• Celia Regina da Silva

O DIA DA REBELDIA NACIONAL E O TRIUNFO DA REVOLUÇÃO CUBANA

Minha estadia de 12 dias em Cuba em fevereiro de 2015 me enriqueceu de memórias significativas e potencializou meu interesse pela história Cubana. Não deu para segurar as lágrimas diante das conquistas humanas representadas no museu da revolução. Afinal, para uma filha de migrantes do nordeste , morando na cidade em que 222 mil pessoas [1] vivem na rua e que brilha os olhos diante da frase “se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence”, descobrir que uma das primeiras medidas do governo revolucionário foi garantir a todos a propriedade da casa em que moravam naquele exato momento é de abalar o coração. Foi como se o povo cubano representasse cada parente meu que vi trabalhar a vida toda sob ameaça constante de não ter onde morar se perdessem o emprego ou cada pessoa que vi dormindo no chão ao caminhar pelas ruas de São Paulo.

Outras duas vivencias dessa viajem que me marcaram muito: o entusiasmo no modo como os cubanos reagiam quando eu dizia meu nome, sempre associando-o à Célia Sanchez, que foi chefe de soldados ao lado de Che Guevara na Sierra Maestra, por quem o povo cubano tem um carinho enorme; ter minha passagem de ônibus paga por um senhor porque o valor era tão baixo que a menor moeda que eu tinha na carteira dava para pagar a passagem de ida e volta a semana toda e este senhor me perguntar se eu sabia quantas mulheres foram “molestadas” em cuba no ano anterior e ele mesmo responde: - foram “duas”, sim duas no ano todo! (repetiu com entusiasmo); e por fim, a sensação que eu tinha toda vez que as pessoas pronunciavam a frase “después del triunfo de la revolución”. Certamente, aqueles dias em Cuba me marcaram tanto que passei a buscar mais informações sobre o processo histórico que tornou possível a revolução cubana nas condições em que se ela deu.

Foi buscando compreender o processo revolucionário cubano que entendi melhor o dia 26 de julho em que os cubanos celebram o dia da rebeldia nacional. No ano de 1953 essa data foi o dia em que se deu a primeira ação realizada por um grupo de revolucionários organizados, apontada como semente do trinfo da revolução cubana.

Com o golpe orquestrado pelo general Fulgêncio Batista com apoio do exército cubano em março de 1952, Cuba ficou sob a tirania de um ditador submisso ao governo norte-americano que reconheceu seu governo ilegítimo, apoiando-o totalmente. Ficou conhecido como último presidente antes da revolução, permanecendo no poder até 1959. Seu governo foi marcado por perseguições e assassinato de opositores e inocentes. Para termos uma ideia do grau de influência americana em Cuba, vamos a alguns dados: durante o governo Batista “os Estados unidos possuíam 90% das minas cubanas, 80% dos serviços públicos, 50% de suas ferrovias, 40% da produção de açúcar e 25% dos seus depósitos bancários. [2]

Desde que era estudante de direito na universidade de Havana Fidel Castro já atuava em defesa dos oponentes do governo, era candidato a um cargo político quando Fulgêncio suspendeu as eleições e já contava com muitos apoiadores no que diz respeito às críticas ao governo. A ação no quartel Moncada tinha como objetivo iniciar uma insurgência contra o governo Batista e armar a população para derrubar o ditador. Contou com a participação de 151 militantes, organizados em 3 grupos sendo: um grupo liderado por Raul Castro que visava atuar no palácio da justiça, outro grupo sob comando de Abel Santamaria que tinha como alvo o Hospital militar e, por fim, o grupo incumbido atuar no quartel Moncada sob a liderança de Fidel Castro que teve seu disfarce descoberto pelos soldados, gerando um confronto cujo resultado imediato foi a morte de 3 militantes durante o embate e a prisão das lideranças entre outros e, mais tarde, a tortura e assassinato de mais 55 militantes entre os quais estava Abel Santamaria. [3]

Fidel e Raul Castro foram condenados a 15 anos de prisão. Ao fazer sua própria defesadiante dessa condenação Fidel proferiu um discurso que ficou conhecido como “A história me absolverá” e circulou o mundo todo em forma de livro. Dois anos depois os presos foram anistiados e Fidel se exilou no México, de onde pode dar continuidade ao plano de derrubar o governo Batista em prol de um governo voltado para os interesses do povo cubano. Foi lá que conheceu Che Guevara e fundou o "Movimento 26 de Julio" em referência à essa data que , na visão dele, foi fundamental para os passos que a sucederam, culminando com a revolução.

“Em primeiro lugar, [Moncada] iniciou um período de luta armada que não terminou até a derrota da tirania. Em segundo, criou novas lideranças e uma nova organização que repudiava o conformismo e o reformismo, que eram combatentes e decididos e que no próprio julgamento levantaram um programa de transformações socioeconômicas e políticas exigidas pela situação em Cuba”, disse Castro anos mais tarde, já como presidente da República cubana. [3]

O trinfo da revolução é evidenciado por inúmeros dados relacionados aos direitos humanos básicos como moradia, saúde e educação. Só o fato de que haja no mundo um lugar em que todas as pessoas tenham tido acesso a esses serviços com a qualidade oferecida por Cuba já deveria ser o suficiente para reconhecer que se trata de uma experiência que tem muito a nos ensinar. Outro aspecto que serve de parâmetro para constatarmos o êxito da revolução cubana é todo esforço e investimento feito pelos EUA para interferir no modelo de governo cubano, com destaque para o embargo criminoso[4] que já dura mais de 60 anos e se quer é mencionado por aqueles que dizem estar preocupados com a liberdade do povo cubano. Não por acaso, nada disso é levado em consideração nas análises superficiais que tem sido feitas em relação ao momento atualmente enfrentado em Cuba. [5]

A experiência cubana tem muito a ensinar ao mundo sobre as condições que possibilitam formar um tipo de ser humano coletivista, cujos valores privilegiam o bem-estar de todos em detrimento do privilégio e conforto de alguns. Sob esse ponto de vista a história do povo cubano não só garante a Fidel a absolvição como nos presenteia com o feito de 26 de julho que é patrimônio histórico para todos que defendem a soberania popular.


[1]https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2021/01/13/especialistas-veem-aumento-de-populacao-de-rua-mas-nao-ha-dados-oficiais

[2]https://maestrovirtuale.com/fulgencio-batista-biografia-e-caracteristicas-de-seu-governo/

[3]https://www.brasildefato.com.br/2019/07/26/ha-66-anos-grupo-liderado-por-fidel-castro-plantava-a-semente-da-revolucao-cubana

[4]https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/07/14/o-que-e-o-embargo-dos-eua-a-cuba-e-como-ele-afetou-a-economia-da-ilha

[5]https://revistaforum.com.br/global/o-que-esta-acontecendo-em-cuba-manifestacoes-governo/


Celia Regina da Silva é psicóloga e trabalha como professora na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Atua como militante no coletivo feminista classista Ana Montenegro (Uberlândia) e na Unidade Classista (Uberlândia/Ituiutaba). Integra o grupo de colunistas da Clio Operária.


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