• Rafael Lopes

O mal do subjetivismo e do sectarismo

Atualizado: Mai 2

O marxismo é uma ciência que respira. Ela não se contenta em apenas analisar a realidade, mas vai além e a transforma. O marxismo acerta e erra, mas mais acerta do que erra, e isso é um fato. Então, por que muitos camaradas que se dizem marxista fecham os olhos para novas tendências que crescem no marxismo, blindando-se da crítica ao passado e taxando tudo que é novo como “revisionismo” ou contrarrevolucionário?

Primeiro vamos à uma verdade inquestionável: houve uma tendência do marxismo que foi a força motor de todas as revoluções socialistas bem sucedidas na história da humanidade, essa tendência é o marxismo-leninismo – que se pensarmos melhor, vai além de uma tendência:


O marxismo-leninismo é um sistema científico íntegro de concepções filosóficas, econômicas, sociais e políticas. Esse sistema é a filosofia da classe operária internacional, destinada a renovar o mundo nos princípios do socialismo e do comunismo. É a ciência sobre o conhecimento e transformação revolucionária do mundo, sobre as leis de desenvolvimento da sociedade, da natureza e do pensamento humano. (BUZÚIEV, GORODNOV, pag. 9)

O marxismo-leninismo guiou revoluções ao redor do mundo – da América Latina à África e Ásia – consolidando a análise marxista do mundo como a única análise correta em seu conjunto. Porém, isso não significa que todos aqueles que se intitularam e se intitulam marxista-leninistas seguem, de fato, os ensinamentos de Marx, Engels e Lenin. E muito menos que ao decorrer do desenvolvimento histórico das experiências socialistas guiadas pelo marxismo-leninismo não tenha ocorrido erros e equívocos. Porque, se as experiências do socialismo real que existiram no século passado, e as que seguem firmes no nosso século, não tivessem cometido erros, não teriam surgido novas tendências dentro do marxismo. E não estou falando de tendências contrarevolucionárias como algumas tendências dentro do trotskismo (o marxismo é tão vivo que surgem tendências dentro de tendências), mas sim de teorias que trazem algumas críticas construtivas sobre as experiências do socialismo real, como é o caso do ecossocialismo.

Não pretendo neste artigo me aprofundar nas teses do ecossocialismo, pois nem tenho o conhecimento teórico necessário para tal. Pretendo aqui combater o sectarismo e o subjetivismo que vejo em alguns camaradas, que se recusam a desdobrar as críticas feitas pelos ecossocialismo a nós, marxista-leninistas. Críticas essas que mesmo que tenham a intenção de combater o marxismo-leninismo (trato como hipótese pois não vi uma ação de combate generalizada ao marxismo-leninismo por parte dos ecossocialistas), no final podem ajudar a fortalecer o marxismo-leninismo a corrigir erros do passado.

Um dos pontos fundamentais do ecossocialismo é a crítica ao produtivismo empregado não só nos países capitalistas, como também nos socialistas. Um grande exemplo do emprego do produtivismo como meio para o desenvolvimento nacional são os processos de industrialização da URSS e da República Popular da China. Muitos camaradas recebem essas críticas como ataques ao socialismo real e logo tratam os ecossocialistas como revisionistas. O produtivismo da URSS e da China foi, na época, a única saída que ambos os países encontraram para desenvolver sua indústria, e obtiveram sucesso nisso: a URSS foi uma das maiores potências industriais de sua época e a China é até hoje uma das maiores (se não a maior) potência industrial do nosso tempo. Porém, é inegável o estrago que esses modelos causaram na natureza. Hoje, em muitas áreas da China, não se consegue ver o céu devido à poluição, tanto que o atual governo chinês vem traçando estratégias para um desenvolvimento verde e sustentável [1].

Dito isso, quero trazer o seguinte ponto: é possível criticar o produtivismo dos países socialistas sem ser anacrônico ou revisionista. Os ecossocialistas, nesse ponto, estão aplicando o método marxista de análise, partindo da realidade concreta para exercer sua crítica. E algo que deve ser deixado bem claro: no século XXI, onde estamos, é impossível pensar na revolução socialista sem ter o meio ambiente no centro de nossas preocupações. O mundo simplesmente não aguenta outro processo de industrialização baseado no produtivismo exacerbado tal qual os da URSS e da China. Para os soviéticos e para os chineses, o produtivismo era a única saída, para nós, não, hoje há outros meios de desenvolver nosso país sem agredir o meio ambiente.

Nesse processo todo de rejeição a crítica, se destaca uma atitude subjetivista, sectária e, por consequência, antimarxista. Analisaremos cada uma a seguir.

A atitude subjetivista da rejeição a crítica se dá porque alguns camaradas veem o pensamento de Marx, Engels, Lenin e Mao como um dogma quase religioso. “Tudo o que for crítico as experiências do socialismo real é inaceitável e revisionista”, esse pensamento é totalmente antimarxista. Ora, como podemos dizer que somos marxista-leninistas se ignoramos um dos fatores principais do marxismo, a autocrítica? Como aprender com os erros do passado para não cometê-los no futuro, se qualquer crítica a decisões da URSS de Stalin ou da China de Mao for ignorada e taxada como revisionismo? O marxismo não é estático e imutável, ele é vivo e transformador. Devemos ler Marx, Engels, Lenin e Mao como fontes para servir de pilar na construção da Revolução Brasileira, não levar suas palavras como dogmas imutáveis. Devemos aplicar seus ensinamentos à realidade brasileira. Mao diz o seguinte sobre a atitude subjetivista:


Com essa atitude, estudam o marxismo-leninismo em abstrato, sem qualquer objetivo. Estudam teoria não para encontrar em Marx, Engels, Lenin e Stalin a posição, o ponto de vista e o método para resolver os problemas teóricos e táticos da Revolução Chinesa, mas apenas pela teoria em si. (ZEDONG, pag. 84)


O marxismo-leninismo foi criado com base na prática política, da ação concreta na realidade concreta. A realidade concreta nos mostra que a Terra não aguenta mais modelos de industrialização baseados no produtivismo. Por que então ignorar a realidade concreta e partir de uma atitude subjetivista de repetir o passado sem repará-lo? Essa atitude é ainda mais agravante quando falamos do Brasil. O que mais se destaca em nosso país? Qual é o maior valor estratégico que temos em comparação a todos os outros países do mundo? A resposta é a nossa natureza, nossa biodiversidade. Por que então não pensamos a Revolução Brasileira não na luta contra a natureza, mas sim na ação conjunta com ela? É fundamental aprendermos com nossa prática, assim como Marx e Engels criaram o marxismo, e Lênin o marxismo-leninismo na base da prática, na conclusão geral que tiraram da realidade histórica e revolucionária.

Porém, temos que ficar atentos também para que as críticas ao produtivismo soviético e chinês não se transformem em ataques ao socialismo real. Há a autocrítica e há a autofagia; só a primeira é uma atitude marxista-leninista. O passado de nossos camaradas soviéticos e chineses devem nos servir como aprendizado. Devemos ser críticos, mas sem condená-los. Devemos curar a doença do paciente, sem ter que o matar para isso.

Já o sectarismo é a negação do papel que os críticos marxistas do marxismo-leninismo têm na construção do próprio marxismo-leninismo. Às vezes é difícil enxergarmos nossos erros sem o auxílio de outra pessoa, a autocrítica sozinha é um processo complicado, pois inclui apenas um olhar: o próprio. E olhar para dentro é inúmeras vezes mais complicado do que olhar para fora. Nisso, a crítica dos ecossocialistas no que diz respeito ao produtivismo é de muito valor para nós pensarmos um marxismo-leninismo onde a questão ecológica esteja no centro de nosso projeto político. O mundo muda constantemente, nossas ações devem mudar também. Há um pensamento de Mao que é fundamental nessa questão:


As condições mudam permanentemente, sendo necessário estudar para que as nossas ideias se adaptem às novas condições. E mesmo aqueles que conhecem melhor o marxismo, se são relativamente mais firmes na sua posição proletária, devem também continuar a estudar, devem assimilar o que é novo, estudar os problemas novos. (ZEGONG, pag 264).


Por fim, os camaradas que têm atitudes subjetivistas e sectárias estão, em última, tendo atitudes antimarxistas, pois em ambas as atitudes não partimos da realidade concreta para fundamentar nossa teoria. Como disse Marx, “a investigação tem de se apropriar do material em pormenor, de analisar as suas diversas formas de desenvolvimento e de seguir a pista do seu vínculo interno. Somente depois de completado este trabalho pode o movimento real ser exposto em conformidade.” [2]. Ou seja, no estudo da realidade concreta é que se fundamenta nossa teoria. O subjetivismo como aqui exposto não parte da realidade concreta. E como Lênin pontua muito bem, não há espaço para o sectarismo no marxismo:


A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com todo a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao “sectarismo”, no sentido de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. (LENIN)


Por fim, não há dúvidas que o marxismo-leninismo seja ainda a ciência do proletariado e a única que nos guiará à Revolução Brasileira. Porém, ela só nos guiará se a tratamos como ciência, não como dogma. Dogmas não servem para nada. Nossa teoria não é um dogma, mas sim um guia para ação. Devemos ouvir atentamente as críticas dos nossos camaradas ecossocialistas, devemos aprender com eles não para matar o marxismo-leninismo, mas para fortificá-lo cada vez mais. Nossas contradições são contradições dentre o seio do povo, não contradições entre inimigos.


Recomendo alguns vídeos para melhor se entender sobre o tema aqui debatido:


Jones Manoel:

Sobre o marxismo-leninismo: https://www.youtube.com/watch?v=j0bcZ0kQeJw

Sobre a visão maoista do sectarismo e subjetivismo: https://www.youtube.com/watch?v=0n5v9Fk_1dU&ab_&ab_channel=JonesManoel


Tese Onze:

Sobre o Ecossocialismo: https://www.youtube.com/watch?v=WcpZG3HkEtQ&t=602s&ab_channel=TeseOnze


Notas:

[1] https://revistaopera.com.br/2019/03/27/os-planos-da-china-para-um-crescimento-verde/

[2] https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/prefacios/03.htm


Referências:

BUZÚIEV, V., GORODNOV, V. O que é marxismo-leninismo. – Moscou: Editora Progresso, 1987

LENIN, V. I. Obras escolhidas, tomo 1. 5.ed. – Edições Avante!.

STÉDILE, Miguel E. Mao Zedong e a revolução chinesa: métodos de direção e desafios da transição ao socialismo. 1.ed. – São Paulo: Expressão Popular, 2019.

TSETUNG, M. Citações do Presidente Mao Tsetung. 1.ed. – Editora Minerva, 1974.

Referencias no marxist.org:

Mao Zedong:

Reformemos nosso estudo, https://www.marxists.org/portugues/mao/1941/mes/estudo.htm

Rectifiquemos o Estilo de Trabalho do Partido, https://www.marxists.org/portugues/mao/1942/02/01.htm

Sobre o tratamento correto das contradições no seio do povo, https://www.marxists.org/portugues/mao/1957/02/27.htm

Lenin:

As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo, https://www.marxists.org/portugues/lenin/1913/03/tresfont.htm


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