• Clio Operária

O papel de gênero na escravidão e a necessidade da reafirmação masculina contemporânea

Rafael Torres*


A área de conhecimento das ciências humanas é, falando especificamente acerca da filosofia, excludente, e, consequentemente, dominada por homens. Mas, há de se entender o porquê de tal controvérsia — já que a filosofia questiona a verdade, logo, uma sociedade patriarcal acaba por ser questionada — quando analisamos a grade curricular de algumas universidades, onde, o que é ensinado é do ponto de vista de, normalmente, um filósofo homem, branco, e, também normalmente, não pobre. Dessa forma, como uma mulher, com o acréscimo do seu tom de pele, pode se sentir retratada dentro da sua própria área? Apenas uma reflexão que estava fazendo recentemente.


Uma das mais importantes pensadoras contemporâneas, Angela Davis, filósofa americana, presa durante o regime de segregação dos Estados Unidos, no século passado, trata sobre uma temática muito importante a ser refletida, que é o papel da mulher negra durante o período escravista nos Estados Unidos, do século XIX. E, como consequência de um estudo social deste porte, a sua relevância pode ser observada ainda hoje, graças às permanências de pensamento da sociedade para com a mulher negra.

É comum ouvir da boca de pessoas brancas, como ouvi ainda a pouco, de que a mulher branca trabalha “duro”, tanto quanto a mulher negra. Ninguém disse o contrário. Porém, essa afirmação só poder ser levada em consideração se o objeto de análise forem apenas duas mulheres, sendo uma branca e a outra negra, mas, ao final dessa análise, isso também nos levaria a um falso resultado, pois, o indivíduo estando inserido numa mesma realidade, não é possível uma comparação apenas entre duas pessoas. Mas, o erro principal nessa fala vem de duas maneiras, a primeira sendo historiográfica, pois, para essa afirmação ser válida é preciso avaliar o processo histórico de inserção das mulheres brancas, e negras — já que não havia separação racial no início da inserção das mulheres na vida pública — no mercado de trabalho, e, analisar a subversão das mulheres, agora única e exclusivamente negras, durante a escravidão. Isso leva a outra problemática dessa fala, onde, matematicamente, a mulher negra, como cita Davis, trabalha proporcionalmente mais do que suas irmãs brancas.


Um fator importante para a fixação de um estereótipo da mulher é a sociedade burguesa, sendo esta considerada apenas mulher se é a protetora do lar, a progenitora, a mãe, e a dona de casa. Ora, se tal imagem foi dada ao sexo feminino, no decorrer dos séculos XVI até o XIX, logo, a mulher negra, que cumpria esse papel nos lares escravos, acrescendo a isso, cumpria também o papel de um homem, trabalhando da mesma maneira, acaba por ser uma aberração para uma imagem tão conservadora das mulheres, ou seja, acaba não sendo vista como pertencente ao sexo feminino.


Inclusive, por isso, é interessante vermos como a mulher negra acaba por perder, de forma conveniente, seu gênero durante a escravidão. Os senhores a exploravam da mesma maneira que os homens, quando era positivo o fazer.


Mas as mulheres também sofriam de forma diferente, porque eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a elas. […] quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero, mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmea (DAVIS, p. 25, 2016)


Nessas nuances da História, a classe produtora dos Estados Unidos, na segunda metade do século XIX, foi forçada a utilizar outro meio de exploração. E, mais uma vez, a mulher negra com o papel principal, apesar de, nesse caso, não ser algo positivo. Países do cenário mundial acabam por pressionar a prática de comercialização de escravos, um deles sendo a Inglaterra — que influencia, inclusive, a decisão brasileira acerca da temática — os Estados Unidos acabam também aderindo à prática, logicamente, pois, se não o tivessem feito, o mercado dos escravos não teria mais seus “produtos”, a demanda cresce, logo, o valor cresce. Mas, a falta de recurso ameaça os Estados do sul, centro econômico escravista, um deles sendo importante citado inclusive por Davis, a Carolina do Sul. Mas, nesse ponto, é onde os senhores de escravos concluem outra opção, e começam a valorizar a reprodução de mulheres escravas. Ora, estava proibido a comercialização, não a reprodução. A partir desse ponto é possível categorizar uma das permanências mais absurdas dessa sociedade patriarcal que valoriza a mulher pela sua função biológica de reprodutora. Como uma teia, a História está conectada, e, dessa forma, exaltando a capacidade fecundatória de escravas, a contradição ideológica do século XIX nos mostra como uma sociedade burguesa, que valoriza a reprodução feminina como sendo algo divino, uma condição que coloca as mulheres em outra esfera, não se estende as escravas. A escrava é catalogada de acordo com a sua capacidade de quanto pode procriar, logo, não é valor moral, mas, sim, valor matemático, e, ainda, com esse novo mercado interno da escravidão, dentro da lei, os tribunais regionais americanos adaptam-se para melhor atender a essa demanda. O exemplo dado por Davis é de um tribunal da Carolina do Sul, que em decisão judicial, determina que a mãe escrava não tenha direito legal sobre seu filho, portanto, este pode ser vendido, atendendo a demanda.


Nesse contexto, iniciou-se um processo histórico para as mulheres negras. A mulher negra, além de cumprir suas funções no seio de sua família, ainda era peça fundamental para manter a plantação do seu senhor, já que, como produto que era tratada, seu trabalho vale muito mais do que o de um homem, pois, era mais fácil repor. Sendo assim, a lógica vigente do homem como a figura masculina, defensora do lar, essencial para a sobrevivência de sua família e todos os estereótipos que ainda se mantém, caem por terra. Um fato interessante, que Davis enaltece, é a falta da presença do nome do pai nos documentos de crianças nascidas de escravas, por diversos fatores, um deles sendo que a maioria das crianças era fruto de uma relação sexual não correspondida, ou, em outras palavras, estupro, sofrido pelas escravas. Isso abre uma brecha para a análise da realidade do povo negro num país como os Estados Unidos pós-abolição, pois, a maioria dos sociólogos que se propuseram a estudar a temática, acertam na análise, mas, erram na solução, e insiste que a escravidão acaba com a estrutura familiar negra, e a solução? Claro, uma reestruturação, através de uma figura masculina!


Franklin Frazier, um sociólogo negro, muito renomado, ignora a emancipação feminina — mesmo que adquirida forçosamente pelo período escravista — e sugere que no interior feminino, nenhum dos enfrentamentos que tiveram durante este período foi suficiente para acabar com a sua subordinação à figura do homem.


Essas mulheres escravas conseguiram, de maneira magistral, pelo menos nos Estados Unidos, distorcer a realidade, partindo de algo horrendo, e que tirava toda a sua parcela humana, transformando-a em mera mercadoria. Se a vida na lavoura/senzala, ou onde quer que sofresse, era uma extensão da vida familiar, e se a mulher, no âmbito familiar era dominante, sendo os homens, normalmente, apenas ajudantes, logo, suas tarefas domiciliares não eram vistas como diminutivas, mas, como forma de libertação e independência. Para compreender isso, basta entender o modo de viver dos escravos. Todo grão que ele cultivava, toda terra arada, todo trabalho que realizava não era para si, mas, para seu opressor, logo, este trabalho não o acrescenta em nada na vida de sua família ou pessoal. Portanto, o único trabalho que realmente era cabível como ser humano, que realmente possuía devida importância para sua manutenção como indivíduo, era o trabalho doméstico, e quem o realizava era a mulher, logo, a peça central desse imenso quebra cabeça, tem rosto feminino.


Mas, como o pós-abolição quebra essa lógica?


A mulher conquista sua independência e emancipação, como dito, por necessidade. E, até então, suas realizações eram tidas como de fato eram, vitoriosas. Porém, não é que a lógica se inverte no pós-abolição, e o homem passa a realizar as tarefas que as mulheres faziam. Mas, agora, as tarefas praticadas por estas, perdem sua significação, representante de uma resistência e emancipação, e transformam-se em meras tarefas desnecessárias, ou, insignificantes diante a sociedade. Agora, o provedor do bem estar familiar, o mantenedor da ordem, o grande elo entre uma família estruturada, é o homem. Reduz, primeiro, as tarefas e trabalhos realizados fora do lar pela mulher, nesse ponto, esses trabalhos são obrigações do homem, e a família, junto da mulher, é dependente dele. Posteriormente, reduz os trabalhos domésticos, não tendo importância, afinal, ela mesma não faz nada, e mesmo que trabalhe fora também, não é para manter, mas, para “complementar a renda”, o que impõe apenas um mero valor somatório ao que o marido já traz, que é o principal.



A representação da família negra, em seriados, por exemplo, é o ponto-chave para entender isso. No célebre Todo mundo odeia o Chrisa representação da matriarca da família, Rochelle, é da mulher que a todo momento fala que não precisa trabalhar, já que o marido dela possui dois empregos. A preocupação dela é estar arrumada, para ele, fazer a comida que ele gosta, deixar os filhos quietos, pois, ele precisa dormir. Toda atitude e pensamento é direcionado à figura masculina da série.



Outro exemplo, da mesma época, Eu, a patroa e as crianças, que é ainda mais evidente o patriarcado como centro familiar. A diferença gritante entre as famílias dos dois seriados citados, claro, é o seu poder financeiro, e, ainda assim, numa família de classe média, como a dos Kyle, Jay, matriarca, se cala a todo momento, e a última palavra, na grande maioria das vezes, é de Michael. Em determinado episódio, precisa até pedir permissão, entrando em uma discussão ferrenha com seu marido, para — por incrível que pareça — voltar a estudar. Junior, o primogênito, encontrando suporte em seu pai machista, namora, tem relações sexuais, e até um filho, com pequenas consequências. Mas, Claire, a filha do meio, vive uma vida regrada, e, diferente do seu irmão, não pode sair, ou namorar, muito menos ter um filho.


Dia 19 de agosto, segunda-feira, foi celebrado o dia do historiador. Celebrado apenas no calendário, pois, realmente não há o que comemorar. Como dever, devemos discutir e debater as contradições. E, principalmente, não deixar cair em esquecimento o que a sociedade quer esquecer.


*Rafael Torres é historiador, educador popular na rede Podemos+, editor na Revista Clio Operária, desenhista e escritor.



Referências Bibliográficas


DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. 1° Ed. São Paulo: Boitempo, 2016.

3 visualizações

Posts recentes

Ver tudo
apoie.png