• Clio Operária

O Partido dos Panteras Negras e o Pensar Revolucionário

Vinicius Souza*


Uma das coisas que a comunidade negra mais carece é o pensar revolucionário. Precisamos nos organizar, organizar de forma revolucionária. Uma coisa muito comum na nossa comunidade é a demagogia exacerbada. É frequente, principalmente no ambiente da internet, aparecerem meia dúzia de demagogos que tentam arrebatar rebanhos de militantes para suas fileiras. Alguns estão fora da internet realizando ações concretas, outros não. A questão é que de tantos lados diferentes estão vindo os discursos demagógicos, a comunidade negra no Brasil deve parar e repensar.


Imagem: Stephen Shames.

Necessitamos, urgentemente, pensar nos nossos exemplos históricos. Eu, particularmente, não gosto dos militantes que vivem de exportar teorias e ideologias políticas de outros países para a realidade brasileira, o que nossos irmãos e irmãs pensam nos outros países é totalmente válido e agregador, porém deve ser filtrado com um olhar crítico em relação ao caso brasileiro. Porém, pensando também nessa filtragem crítica, eu gostaria de reivindicar um exemplo excepcional do pensar revolucionário negro na história — O Partido dos Panteras Negras.


Criado em Okland, Califórnia, em meados de 1966, por Huey P. Newton e Bobby Seale. O Partido dos Panteras Negras se organizava enquanto partido de vanguarda. Adotaram a linha do marxismo-leninismo e a filosofia de radicalismo revolucionário pensada por Malcolm X se apoiando em diversos outros revolucionários que estavam envolvidos na luta antirracista e anti-imperialista, tais como Mao Tsé-Tung e Frantz Fanon. O Partido projetava a ideia de que, enquanto vanguarda, possuía o dever de organizar o povo em direção a libertação.


O Partido dos Panteras Negras é a máxima expressão da organização revolucionária do povo negro ao longo de sua história no contexto de dominação imperialista e racista sobre as costas do terceiro mundo. Como bem aponta Afeni Shakur em seu escrito “Nós vamos ganhar: Uma Carta da Prisão”:


O Partido Pantera Negra foi formado três anos atrás em Oakland, Califórnia, por Huey P. Newton — ou não? Os próprios historiadores Panteras Negras discutem com relação ao início e ao espírito do Partido Pantera Negra. Alguns dizem que ele começou há mais ou menos 400 anos, quando vocês decidiram pela primeira vez que não éramos seres humanos. Outros atribuem o início aos 100 milhões ou mais que vocês mataram nos navios negreiros. Outros, o atribuem a Gabriel Posser, Denmark Vesey, Nat Turner e, é claro, Toussaint L’Ouverture. (SHAKUR, 1969)


O Partido dos Panteras Negras seria então uma síntese histórica da luta e desejo revolucionário da população negra. Afeni completa:


Mas todos concordam que esse espírito está lá e esteve por um bom tempo. E todos concordam sobre a sua adaptação moderna — que Frantz Fanon colocou no papel, Malcolm X colocou em palavras e Huey P. Newton colocou em prática. É um espírito que foi sufocado por séculos, mas que não pode e não vai mais ser sufocado. (SHAKUR, 1969)


O Partido dos Panteras Negras colocou em prática um projeto revolucionário para as pessoas negras, sempre tendo em mente que a libertação não seria um fator isolado, não seria algo que poderia acontecer a um grupo isolado. O Partido entendia que deveria fazer parte do contexto de libertação que se formou em sua época por todo o mundo. Melhor do que ninguém, o Partido entendeu que a liberdade de todos está ameaçada quando qualquer um perde a sua.


O Partido dos Panteras Negras entendeu a necessidade de, enquanto organização negra revolucionária, ser anticapitalista, pois o racismo está ligado a exploração capitalista. O racismo foi, antes de tudo, uma articulação do sistema econômico que se desenvolvia na Europa e que se transformou no que conhecemos hoje como capitalismo. O racismo é uma articulação criada por uma das necessidades mais básicas do capitalismo — expansão. O capitalismo é a fonte mais poderosa do poderio racista. Algo que já observado por Malcolm X: “Não existe capitalismo sem racismo.”. O racismo existe fundamentalmente para a exploração das pessoas não brancas do mundo e a manutenção do sistema capitalista. O povo negro precisa entender o que é o capitalismo e destrui-lo, precisa urgentemente entender para não cair na demagogia do chamado capitalismo negro:


O que o capitalismo significou para a vasta maioria dos povos do mundo? Eu penso que é uma questão que deveríamos nos perguntar. Quando olhamos em volta vemos que os países onde os capitalistas dos Estados Unidos pegam mais recursos, estas colônias e semicolônias que são chamadas de países subdesenvolvidos do mundo. Quando olhamos para elas, vemos que possuem a taxa de mortalidade infantil e taxa de mortes mais altas do mundo e os menores padrões de vida. Por que é assim? O povo negro não pode aceitar o que o nosso inimigo nos diga nos diga para sermos inclusivos. Malcolm X disse que se você tiver que confiar em seu inimigo para um trabalho você está em maus lençóis. Também é verdade que se você tiver que confiar em seu inimigo para informações você está em maus lençóis. O povo negro deve começar a formar os conceitos adequados do que o capitalismo é e sobre o que se trata, para que possa começar a lidar com a a situação da maneira correta. (WILLIANS, 2018)


A comunidade negra, em geral, precisa adotar o radicalismo. Porém, quando digo radicalismo, me refiro ao radicalismo revolucionário, aquele que busca estabelecer as condições necessárias para a transformação da realidade concreta. Existem dois perigos na comunidade negra no que diz respeito à militância — o reformismo, existente principalmente nos quadros negros dos partidos socialdemocratas que se travestem de revolucionários de alguma forma. O outro perigo é o radicalismo irracional e pseudocientífico que toma conta de grupos que se consideram vanguardas radicais, mas são por essência antirrevolucionários e possuem tendências em acreditar em teorias da conspiração.


O pensar revolucionário passa longe desses perigos, assim como passa longe de ideologias culturalistas que tentam interpretar o problema racial de forma reducionista e sem seu caráter essencial que é o da exploração. Grupos que possuem essa linha ideológica estão na contramão histórica e do caminho revolucionário. Como bem observou Frantz Fanon:


[…] essa dimensão cultural que constitui o racismo, em sua expressão moderna, só se torna inteligível a partir de suas mediações socioeconômicas e históricas, ou seja, a subordinação econômica e mesmo biológica de um povo (Op. cit., p. 35). Isso significa que o racismo está longe de ser um confronto de civilizações ou de culturas (Op. cit., p. 37–8), ou ainda um fenômeno que se explica sozinho. Ao contrário, o racismo é a negação sistemática da humanidade do outro com vistas à sua exploração e dominação:
“O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo […]. Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizadas […] na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda perspectiva deve ter isto em conta. A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone (Op. cit., p. 37–8).”.
“A primeira necessidade” referida por ele ou, se quisermos, a determinação em última instância do racismo é a escravização, ou a submissão dos povos a determinada lógica de exploração. Mas para que esse procedimento — primeiramente econômico — seja viável, seria preciso destruir todos os sistemas de referências dos povos a serem subjugados.
Fanon é bastante preciso ao afirmar que é apenas em função disso — e não como sua causa — que a “expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem…”. (FAUSTINO, 2018, p. 88)


O Partido dos Panteras Negras estruturou as teoria e prática revolucionárias para a libertação do povo negro e a queda do sistema capitalista e imperialista de exploração global:


Não vamos lutar contra os reacionários que andam para cima e para baixo sendo reacionários; vamos nos organizar e nos dedicar para o poder político revolucionário e ensinar a nós mesmos as necessidades específicas de resistência a estrutura de poder, nos amar, e combater os reacionários com a Revolução Proletária Mundial. É como deve ser. O povo tem de ter o poder: o poder pertence ao povo. (HAMPTON, 2018)


Teoria e prática revolucionária, atender as demandas do povo e organizar o povo, esse foi o papel do Partido dos Panteras Negras. O Partido lutou pela construção revolucionário, o que envolveu desde educar as massas e atender as demandas da comunidade como criar escolas, hospitais, programas de café da manhã para crianças, auxílio a pessoas com familiares encarcerados e todo tipo de ação necessária. O Partido dos Panteras Negras é o maior dos exemplos históricos de organização revolucionária para o povo negro. Temos muito o que aprender com a história e estudar o Partido e colocar em prática, com as adaptações necessárias, a sua proposta é um fator essencial para toda a comunidade negra. Todo poder ao povo!


*Vinicius Souza é historiador, pós-graduando em Direitos Humanos e Lutas Sociais pelo CAAF - UNIFESP, militante da Juventude do MTST e escreve no perfil do Instagram @luzcamerarevolucao.


Referências Bibliográficas


Antologia: Volume I Partido dos Panteras Negras. São paulo: Ed. Nova Cultura, 2018.

FAUSTINO, Deivison Mendes. Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro. 1º ed. São Paulo: Ciclo Editorial Continuo, 2018.


SHAKUR, Afeni. Nós Vamos Ganhar: Uma Carta da Prisão. Disponível em: <https://autonomistablog.wordpress.com/2017/02/20/afeni-shakur-nos-vamos-ganhar-uma-carta-da-prisao/amp/>. Acesso em 02/05/2019–18:11.


MARABLE, Manning. Malcolm X: uma vida de reinvenções. 1º ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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