• Ricardo Normanha

O ouro azul de Toritama: trabalho e carnaval na era ultraliberal

Estou me guardando para quando o carnaval chegar é um documentário fundamental para compreender as complexidades do mundo do trabalho na atual fase do desenvolvimento capitalista e serve como prova fundamental para confirmar a centralidade do trabalho em tempos de ultraliberalismo.



Cena do documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar de Marcelo Gomes.


Uma pequena cidade do agreste pernambucano concentra uma multiplicidade de contradições da fase atual do desenvolvimento capitalista. Este é o foco do documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes, lançado em 2019, disponível nas principais plataformas de streaming. Partindo de lembranças da infância do diretor em suas visitas à cidade de Toritama, o documentário lança um olhar crítico sobre os desdobramentos da inserção da cidade na cadeia produtiva da indústria do jeans e os impactos destas transformações nas formas de organização social de Toritama.


A narrativa desenvolvida por Marcelo Gomes indica que dois eixos fundamentais articulados organizam a vida social na cidade de Toritama: o trabalho e o carnaval. Mas a dinâmica produtiva da indústria do jeans impõe aos habitantes da pequena cidade uma relação bastante característica com o trabalho e o carnaval. Para compreender esta relação, é preciso entender o significado da reestruturação produtiva na dinâmica de acumulação do capital e as formas pelas quais as diferentes regiões do planeta se inserem nos processos produtivos.

Toritama está localizada há pouco mais de 150 km de Recife e tem uma população estimada em cerca de 45 mil habitantes [1]. É uma das cidades que compõem o pólo têxtil do agreste de Pernambuco que é fruto da busca por alternativas de sobrevivência de trabalhadores rurais que sofriam com a crise da produção de algodão e as constantes secas que afligem a região. O município, que até os anos de 1980 havia se dedicado especialmente à produção de calçados de baixo custo para a população mais pobre, se insere no complexo industrial do agreste se especializando na produção de jeans. E é este produto que confere nas últimas décadas o norteador dos habitantes de Toritama. Das fábricas instaladas nas garagens e quintais é extraído o ouro azul que movimenta a economia e organiza o metabolismo social da cidade [2].



Trabalho


O documentário é incisivo ao demonstrar a centralidade do trabalho na dinâmica social de Toritama. A atividade econômica fundamental é a confecção de jeans e a maioria absoluta da população está, de alguma forma, vinculada a esta produção. Assim como outras experiências de pólos têxteis do nordeste brasileiro, mas também de outras regiões do país, as confecções se estruturam fundamentalmente nas oficinas domésticas. No entanto, em Toritama, há um elemento característico deste fenômeno: cada oficina doméstica se constitui enquanto um núcleo de produção relativamente autônomo e não é tão nítida a ligação destas oficinas com fábricas maiores. Isto é, não se trata de um fenômeno típico de terceirização. O que de fato se apresenta é a multiplicação de espaços de produção de jeans que buscam espaço no mercado regional. Neste sentido, embora esta dinâmica produtiva esteja associada à reestruturação e reorganização do capital em nível global, em que se nota a descentralização da produção industrial e a integração desigual e dependente de diversas regiões do planeta nos processos de acumulação de capital, em Toritama, a pulverização de oficinas de confecção chama a atenção pela particularidade da dimensão do empreendedorismo individual.

Assim, a narrativa construída por Marcelo Gomes destaca os processos de subjetivação da dinâmica de acumulação entre os habitantes de Toritama. A lógica do empreendedorismo ganha contornos específicos de modo que, embora grande parte da população da cidade trabalhe nas confecções domésticas, o nível de formalidade do trabalho é bastante reduzido. Uma das características das oficinas familiares reside justamente no fato de que todos os indivíduos estejam inseridos no processo de produção sem vínculo empregatício. Ou seja, a atividade econômica é de responsabilidade da família, não importando idade, sexo ou tipo de vínculo de trabalho. O documentário ainda ressalta que, dado o crescimento da importância do jeans para a economia local, as oficinas domésticas, não raro, lançam mão de força de trabalho externa ao próprio núcleo familiar, o que não significa, nestes casos, a existência de vínculos formais de trabalho.


Neste sentido, prevalece nesta dinâmica de produção o trabalho em domicílio, informal e absolutamente precário em todos os níveis, desde os salários (em geral, por peça produzida), até as condições de trabalho, jornadas extensas e a ausência de proteção social. Ainda assim, o trabalho nas confecções é o motivador fundamental dos moradores de Toritama. Conforme o diretor ressalta em diversos trechos do filmes, todos buscam um lugar na precária indústria do jeans de Toritama, em geral, construindo uma perspectiva de desenvolvimento pessoal que passa pelo aceite de condições precárias de trabalho em uma oficina de parentes e vizinhos até chegar no sonho de construir a própria fábrica de jeans. O sonho liberal do enriquecimento como fruto do trabalho duro se cristaliza nas imagens do filme. Desta forma, o trabalho na confecção é o elemento central de sociabilidade dos habitantes da cidade.



Carnaval


O carnaval adquire uma dimensão complexa e aparentemente contraditória na dinâmica social de Toritama. Como ressalta o próprio título do documentário, o que o diretor procura enfatizar é que toda essa sujeição a formas absolutamente precárias de trabalho nas oficinas de jeans tem uma motivação especial. O carnaval aparece no documentário ao mesmo tempo como uma negação e um sentido para o trabalho. Negação na medida em que a cidade de Toritama fica deserta durante o carnaval, pois todos aqueles que conseguem, aproveitam o feriado (que na cidade parece tomar toda a semana) para se refugiarem em outras cidades, sítios, chácaras e, especialmente, nas praias mais próximas. A produção frenética de jeans que se amontoam nas portas das fábricas de fundo de quintal parece desaparecer ao longo de uma semana. O comércio quase não tem movimento e a cidade parece entrar no modo stand by. Os preparativos para o carnaval vão ganhando cada vez mais ênfase quanto mais próximo está o feriado.


Mas o carnaval também é promotor de sentido para o próprio trabalho dos habitantes de Toritama. A possibilidade de passar uma semana longe da cidade, longe das oficinas, em momentos de puro deleite e celebração do ócio funciona também como elemento de motivação para o trabalho. Desta forma, a narrativa do documentário procura ressaltar a necessidade de se submeter a condições precárias e muitas vezes desumanizantes de trabalho para que, quando o carnaval chegar, se possa usufruir das parcas economias juntadas ao longo do ano. Os moradores vendem bens e pertences comprados ao longo do ano com o esforço do trabalho para poderem aproveitar o carnaval.


Terminado o feriado, em pouco tempo, a rotina de trabalho volta ao normal; a produção de jeans retoma seu ritmo habitual e dá-se início a um novo ciclo que se encerrará no próximo carnaval.


Estou me guardando para quando o carnaval chegar é um documentário fundamental para compreender as complexidades do mundo do trabalho na atual fase do desenvolvimento capitalista e serve como prova fundamental para confirmar a centralidade do trabalho em tempos de ultraliberalismo. Ao contrário do que se profetizou ao longo das décadas de 1980 e 1990 (e que, vira e mexe, reaparece nos debates acadêmicos), as mudanças tecnológicas - características da reestruturação produtiva e dos novos paradigmas de produção de mercadores e acumulação de capital - não eliminaram o trabalho nem, tampouco, acabaram com a classe trabalhadora e a luta de classes. Pelo contrário, o que se vê é um deslocamento de parte da produção para outras regiões do planeta e o aprofundamento da exploração do trabalho em uma dinâmica de integração assimétrica e dependente que costumamos chamar de globalização econômica [3]. A mundialização do capital sob a égide do livre mercado, ganha contornos cada vez mais drásticos na medida em que avança o projeto de aprofundamento ultraliberal de desregulamentação do trabalho e de mistificação em torno do sonho empreendedor.




Fontes e referências:

[1] Prefeitura de Toritama: https://toritama.pe.gov.br/

[2] HELENO, Edilene do Amaral. Configurações do trabalho a domicílio nas confecções de roupas de jeans no município de Toritama - PE. João Pessoa, 2013 (Tese de Doutorado). Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/tede/7309/1/arquivototal.pdf (acessado em 26/10/2020).

[3] NORMANHA, Ricardo. A centralidade do trabalho em debate: notas para um balanço histórico e apontamentos para o presente e futuro da luta de classes. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História - PUCSP. V. 6, mai/ago, 2020. Disponível em https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/48187 (acessado em 26/10/2020).


Ricardo Normanha é sociólogo, professor e pesquisador do mundo do trabalho.


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