• Clio Operária

O imperialismo e a questão negra

Rafael Torres*


Lênin, nome de grande debate entre a esquerda liberal (um ditador, segundo eles) e a esquerda revolucionária, sendo líder da Revolução de Outubro, possui, além disso, um outro marco histórico: pela primeira vez a Internacional Comunista (IC) começou a tratar sobre a formação colonial dos povos de periferia do capital, devido a ele.

Alguns pensadores trabalham com a ideia de formação do racismo a partir da acumulação primitiva do capital, como é o caso de Frantz Fanon, um dos maiores filósofos marxistas. Logo, para o capitalismo existir, um dos processos é a manutenção da violência racial através da figura do Estado. Lênin, nesse sentido, trabalha com a ideia da zona de guerra africana ser o palco das grandes potencias imperialistas mostrarem todo o seu aparato bélico, e, de fato está correto, basta vermos a situação africana hoje, onde o continente basicamente morre todo dia, cada vez mais.


“Portanto, se o capitalismo é para continuar, ele deve entrar em acordo com o problema cada vez mais difícil de como intensificar a sua colonização das regiões habitadas por pessoas negras.” (Tese apresentada por Lênin ao 4º Congresso da Internacional, 1922)


A história dos negros na América, após serem arrancados de suas terras natais, nada mais é do que a história de fortalecimento do capital. Tanto nos EUA, quanto aos países como o Brasil, os negros construíram tudo que hoje é tido como História: velhas estradas, velhas ruas, velhos bairros, velhos marcos. Pois bem, o pagamento foi um banho de sangue generalizado. Angela Davis mostra em Mulheres, raça e classe alguns desses depoimentos de ex escravos. Historicamente, o balanço que Lênin e os historiadores, fazem do fim da escravidão é o enfrentamento da escravidão propriamente dita, e a nova escravidão, a assalariada. No Brasil, um dos últimos países a abolir, em 1888, tal processo só ocorreu justamente pela pressão de outros países, onde o regime escravagista já não era mais viável, como a Inglaterra, caso contrário, ninguém sabe quando seria abolida.


Nos EUA, esse processo ocorreu de forma parecida, entre o Norte, querendo manter sua hegemonia industrial pela escravidão assalariada e o Sul, que ainda se utilizava de escravos no sentido clássico. A Guerra Civil norte-americana nada mais foi do que a decisão de qual tipo de escravos seria permitida a exploração. Com o agravamento da disputa imperialista e territorial entre as potencias, pela disputa inclusive da África, os negros americanos ganharam sua “emancipação”, ou, sua liberdade para morrer na guerra, lutando por uma democracia que não o inclui.


“A Internacional Comunista deve mostrar aos negros que eles não são os únicos a sofrer a opressão capitalista e imperialista, que os trabalhadores e camponeses da Europa, Ásia e América também são vítimas do imperialismo, que a luta negra contra o imperialismo não é a luta de um único povo, mas de todos os povos do mundo. “ (Tese apresentada por Lênin ao 4° Congresso da Internacional, 1922).


O trecho acima, diferentemente do que alguns marxistas elaboram, não exemplifica uma descentralização, ou desfoco, da luta de classes, pelo contrário, ele mostra a necessidade de se incorporar e pensar a luta de classes a partir da ótica de formação da sociedade capitalista com o acúmulo primitivo do capital com o início das grandes navegações. Não há como pensar a luta de classes hoje sem ressignificar a mesma nos dias atuais, e não há como pensar em ressignificar sem pensar na questão negra e na forma como o racismo é utilizado pela classe burguesa para a divisão da classe trabalhadora.


Percebam, o inimigo é o mesmo! O povo negro, em sua história, teve que lutar pelos mesmos direitos da classe trabalhadora no geral, como a emancipação política, econômica, social, e, principalmente, igualdade (em todos os sentidos). Porém, lembremos que mesmo sendo da classe trabalhadora, um negro e um branco, possuem enormes diferenças salariais, se for uma mulher negra, pior ainda. Ou seja, a questão negra, apesar de estar inserida no debate marxista, e tem que estar, ainda deve ser tomada a partir de um ponto de vista mais delicado e abrangente. Não é possível pensar numa revolução sem pensar na participação negra, mas, para pensar a participação negra, deve-se pensar nas condições materiais do negro e essas condições não podem ser analisadas como os brancos escravos assalariados.


Deixo aqui as 4 observações da IC sobre a questão negra:


1. O IV Congresso considera essencial apoiar todas as formas do movimento negro que visam minar ou enfraquecer o capitalismo e o imperialismo ou impedir a sua expansão.


2. A IC lutará pela igualdade racial dos negros e brancos, por salários iguais e igualdade de direitos sociais e políticos.


3. A IC fará todo o possível para forçar os sindicatos a admitirem trabalhadores negros onde a admissão é legal, e vai insistir numa campanha especial para alcançar este fim. Se não tiver êxito, ela irá organizar os negros nos seus próprios sindicatos e então fazer uso especial da tática da frente única para forçar os sindicatos gerais a admiti-los.


4. A IC vai tomar imediatamente medidas para convocar uma conferência ou congresso Internacional negro, em Moscou.


Ignorar esse debate é ignorar a relevância história da IC e de Lênin, além de retroceder a mais de 100 anos.


Rafael Torres é historiador, educador popular na rede Podemos+, editor na Revista Clio Operária, desenhista e escritor.



Referência bibliográfica


Tese apresentada ao 4° Congresso da Internacional Comunista realizado no período de 5/11 a 5/12 de 1922.

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