• Giovanna Garcia Cobellis

O Panteão Brasileiro e o encenamento da História: a escolha dos (falsos) heróis



Estudar a História do Brasil sempre pareceu aprender sobre um conto. A cada capítulo da nossa História um herói aparece e a partir dele a narrativa se constrói, com o auxílio das icônicas gravuras desses heróis estampadas nas páginas dos livros didáticos – gravuras que minimamente poderiam servir de fonte histórica – porém, a questão aqui é entender: quem são esses heróis do Brasil?

Para entender a ideia chave deste texto é preciso se questionar sobre o que é o herói. No dicionário, encontramos o termo entendido por:


he-rói sm. 1. Homem extraordinário pelos feitos guerreiros, valor ou magnanimidade. 2. Protagonista de obra literária.”


Seriam então os nossos heróis homens guerreiros? Homens de valor? Ou seriam apenas protagonistas intencionalmente escolhidos para compor o grande enredo da nossa História?


Respondendo a esses questionamentos, levanto outro: quem são os nossos heróis e heroínas da Pátria?

Nossos heróis reconhecidos e que estampam nossos livros escolares são marechais, imperadores, comandantes, marqueses, almirantes, barões, padres e outros religiosos, militares de alta patente – são poucos os soldados (povo) reconhecidos como heróis - e quiçá presidentes. Figuras politizadas e de posse de seus títulos, que afastam do “homem comum” a capacidade de se reconhecer nesta persona, mas que inconscientemente acaba por aceitar essa figura, além do que, ela está presente no nosso cotidiano e no decorrer do nosso crescimento. Elas (figuras) aparecem nos livros didáticos, comemorações de feriados nacionais e nos nomes das grandes ruas, avenidas e rodovias. A escolha desses heróis sempre se tratou da incorporação da figura do homem branco, europeu, salvador da terra e dos interesses do povo que nela habita, mas claro, desde que você não seja indígena ou negro. Nessa altura do texto você deve estar pensando: mas nós temos heróis comuns como Tiradentes, heróis indígenas e heróis negros. Falemos então sobre Tiradentes.

O herói de aparência desconhecida, mas que ficou gravado em nossa memória conforme as representações oficiais idealizadas por uma figura de vestes simples, cabelos longos e um rosto coberto por bigode e barba por fazer, sugerindo quase um personagem santificado assim como o Jesus Cristo europeizado. A construção de sua imagem se mostra mais importante que as próprias ações do herói, conforme aponta Furtado:

Ele plantou a semente da liberdade, era um ativista, embora entre os planos dos inconfidentes não estivessem temas como a libertação dos escravos. Tiradentes tinha três deles quando foi preso, e os demais inconfidentes também eram donos de muitos escravos. (FURTADO, 2002)

E sobre nossos heróis indígenas, temos Clara Camarão e Sepé Tiaraju. Clara, potiguara e líder de um pelotão feminino durante as invasões holandesas em Recife, foi uma heroína indígena batizada com nome europeu e catequisada por padres jesuítas, sendo assim, não era tratada como uma nativa selvagem, pois havia sido batizada conforme os desígnios do catolicismo.

Sepé, guarani e guerreiro considerado santo popular declarado e missioneiro rio-grandense, foi um herói indígena que se voltou contra o Estado, conhecido por lutar por seus direitos e que recebeu apenas homenagens discretas e negligenciadas como forma de desautorizar os movimentos sociais que atualmente abraçam sua figura.

E nossos heróis negros? Uma minoria entre o panteão, mas é possível citar Machado de Assis, que até os dias de hoje têm sua figura embranquecida pela História positivista; temos também João de Deus, Luís Gonzaga, Manoel Faustino e Lucas Dantas, heróis da Revolta dos Búzios; Luiz Gama e Francisco José do Nascimento, heróis e líderes abolicionistas; e o mais conhecido herói negro do Brasil, Zumbi dos Palmares, que vêm sendo duramente atacado por entidades públicas, mas falaremos disso mais adiante.

Um capítulo da nossa História que muito me incomoda é o período da escravidão, as leis abolicionistas e o enraizamento da tortura do negro que até hoje se faz presente na nossa sociedade. E como falar dessas leis sem lembrar-se de imediato da “heroína”, Princesa Isabel, que em 13 de Maio de 1888 assinou a Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão no Brasil.

A lei que se limitou a ficar no papel é um grande exemplo de como a História vista pela perspectiva de datas e personalidades tem sérios problemas, pois apresenta um contexto visto de cima, não abrangendo a história das minorias que de fato foram impactadas pelo ocorrido.

Após a assinatura da lei, fato que só ocorreu por conta da incessante pressão da Inglaterra para que o Brasil – até então o único país da América que ainda não havia abolido a escravidão – o fizesse (exceto pelos estados de Amazonas e Ceará, que já haviam abolido a escravidão) e pelo crescimento do movimento abolicionista no Brasil, e não por desejo, benevolência ou caridade do governo do Imperador. Foram mais de 300 anos de escravidão, sem que houvesse nenhum tipo de apoio aos libertos ou indenização pelos anos de trabalho forçado e tortura.

Mulher, branca e da família real portuguesa, a “Isabel do Brasil” mesmo após 132 anos da assinatura da tal lei e após tantos estudos sobre os brasileiros escravos ou negros libertos, que em conjunto com pessoas pobres lutaram efetivamente pelo fim da escravidão muito antes da vigência dessa lei, ainda aparece como protagonista deste capítulo que apaga de forma cruel e premeditada reais abolicionistas como Luiz Gama, Francisco José do Nascimento – o Dragão do Mar – já aqui mencionados, mas também Dandara dos Palmares, Zeferina, Maria Felipa de Oliveira, Adelina Charuteira, Mariana Crioula, Zacimba Gaba, Zumbi dos Palmares e tantos outros negros e negras.

É preciso que se exalte e que se trate desde a educação básica do conhecimento e do estudo das minorias, a luta de pessoas como Zumbi dos Palmares, atividade que parece distante quando nos deparamos em 13 de maio de 2020, data simbólica da Abolição da Escravatura, o Presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, repudiar Zumbi publicamente através da entidade pública que dá nome à instituição.

A instituição que tem por objetivo promover a igualdade racial e dar suporte à luta contra o racismo publicou uma série de artigos que tratam Zumbi como uma figura criada e idolatrada pela alienada esquerda, bem como o comunismo, a negritude e o movimento negro e colocam a data de sua morte – quando se comemora o dia da Consciência Negra (20/11) – como uma data imposta pelo movimento negro em virtude da não aceitação da “verdadeira realizadora do fim da escravidão”, apagando toda luta e resistência do povo negro. Mas também o que esperar de uma pessoa que nega a existência do racismo no Brasil, que chama o isolamento social feito por conta do Covid-19 de “imbecilidade”, que provoca constantemente o movimento negro e que gere uma instituição vinculada ao Ministério da Cultura, que atualmente, tem como secretária especial Regina Duarte, que desde que assumiu o cargo em janeiro deste ano, nada fez além de dar entrevistas com frases prontas e chiliques quando questionada? Que canta marchinha da ditadura e minimiza o período e a tortura ocorrida? A “namoradinha do Brasil” é apenas mais uma dos fiéis apoiadores do Messias da Morte que exalta, homenageia e trata como “herói nacional” um dos muitos militares torturadores da ditadura - Coronel Ustra – e que hoje, diante de uma crise pandêmica mundial, se mostra sem probidade, um perigo, visto que despreza a ciência e minimiza a atual pandemia de Covid-19, além de ser desumano, zombando da morte e ainda sendo ovacionado por isso.

Sempre vivemos assistindo ao teatro dos falsos heróis. Ao olharmos para trás, queremos encontrar nossos pares, referências próximas a nós dentro do aspecto social, cultural, de classe, de cor e de gênero. Queremos que aprendam mais sobre Chico Mendes, João Pedro Teixeira, Miguel Arraes de Alencar, Maria Felipa de Oliveira e menos sobre homens de patente e outras figuras criadas para uma história. Lutaremos para que os “heróis” de hoje caiam e desse dia em diante, seremos aqueles que fazem a História do coletivo e das minorias ser protagonista.

BIBLIOGRAFIA

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio Século XXI Escolar. O minidicionário da língua portuguesa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.


FURTADO, João Pinto. O Manto de Penélope – História, Mito e Memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. São Paulo: Companhia das letras, 2002.


MELO, Itamar. Conheça a história de Sepé Tiaraju, o índio que pode virar santo. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2020/02/conheca-a-historia-de-sepe-tiaraju-o-indio-que-pode-virar-santo-ck6chg9js0f6a01mv4rrqmvln.html/>. Acesso em: 14 mai 2020.


Senado Federal. 45 heróis e heroínas da Pátria. Disponível em: <https://senadofederal.tumblr.com/post/66681987378/45-her%C3%B3is-e-hero%C3%ADnas-da-p%C3%A1tria/>. Acesso em: 14 mai 2020.


Catraca Livre. 17 mulheres negras brasileiras que lutaram contra escravidão. Disponível em: <https://catracalivre.com.br/cidadania/17-mulheres-negras-brasileiras-que-lutaram-contra-escravidao/>. Acesso em: 14 mai 2020.


Fundação Cultural Palmares. Disponível em: <http://www.palmares.gov.br/>. Acesso em: 14 mai 2020.

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