• williamspoiato

O problema da revolução



Decifra-me ou te devoro” o enigma da esfinge, que reaparece diante dos trabalhadores em cada nova conjuntura, lançando sobre si a necessidade de descobrir e (re)desvelar o mundo e - se estes tiverem coragem suficiente- tomar este mesmo mundo.


Porém, ao desvelar o mundo e se deparar com a hipótese do comunismo e todas as suas consequências conceituais e o conhecimento dos mecanismo de poder (Super e infraestruturas), a necessidade histórica do socialismo, etc. Se chega ao problema, como será uma revolução brasileira (enquanto estratégia) e qual caminho para conquista-la. Este texto visa, sem citar diretamente as organizações, desvelar algumas destas concepções, elencando-as de maneira sintética:

A crise comunista


Parte basilar das estratégias para revolução socialista no Brasil é a tese sobre a crise do comunismo, desencadeada com a queda da URSS, a análise da natureza da crise trará de certa forma uma resposta incutida para pensar a ação prática dos revolucionários. A crise da ideia comunista (crise objetiva)


Este pensamento acerca da crise comunista e socialista pensa que, de certa forma, o mundo se transformou, e as ideias também. A sociedade industrial esta se desfazendo, assim como as grandes narrativas do séc XX. Outra corrente, pensa que a realidade nacional e internacional ainda não se encontra madura o suficiente para o socialismo. Com um pé no pragmatismo e outro no pós modernismo afirma que a própria ideia de comunismo foi ultrapassada pela história, superada pela mesma e que talvez nem mesmo tenha sido benéfica e é impossível. Outros pensam que devemos desenvolver o capitalismo, que só assim podemos ter condições ao socialismo.

Defende, portanto, uma miríade de soluções, desde a impossibilidade de uma idéia totalizante até utopias do “local x global” em uma perspectiva de revolução sem revolução. Há também aqueles que pensam em gerir o capitalismo para desenvolve-lo, para ai sim, pensar na ideia de socialismo e comunismo.


A crise da teoria (crise interna)

Esta segunda perspectiva, geralmente inspirada nos comunistas da Ásia, caracteriza que a crise comunista é uma crise no campo das ideias e da teoria. argumentam que no interior dos partidos comunistas, em toda parte, existiu uma revisão da teoria marxista, transformando-a em outra coisa. Esta revisão (o revisionismo) é a responsável pela ação equivocada dos comunistas, ou seja, da dificuldade da revolução e da crise. Defende, portanto, uma “ortodoxia” teórica, limitando à um grupo de autores e experiências socialistas a verdadeira análise e transformando em inimigos práticos quaisquer partidos comunistas e socialistas que sofram deste mal revisionista.

A crise de direção (crise subjetiva)


Esta tese é bastante famosa no Brasil e tem um fundamento relativamente simples: A crise do movimento comunista internacional nada mais é que uma grande, duradoura e tortuosa crise de direção, que os dirigentes e intelectuais são traidores dos trabalhadores e fabricadores de derrotas.


Pensam que a partir de certo momento histórico o movimento comunista foi tomado não só por idéias equivocadas, nacionalistas e fratricidas no interior da classe como também por indivíduos tão perversos quanto estas ideias. Que, pela sua natureza asfixiam movimento comunista em uma esfera antidemocrática e anti revolucionária. Defendem, assim, a formação de um partido internacional, sob sua própria direção, superando a crise de direções e portanto a própria crise comunista.


A crise de organização (crise da vanguarda)


Esta última, mais recente historicamente, nasceu em geral da queda dos países comunistas e fim dos partidos comunistas nacionais, defendem que a crise comunista se espelha e se assemelha a crise da própria classe trabalhadora em luta, sua vanguarda.


Apresentam que, conforme os ataques do imperialismo e do capital em todo o mundo, ganharam terreno na luta de classe sendo nacional ou internacionalmente em todo mundo e desmantelaram a força de mobilização da classe e suas entidades e organizações, também o fizeram com os comunistas, e que isso funda uma crise geral de organização da classe e dos comunistas.


Defendem, em cada país a sua forma, a reconstrução do partido revolucionário nacional e de fóruns de discussão e articulação internacional dos comunistas, defendendo a história dos partidos nacionais e das experiências socialistas, sejam as ainda de pé, sejam as do passado.

Da crise comunista à revolução


Os defensores da Crise Objetiva, ainda se arriscam em falar de revolução, ou em transformações profundas. Há entre estes “revolucionários” algumas concepções em atividade:


  • Estratégia Democrático popular: Inicialmente inspirada na experiência da Hungria, acredita que uma combinação entre força eleitoral e movimento popular mobilizado seriam capazes de fazer reformas estruturais no capitalismo, tirando diversos de seus elementos prejudiciais. Consagrada, após o fim da ditadura, como estratégia hegemônica dos trabalhadores, tem seu ápice nos anos 2000 em todo continente sul-americano, faz um amplo processo de transfiguração até a adesão ao livre mercado neoliberal e se colocar como fator conciliatório entre os movimentos e o estado, apassivando o primeiro e um sindicalismo dócil, tirando os sindicatos do centro da vida política. e pouca antes do fim da última década perde o poder do estado Burguês após sucessivos golpes políticos e o abandono do horizonte socialista, apesar de ainda ser a ideologia dominante entre a esquerda brasileira.


  • Revolução democrático Nacional: Outra tese de revolução sem revolução se sustenta em na ideia de que o Brasil não está pronto para uma revolução proletária pois necessita desenvolver as forças produtivas e ao mesmo tempo fazer as tarefas de uma revolução nacional burguesa, em atraso como: Reforma agrária, abertura democrática, etc. A ideia destes “revolucionários” é que fortalecendo as instituições burguesas e fazendo um certo número de mudanças que se prepara o terreno para a revolução.



Já os partidários da Crise interna, em geral se associam à uma visão mais combativa, no sentido do enfrentamento militar, suas perspectivas “puras” , “ortodoxas” e livres de revisionismo caem em linhas gerais na concepção que:


  • O cercamento do campo sobre a cidade: Inspirada na primeira fase da revolução Chinesa, defende que o capitalismo ainda não “se completou” no campo brasileiro, guardando majoritariamente relações “semi-feudais” (do latifúndio à servidão). Sendo este o local de maior opressão e exploração e o cerne da economia nacional, caberia organizar o campesinato em grupos armados pela retomada da terra e destes desestabilizar o poder e tomar o poder nas cidades. Desta forma a mediação eleitoral é descartável, inclusive se torna importante desiludir o povo com qualquer mediação estatal e convencê-lo ao voto nulo.


Já os que identificam a crise subjetiva vêm nas lideranças dos movimentos o grande problema antirrevolucionário, pois estes não levam suas tarefas até o final, de certa maneira defendem duas linhas gerais:


  • Rebelião Popular : em geral pensam que a classe trabalhadora pode, sem lideranças e sua vanguarda, explodir contra os poderes instituídos devido a sua situação de exploração, em grandes rebeliões. Defendem que com a crise de direção nestes momentos os revolucionários devem estar preparados e com campos de influência tal que, se trabalharem corretamente, saltarão como liderança do movimento- elevando junto de si a consciência da população - tese do salto de consciência.

  • Rebelião Popular (induzida): Possuem teses muito próximas do anterior, mas acreditam que podem induzir a rebelião se apoiando em figuras nacionais mobilizadores (em geral anti-imperialistas) que não necessariamente coadunam com sua linha política, mas tem potencial de mobilizar o povo - tal linha ocorreu com Perón na Argentina e Lula no Brasil. Após disparada a rebelião, caberia ao partido revolucionário tomar a frente do processo e tomar o poder.



Por fim, a mais recente e que carece de um pouco mais de explicação a tese de crise de organização. Eles defendem que a reconstrução do partido revolucionário caminha em conjunto com a reorganização da classe trabalhadora que se encontra hoje atomizada e enfraquecida diante da nova “forma” na produção, esta necessidade de reorganizar a classe, reeducá-la e (re)viver experiências de poder e de sua tomada, desta forma a revolução levam a cabo a linha do:


  • O Poder Popular: A tese é que os trabalhadores devem constituir um duplo poder paralelo ao do Estado e da burguesia- em diversos germes territoriais pelo país de democracia direta e auto educação da classe. Parte do princípio que a economia brasileira está madura para o socialismo e com uma população altamente urbanizada e um campo com relações plenamente capitalistas, por isso os trabalhadores podem e devem construir seu Bloco Histórico (o conjunto de organizações da classe e seus partidos) em polos unitários de luta, para fazer a contra ofensiva proletária de caráter antiimperialista e anticapitalista. Estes dois poderes (o burguês e o proletário) co-existiriam até o esgarçamento-conflito e o momento dos trabalhadores derrubarem o poder burguês em sua totalidade.

Conclusão ou Post Scriptum

Lembro que, por exemplo, o autor do livro PC na linha Leste - Antonio Carlos Felix Nunes - termina seu livro ironizando o debate estratégico entre o Partidão e seu racha de 1962, como algo sem importância diante do movimento geral e se gaba de, à época, estar fundando um novo partido.

O resultado deste tipo de debate?

A Estratégia Democrático Popular fez água, a revolução também não veio e devemos, quem sabe, trata-la com maior seriedade no próximo período.


Não sem motivo, este breve compêndio das principais teses da revolução brasileira vêm para apresentar aos novos militantes uma visão sintética de em que pé que o debate está hoje para que possamos aprofunda-lo.





111 visualizações
apoie.png