certo, mas pensando de maneira mais profunda, pegando em suas raízes históricas e suas articulações essenciais, o racismo é um complexo social onde um grupo étnico mantém dominação sobre outro para a sua exploração. Racismo existe essencialmente para a exploração da mão de obra de povos inteiros.


O racismo moderno, tal como o conhecemos, surgiu com a colonização do século XV, quando na necessidade de novas terras e de mão de obra barata para sustentar as necessidades de super produção e lucro do sistema econômico que estava nascendo na Europa, Portugal e Espanha foram precursores na expansão além-mar. Esse fase ficou conhecida como fase de acúmulo primitivo do capital. Povos inteiros escravizados e suas terras saqueadas para produção massiva e desumana e exportação para o consumo europeu.


O que estou querendo dizer é que o racismo é nada mais do que uma ferramenta criada pelo desenvolvimento econômicas e histórico do capitalismo para gerar mão de obra superexplorada transformando povos inteiros em escravos e em trabalhadores na lógica capitalista. O racismo é um mal que veio ao mundo para e com o capitalismo e para realizar a sua manutenção. Todas as outras formas que o racismo em suas diversas faces, tais como interiorização cultural e religiosa, existem para fazer a manutenção da primeira e essencial de suas formas: exploração.


Como já apontou Frantz Fanon[1], a inferiorização dos símbolos culturais e maneiras de ver e sentir o mundo o mundo da cultura negra, existem necessariamente para a exploração do povo negro, destruindo as suas percepções de si e do mundo, conforme Fanon, fica mais fácil a efetivação da dominação para a exploração. Isto é eliminar ou assimilar determinada cultural em detrimento de um cultura dominante que colocaria como algo socialmente normal a desumanização e exploração de determinado grupo ou povo.


Por essa perspectiva, reforça-se o que disse Kwame Ture[2], raça seria, então, uma categoria de classe por si só. Se aprofundando por essa linha e com base na origem do racismo no processo de acumulação primitiva do capital, raça é um outro nome para classe trabalhadora, mas não como tradicionalmente funciona a classe trabalhadora dos países capitalistas que eram camponeses que passaram pelo êxodo rural e processo de proletarização. Raça é uma intensificação profunda do conceito de classe e da exploração da mão de obra, sendo assim, racismo é a manutenção desta ideia, racismo é uma forma de manter povos inteiros não-brancos como uma mão de obra superexplorada para a manutenção do capitalismo em suas diferentes fases e a serviço do seu desenvolvimento.


Então quando Fred Hampton[3], dizia em seus discursos incendiários que o Partido dos Panteras Negras[4] tem uma análise materialista dialética, que analisa a situação do povo negro e dos povos oprimidos do mundo por vias do materialismo histórico dialético, está falando de análise de caráter revolucionário que reconhece o papel histórico que o conceito de raça tem e como ele coloca em movimento nas dinâmicas do mundo do capital. Essa perspectiva reconhece o capitalismo enquanto o problema central da questão racial, sendo que o racismo é criado essencialmente para a manutenção da sua existência. Por fim, então, a queda do capitalismo e a revolução socialista são as únicas formas de por fim a opressão do povo negro no mundo. O marxismo sendo a antítese histórica mais completa ao capitalismo, seria ele, então, a ciência revolucionária para a libertação do povo negro.


*Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve no perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.


[1] Frantz Omar Fanon foi um revolucionário, filósofo e psiquiatra de origem na Martinica, esteve profundamente presente na Revolução Argelina, sendo um dos seus mais importantes teóricos e membro ativo. Foi extremamente importante para o desenvolvimento de uma perspectiva marxista antirracista e por criar conceitos fundamentais da Revolução Africana.


[2] Kwame Ture (originalmente Stokely Carmichael) foi um revolucionário Pan-Africanista e socialista dos Estados Unidos, responsável pela criação do conceito de Black Power enquanto uma ideologia política de libertação negra. Atuou em organizações no movimento por direitos civis nos Estados Unidos, fez parte do Partido dos Panteras Negras e depois partiu para a África onde na Guiné, atuou no Partido Revolucionário de Todo o Povo da África.


[3] Fred Hampton foi um revolucionário marxista e um dos principais líderes do Partido dos Panteras Negras, amplamente conhecido por seus discursos radicais e anticapitalista, pela incitação a revolução armada e pelo forte trabalho de base na organização da classe trabalhadora negra nos Estados Unidos.


[4] Partido dos Panteras Negras foi um partido negro de inspiração marxista-leninista com fortes características maoístas, fundado em 1966, nos Estados Unidos, por Huey P. Newton e Bobby Seale. O Partido pregava além da revolução proletária, o direito dos negros de se defenderem e determinarem o próprio destino, chegando a ganhar nível internacional e ser fortemente atacado pela CIA e FBI.


Referências


Antologia: Volume I Partido dos Panteras Negras . São Paulo: Edições Nova Cultura, 2018.


FAUSTINO, Deivison Mendes. Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro . 1º ed. São Paulo: Ciclo Editorial Continuo, 2018.


NKRUMAH, Kwame. Luta de Classes na África. 2º Ed. São Paulo: Edições Nova Cultura, 2017.

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