O que é e como surgiu o método marxista?



1. Método marxista: revolucionário e atemporal

"o homem precisa, em primeiro lugar, comer, beber, ter um tento e vestir-se antes de fazer política, ciência, arte religião. A correspondente face econômica do desenvolvimento é a base a partir da qual se desenvolvem as instituições políticas, concepções jurídicas, ideias artísticas e religiosas(…). Para Marx, a ciência era uma força motriz histórica, uma força revolucionária" (Discurso de Engels na lápide de Marx)


Não é exagero dizer que Marx foi o pai tanto do método mais usado nas ciências sociais até hoje, quanto das ideias políticas que revolucionaram completamente as lutas e movimentos de esquerda. O socialismo pré-marxista era muito diferente do que estamos acostumados a entender por socialismo hoje: era um movimento formado por homens da elite, com interesses filantrópicos, com uma base teórica idealista e utópica, e muito baseados na teologia cristã. Com suas diversas obras, Marx trouxe a análise científica da sociedade burguesa para dentro dos partidos comunistas e socialistas. Ele propôs que a luta deveria basear-se nos fundamentos materiais da sociedade, e não se resumir a discussões morais ou de caridade com os pobres. Era urgente que o movimento socialista e comunista começasse a desenvolver uma análise de como o sistema econômico e todas as relações de produção da materialidade da vida são os próprios produtores da pobreza, sistematicamente e de forma ininterrupta, e portanto são a base da exploração dos trabalhadores, e, assim, parar de ver a pobreza como um infortúnio do acaso.


Apesar de toda sua formação na filosofia clássica alemã, na economia política inglesa e na historiografia francesa, Marx dedicou a maior parte da sua vida aos escritos políticos do partido comunista e a criação de material para os operários, e menos a uma vida acadêmica. Mesmo assim, o nível de refinamento da sua metodologia e a robustez de sua teoria o fizeram um dos pais da sociologia, e revolucionaram também o modo como as ciências sociais produzem pesquisa científica.


Dá pra ver como é indispensável conhecer o Marx, não é mesmo? Mas é importante sabermos de uma coisa: Marx não partiu do zero. É interessante saber quais foram as bases que o ajudaram a construir seu método, quais as críticas que ele tinha aos pensadores de sua época. Conhecer essas bases, presentes em obras de sua juventude, nos ajuda também a entender os escritos de sua fase madura, como o Capital. Neste texto, vou resumir quais são essas bases. Para isso, vamos entender os pontos principais de três obras da juventude de Marx: Os Manuscritos Econômico Filosóficos; A Miséria da Filosofia; e a Ideologia Alemã. Neles, Marx desenvolve uma crítica aos principais pensadores cujos trabalhos foram base de seus estudos para o Capital e demais obras da sua maturidade. Eles são: Hegel, Proudhon, Smith, Ricardo e Feuerbach.


2. Materialismo histórico dialético

O marxismo é resultado de um tripé teórico que foi sintetizado por Marx a partir de novas relações que ele foi estabelecendo entre os conceitos e métodos dos filósofos mencionados. Este tripé é formado pela historiografia francesa, pela dialética hegeliana e pela economia política inglesa. De cada uma dessas escolas teóricas, Marx herdou e ressignificou conceitos centrais, como de classes, valor-trabalho, materialismo, dialética, e mobilizou todos esses conceitos para a análise da história do modo de produção da vida humana, buscando as causas históricas e materiais por trás do movimento dialético presente na luta de classes e na infraestrutura e superestrutura.

3. A dialética hegeliana

Dialética em Hegel nada mais é do que uma contradição metafísica e lógica, ou seja, uma contradição que acontece no mundo das ideias. Hegel em seus trabalhos partia da noção de busca de uma unidade, ou seja, uma verdade que explicasse todo o caos do mundo. Hegel trabalhava com uma ciência da lógica a partir de universais abstratos que não tinham base histórica, eram simplesmente abstrações que serviam para compreender a essência do pensamento humano. Com o pensar progressivo, para Hegel, é possível chegar a uma unidade especulativa que abrange todas as pressuposições da realidade humana. O que está por fora, a aparência, é a de caos, porém a identidade e a essência, que devem ser buscadas pela reflexão lógica, indicam uma ordem.


Na prática, isso significaria que socialmente os grupos sociais, as classes, parecem muito diferentes umas das outras, mas no fundo são iguais. Este é, entretanto, o princípio burguês de igualdade, e essa é uma relação que Marx vira do avesso. Na dialética marxista, a aparência na verdade é de unidade, ou seja, de uma sociedade que funciona com base numa ordem, progressista e igualitária, porém essa aparência de tranquilidade do capitalismo e de funcionamento perfeito escondem diversas contradições sociais graves que geram uma luta de classes, que a burguesia insiste em esconder. A aparência de unidade do capitalismo tem, portanto, um objetivo ideológico de ocultação das relações de poder e das desigualdades produzidas pelo próprio modo de produção.


O conceito de contradição é o eixo central tanto em Hegel quanto em Marx, e também ponto central de uma análise da diferença entre o que se alega ser e o que é. A dialética marxista parte da fonte originária de várias contradições superficiais que juntas revelam um processo, assim o resultado é a destruição de uma unidade aparente: é necessário buscar as contradições ocultadas pela ideologia burguesa para que se destrua a aparência de unidade. É na dialética, portanto, que se inicia a análise marxista, partindo-se de uma análise das contradições presentes nos processos históricos.

Hegel trabalha com uma ciência da lógica, com universais abstratos a-históricos. Para Marx, Hegel está equivocado em ignorar a historicidade, porque não dá para universalizar toda a história da humanidade. Os conceitos por si só já são históricos, a dialética é material, e não só abstrata. Ou seja, para Marx trata-se de construir abstrações concretas que são resultado da análise histórica.

Dialética é uma reflexão e análise sobre as contradições, partindo de suas aparências. O movimento dialético tem mais ou menos esse formato:



O QUE É UM “MOVIMENTO DIALÉTICO”


TESE → ANTÍTESE → SÍNTESE → NOVA TESE

OU

AFIRMAÇÃO → NEGAÇÃO → NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO → NOVA AFIRMAÇÃO



Esse movimento é cíclico, ou seja, a negação da negação vira uma nova afirmação. Mas o que esse movimento significa em Marx? Para Marx, este é o movimento histórico das transformações do modo de produção da vida material. Quer dizer que, para cada característica do modo de produção, por exemplo a mercadoria (primeiro capítulo do Capital), existe uma afirmação da burguesia sobre o que é. Porém, essa afirmação é produto de uma ideologia que oculta as contradições, e é buscando essas contradições que revelamos o que realmente é a mercadoria. Então o primeiro passo é buscar a negação dessa afirmação, ou seja, uma antítese. Para cada contradição que encontramos ao analisar o que é mercadoria, vamos encontrar outras contradições, que são negações das negações, ou seja, uma nova síntese. O movimento na dialética de Hegel e Marx, logicamente, é o mesmo, mas Marx transforma esse movimento acrescentando uma crítica crucial:

Para Hegel o sujeito, que é quem afirma algo sobre a realidade, são as ideias, a filosofia, as lógicas, e são elas que transformam o objeto que é a materialidade, a história. Esse movimento ocorre no mundo das ideias, essas mudanças estão nas formas da consciência e da razão que, dialeticamente, tende-se a se tornar cada vez mais consciente de si mesma. Para Hegel, a filosofia tem uma dimensão ativa na realidade, pois “o que muda a matéria é o pensamento”. As relações materiais, portanto, para Hegel, seriam apenas uma comprovação do estágio de evolução da consciência daquela sociedade. Ou seja, se existem contradições no capitalismo, elas estão apenas nas ideias e reflexões da ideologia burguesa e dos teóricos burgueses, e é no que eles dizem e em suas filosofias que devemos buscar as contradições, que depois influenciam em como a sociedade funciona. Mas Marx não foi o primeiro a fazer uma crítica materialista aos hegelianos.



2.2. A Miséria da Filosofia

Na obra “Filosofia da Miséria”, Proudhon, muito baseado na dialética hegeliana, analisa como os economistas ingleses, como Ricardo e Smith, explicam o funcionamento da sociedade capitalista. Para Hegel, a metafísica é apenas um método, ou seja, a reflexão filosófica e a criação de conceitos, e o resultado da metafísica é a criação de uma explicação sobre a essência da realidade, uma essência que não é histórica e, portanto, não muda com o tempo. Para Proudhon, não: a metafísica é determinada diretamente pela realidade material de uma época, então todas as ideias de Ricardo e Smith não são explicativas da realidade e da economia de forma essencial e eterna, mas são ideias que justamente são produzidas pela sociedade industrial, e só fazem sentido no contexto do capitalismo.


Marx desenvolve uma crítica à crítica de Proudhon (a crítica da crítica é parte da tradição filosófica alemã e muito presente em Marx), utilizando justamente a dialética: Proudhon tem como “afirmação” os dogmas da economia política inglesa e parte para encontrar as negações destes dogmas, enquanto Marx vai desenvolver uma negação da negação de Proudhon.



1a observação na “Miséria da Filosofia”

"Os economistas apresentaram as relações com a produção burguesa como categorias fixas, imutáveis e eternas. O senhor Proudhon quer explicar o ato da formação, a origem dessas categorias. O material dos economistas é a vida ativa e dinâmica dos homens. Os materiais de Proudhon são os dogmas dos economistas."

Se o material da “Filosofia da Miséria” de Proudhon é criticar os dogmas dos economistas, o material da “Miséria da Filosofia” de Marx é criticar os apontamentos que Proudhon faz sobre esses dogmas retornando a uma análise da vida ativa e dinâmica dos homens, ou seja, à materialidade.


2a observação

Proudhon diz que "O moinho movido a braços dá-nos a sociedade feudal, o moinho de vapor, a sociedade industrial"
Marx: "Os homens ao estabelecerem as relações sociais de acordo com o desenvolvimento de sua produção material, criam também os princípios, as ideias e as categorias, em conformidade com suas relações sociais".

Vemos que Proudhon apontou que as transformações nas ferramentas e organização do trabalho (do moinho ao “moinho de vapor”, que seria a maquinaria) transformam o modo de produção (sociedade feudal para uma sociedade industrial). Porém Marx vai além. Não só o modo de produção muda como também a própria cultura e as próprias relações sociais, ou seja, temos aí um esboço do que seria uma interação dialética entre infraestrutura e superestrutura.


Então se fosse para criar um resumo do que foi desenvolvido até agora:

Hegel – a superestrutura determina a infraestrutura (as ideias determinam a materialidade)


Proudhon – a infraestrutura determina a superestrutura (a materialidade determina as ideias)


Marx – a infraestrutura e a superestrutura se determinam de forma recíproca



3a observação

Aqui Marx vai afirmar que “as relações de produção formam o todo. Não pode-se explicar uma fase sem recorrer às demais”. Isso é importante, porque Ricardo e Smith explicam conceitos de economia separadamente, como se fosse possível isolar vários aspectos da sociedade capitalista: primeiro o que é mercadoria, depois o que é valor, depois o que é trabalho. Marx acredita que todos os elementos da relação de produção formam uma totalidade, o que será mais desenvolvido na “ideologia alemã” e nas “11 teses de Feuerbach”.

7ª e última observação

Aqui temos um primeiro vislumbre do que seria a busca por uma análise científica da sociedade burguesa por meio de suas contradições. Marx afirma a célebre frase:

Para os economistas, a miséria não é mais que a dor que acompanha o parto, assim na natureza, também na indústria".


Ricardo e Smith veem as instituições do feudalismo como artificiais e as burguesas como naturais. Isso significa que, ao desenvolverem os conceitos da economia política, eles naturalizam o capitalismo, e aí que vem a ideia de que a miséria é um infortúnio inevitável. O conceito central nesta afirmação de Marx, que ele descreve também detalhadamente nos Manuscritos Econômico Filosóficos, é a que o processo que produz a riqueza é o mesmo que produz a miséria; a riqueza da burguesia é criada paulatinamente na destruição da riqueza do proletariado. De acordo com Marx, então, os economistas ingleses simplesmente ignoram a existência do proletariado em seus conceitos, como se fossem apenas “inconvenientes” do capitalismo e como se não fosse o proletariado que gerasse a riqueza: em Ricardo e Smith aparentemente é como se a riqueza se autogerasse sozinha. E isso foi fundamental para toda a teoria do valor-trabalho que Marx desenvolve no Capital, a ideia de que a riqueza é socialmente produzida pela expropriação de valor diretamente do trabalho do proletariado.


Novamente vemos como o método dialético foi usado: Usando a crítica de Proudhon aos dogmas dos economistas, porém mobilizando essas críticas de volta à materialidade da vida. E agora chegamos à crítica de Marx ao materialismo de Feuerbach.


2.3. As 11 teses de Feuerbach

Ao invés de partir de abstrações desprovidas de historicidade, Feuerbach propõe que a dialética hegeliana deve partir da própria realidade. Não é necessário criar categorias analíticas mediadoras entre o que é e o que se alega ser: é necessário partir direto para a análise do que é. Então, ao invés de primeiro criar representações conceituais, universais e abstratas sobre a materialidade, é necessário ir direto para a materialidade. Para Feuerbach, quando criamos representações e conceitos, nós mistificamos as coisas. O objeto, a realidade, simplesmente é, e não importa que conceitos demos a ele, porque a realidade fala por si mesma. Como devemos analisá-la então? O materialismo de Feuerbach é sensualista, ou seja, ele propõe que devemos partir dos nossos sentidos, do que percebemos empiricamente, sem criar conceituação nenhuma, porque a realidade, como algo independente da ação humana, vai mostrar-se como ela realmente é para nós, se não interferirmos com nossas conceituações e abstrações. É justamente esse o principal ponto que Marx critica em Feuerbach: a ideia de que a realidade material é independente da ação humana.


Um resumo que fiz com as principais frases presentes nas 11 teses:


O erro de todo materialismo é que apreende a realidade apenas como objeto, e não como atividade humana sensível, enquanto práxis de maneira não subjetiva. É na práxis que o homem precisa provar a verdade, isto é, a realidade, a terrenalidade e a força de seu pensamento. (…) As transformações na vida e realidade dos homens e a educação dos homens são feitas também por homens. A auto mudança é a definição do que é a práxis revolucionária. O mundo profano e o mundo celeste não são separados ou autônomos, o mundo celeste se dá pela contradição presente no mundo profano, e é ele que deve revolucionado, ao mesmo tempo em que se revolucionam as ideias. (…) Sensibilidade e intuição também são práticas humanas, Naturalizar a religião é vê-la como abstração isolada, e não como produto das relações sociais. O espírito religioso também é um produto social. O ponto de vista do materialismo antigo é a sociedade civil e o objetivo é interpretar. O ponto de vista do novo materialismo é a humanidade social e o objetivo é transformar.”

Vale a pena ler as 11 teses completas, porque contém pensamentos muito poderosos e nos mostram a maturidade alcançada pelo método marxista e pela sua dialética materialista. Aqui vemos o desabrochar do método usado no Capital para a crítica da economia política e para a produção de uma análise científica da sociedade burguesa, e para a compreensão de que tanto o mundo profano, ou seja, a materialidade, quanto o mundo celeste, ou seja, as ideia e filosofia, são dialeticamente determinados pela ação humana.





3. O resultado: o método materialista histórico dialético

A realidade é síntese de múltiplas determinações e é ela que deve determinar a epistemologia, ou seja, o desenvolvimento de uma análise e criação de conceitos deve partir da materialidade. Não existe uma essência humana absoluta, porque os elementos constituintes da humanidade são sempre históricos, e por isso os conceitos também devem ser. O concreto é síntese de múltiplas determinações históricas, e só posso continuar chamando a sociedade de capitalista porque os seus processos estruturantes de exploração se repetem quando mobilizo uma análise empírica baseada no materialismo e no método dialético.


O presente condensa o passado, o novo reproduz o velho. Isso no método marxista é chamado de reprodução social: o novo nunca é inteiramente novo, porque nunca é criado do nada, ele é fruto de diversos processos históricos e de reproduções e sínteses de relações dos modos de produção anteriores. O motor da história é a contradição social, que vem do antagonismo de interesses classistas, ou seja, da luta de classes: apesar de serem antagônicas, as classes dominantes e dominadas são codependentes. Na sociedade capitalista, não há lucro para a burguesia se não há exploração do proletariado. E para o proletariado não há como adquirir os bens necessários à sobrevivência sem submeter-se à exploração.


Não há igualdade econômica sem igualdade política, porque, ao contrário do que alguns dizem por aí, Marx não é economicista. Não existem “esferas” independentes no marxismo: a economia está intrinsecamente conectada com a cultura, a política, o Estado, e a ideologia. As reproduções sociais ocorrem justamente porque a luta de classes se acirra em todas essas facetas da vida, e a burguesia precisa empreender novas formas de justificar sua exploração para atualizar-se frente a mobilização revolucionária da classe trabalhadora, ou seja, frente a sua recusa de submeter-se à exploração. As novas formas da burguesia de atualizar a exploração de modo a reproduzir as estruturas do modo de produção capitalista podem ser por meio de investidas econômicas, como novas ferramentas e tecnologias, mas também surgem por meio da violência e repressão do Estado e com produtos culturais com discursos que legitimam e naturalizam os processos que Marx investigou no Capital.


Por fim, é necessário compreender que o método marxista se constrói na forma de uma espiral, pois como vimos, é necessário ir desfazendo a aparência, conceito por conceito, para chegar-se às contradições da sociedade capitalista, e assim um conceito se conecta ao outro, e todos se determinam e se explicam mutuamente. E essas explicações sempre são históricas. Não existe método marxista sem história, ele é um método vivo, que deve ser mobilizado o tempo todo em novas conjunturas e atualizado a novas realidades. O movimento de reprodução social é ininterrupto, assim como a luta de classes. As relações de produção do capitalismo são contraditórias e por isso produzem suas próprias crises, e por isso é um modo de produção intrinsecamente insustentável, que precisa ter suas formas de exploração atualizadas o tempo todo. Por esse motivo o método marxista é usado por teóricos do mundo todo para compreender seus conceitos e realidades, e usado pelas classes trabalhadoras de diversos contextos para, por meio de um maior entendimento das condições de exploração, que sempre são ocultadas pela educação e comunicação burguesa, empreender uma luta efetiva pelo desmantelamento das estruturas de opressão.


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