• Clio Operária

O homem é, e deve ser, angústia!

Rafael Torres*



No dia 16/07/2019, na Zona Leste de São Paulo, mais especificamente, no início da Radial Leste, uma militante transexual, que faz parte do diretório Municipal LGBT do PSOL, em Guarulhos, foi sequestrada e torturada, por ditos “cidadãos de bem”, apoiadores declarados do atual Presidente da República. Ameaçaram-na com armas de fogo, ouviu insultos transfóbicos, foi agredida fisicamente, ao passo que deixavam claro, também, o repúdio à ideologia política do PSOL.


Por isso, decidi por fazer um debate acerca do conceito de existencialismo ateu, para tentar compreender essa discussão de gênero.


“A existência precede a essência” é desse pressuposto que Jean-Paul Sartre (1905–1980) parte para explicar o existencialismo. Mas, afinal, o que significa existencialismo?


Este é um termo simples, porém, devido suas ramificações, a sua compreensão acaba sendo dificultada. O existencialismo cristão, com grandes defensores, como René Descartes (1596–1650), coloca Deus como um criador superior, como um artesão de humanos, que os prepara previamente, de acordo com técnicas e predefinições. Seria o que alguns chamam de destino. Com o desenvolvimento do ateísmo filosófico, a partir do século XVIII, a concepção de um Deus criador foi repensada, dando lugar ao conceito de natureza humana, o que, ainda, não excluía totalmente a ideia de uma essência anterior à existência, já que, a natureza humana é, nessa filosofia, um estado comum a todos os homens, fazendo com que cada indivíduo represente um conceito universal, sendo o próprio homem. Nesse sentido, o homem precede o homem.


O existencialismo ateu traz uma visão bem mais coerente, e realista, como seu propósito. Excluindo a existência de Deus, logo, o homem não possui uma predefinição, pois, ele existe, encontra a si mesmo, surge no mundo, e só, posteriormente, ele se define. Podemos, portanto, estabelecer que a definição ditada por Deus, ou pela natureza humana, não existe, sendo assim, o indivíduo, a priori, não é nada, não é feito de nada, mas sim, o fará, e o fará como quiser. “O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: esse é o primeiro princípio do existencialismo.” (SARTRE, 1970, p.4)


Nesse momento, a subjetividade existencialista, um dos pilares da teoria, é compreendida. Se um homem se faz como quiser, este está criando a imagem de um homem ideal para ele, ou seja, o homem que ele julga ser adequado, o que deve ser espelho para a sociedade, logo, o homem é responsável tanto por si, quanto por todos os outros homens.


O existencialismo é uma das correntes, se não, a corrente, mais repugnada pela sociedade, um dos argumentos é o do forte pessimismo do existencial, porém, como o compromisso dele esbarra em verdade, no real, no subjetivo — no conceito de dualidade do subjetivo — logo a sociedade não compreende o péssimo entorno que vive, fechando os olhos para as atrocidades praticadas por ela mesma. Um dos pontos do dito “pessimismo” é a afirmação de que o homem é angústia. Isso significa, em outras palavras, que o sujeito quando compreende que é legislador, não só de si, mas também de toda a humanidade, não consegue se desvencilhar do tamanho de sua responsabilidade, o que gera um questionamento interno constante. Dessa forma, para um sujeito que não se reconhece como legislador de si e da humanidade, quando questionado se todos tivessem determinada atitude, como a dele, responderá “mas nem todos têm”. A questão é mais profunda, não devendo fugir dessa pergunta, e sim, pensar numa sociedade de atos comparados aos seus. Isso nos leva ao próximo questionamento. “E cada homem deve perguntar a si próprio: sou eu, realmente, aquele que tem o direito de agir de tal forma que meus atos sirvam de norma para toda a sociedade? “ (SARTRE, 1970, p. 6). O fato de o homem entender que ele é legislador de si e dos outros, através de si, não o impõe outras funções, ou seja, ele pode ser legislador, mas não deve, em hipótese alguma, exercer — numa metáfora com os Três Poderes do Estado — poder executivo e judiciário, justamente pelo questionamento feito a si, sobre se seus atos devem servir de norma para toda a sociedade, levando, claro, a resposta para tal questão, que deve sempre ser não.


O outro pessimismo do existencialismo é o desamparo. Esse desamparo é criado a partir de uma ideia de que Deus não exista. Outro filósofo existencialista, Dostoievski (1821–1881) afirma que se Deus não existe, tudo é permitido, e de fato é, mas, isso não é algo bom, já que, a ideia da não existência Dele faz com que não se tenha desculpas, ou seja, não há determinismo divino ou da natureza humana, dessa forma, nem na pré-existência, nem no futuro reino dos céus, encontrará desculpas para seus atos. Assim, nem os próprios crimes passionais fazem sentido. A paixão, seja pelo que for, segundo o existencialismo, não faz com que os homens cometam atos fatais, pois, isso é apenas uma desculpa, ou, popularmente falando, uma muleta.


Esses pontos do existencialismo ateu nos trazem uma luz, para questionar o ocorrido com a companheira do PSOL. Se, partindo do pressuposto que não há uma entidade superior, o ser humano é um nada, é vazio, e permanece assim até o momento em que ele se fizer, os debates sobre questões de gênero, ou raça, são infundados. O indivíduo, que se prende em questões como essa, nega a sua própria angústia em questionar-se acerca da normativa de seus atos, como espelho. E encontra em sua atitude, o suporte de uma religião que dita regras separatistas, argumentando que num livro de mais de mil anos — do qual não sabemos sua origem específica, nem a veracidade do conteúdo escrito — está a motivação para suas atitudes. O slogan de campanha do presidente elabora bem essa questão. Além disso, o desamparo deve ser sentido, e vivido.


O questionamento, acerca dos meus atos, me faz buscar primeiro interiormente um indivíduo que, de fato, tenha como objetivo o melhor. Logo, o homem, individualmente, se anula como espelho, pois, nunca será o exemplo para a humanidade, portanto, se todos os outros componentes da sociedade se questionassem, essa busca pelo melhor em si geraria um estado de empatia extrema, tanto para si, quanto para o outro. O ser humano não pode ignorar sua própria angustia, pois, assim, ignora a angústia do próximo.


*Rafael Torres é historiador, educador popular na rede Podemos+, editor na Revista Clio Operária, desenhista e escritor.


Referências bibliográficas


SARTRE,Jean-Paul.O Existencialismo é Um Humanismo.4. ed. Curitiba: Editora Vozes de Bolso. 2014.


PSOL. Militante Trans do PSOL é Sequestrada e Torturada na Zona Leste de São Paulo.Partido Socialismo e Liberdade,29 de julho de 2019. Disponível em:http://psol50.org.br/militante-trans-do-psol-e-sequestrada-e-torturada-na-zona-leste-de-sp/Acesso em: 30 de julho de 2019.

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